CAPITULO 5: A PANELINHA
— Nunca mais me assuste desse jeito! — Callie reprimiu Luce na tarde de quarta-feira.
Foi logo depois do pôr do sol, e Luce estava dobrada dentro do cubículo telefônico da Sword & Cross, um confinado minúsculo no meio da área do escritório frontal. Estava longe de ser privado, mas ninguém estava ali vadiando. Seus braços continuavam doloridos por causa da detenção do dia anterior no cemitério, o orgulho dela continuava ferido da fuga de Daniel no instante em que eles foram puxados para baixo da estátua. Mas por quinze minutos, Luce estava tentando tirar tudo aquilo de sua mente para absorver cada palavra alegremente frenética que sua melhor amiga poderia cuspir para fora no tempo repartido. Era tão bom ouvir a voz estridente de Callie que Luce nem ligava que ela estivesse gritando.
— Nós prometemos que não nos ficaríamos sem nos falar nem uma hora — Callie continuou, acusadora. — Eu pensei que alguém te comeu viva! Ou então eles talvez te prenderam na solitária em uma dessas camisas de força que você tem que mastigar através da manga para coçar seu rosto. Por tudo que eu sei, você poderia ter caído num desses nonos círculos de...
— Okay, mãe — Luce disse, rindo e exercendo o papel de instrutora de respiração de Callie. — Relaxe.
Por um milésimo de segundo, ela se sentiu culpada por não ter usado sua única ligação telefônica para ligar para sua mãe de verdade. Mas ela sabia que Callie iria se descabelar se ela descobrisse que Luce não havia agarrado a primeira oportunidade de entrar em contato. E de um jeito estranho, era sempre tranquilizador ouvir a voz histérica de Callie. Era uma das muitas razões que as duas eram uma boa dupla: a paranoia acima do normal de sua melhor amiga na verdade tinha um efeito calmante em Luce. Ela poderia apenas visualizar Callie em seu dormitório na Dover, acariciando seu tapete laranja, com Oxy espalhado sobre sua zona T e espumas de pedicure separando seus dedos dos pés pintados com esmalte fúcsia ainda molhado.
— Não me chame de mãe! — Calle bufou. — Comece a falar. Como são os outros por aí? São todos assustadores e disparam diuréticos como nos filmes? E suas aulas? Como é a comida?
Através do telefone, Luce podia ouvir Roman Holiday tocando ao fundo na TV de Callie. A cena favorita de Luce sempre foi aquela que Audrey Hepburn acorda no quarto de Gregory Pack, ainda convencida que a noite anterior foi um sonho. Luce fechou os olhos e tentou visualizar a cena em sua mente. Mimetizando o sussurro sonolento de Audrey, ela citou a fala que ela sabia que Callie ia reconhecer:
— “Havia um homem, ele era tão mal pra mim. Isso era maravilhoso”.
— Okay, Princesa, é sobre a sua vida que eu quero ouvir — Callie importunou.
Infelizmente, não havia nada sobre a Sword & Cross que Luce consideraria descrever como maravilhoso. Pensando sobre Daniel, pela, oh, oitagésima vez no dia, ela percebeu que o único paralelo entra sua vida e Roman Holiday era que Audrey também tinha um cara que era agressivelmente rude e desinteressado nela. Luce descansou sua cabeça sobre o linóleo bege das paredes do cubículo. Alguém havia esculpido as palavras ESPERANDO MINHA VEZ. Em circunstâncias normais, isso seria quando Luce falaria tudo sobre Daniel para Callie. Exceto, por uma razão, ela não fez.
O que quer que ela desejasse dizer sobre Daniel não seria baseado em nada que realmente aconteceu entre eles. E Callie sempre foi boa em fazer os garotos perceberem o quanto eram dignos de você. Ela gostaria de saber coisas sobre como quantas vezes ele abriu a porta para Luce ou se ele tinha percebido quão bom era seu sotaque francês. Callie não achava que havia nada de errado com os caras inexperientes que escreviam poemas de amor que Luce nunca levou a sério. Luce pensou em várias coisas para dizer sobre Daniel. E na verdade, Callie estaria mais interessada em ouvir sobre alguém como Cam.
— Bom, tem um cara aqui — Luce sussurrou para o telefone.
— Sabia! — Callie guinchou. — Nome.
Daniel. Daniel. Luce pigarreou.
— Cam.
— Direto, sem complicações. Eu posso lidar com isso. Comece do começo.
— Bom, nada aconteceu ainda.
— Ele acha que você é maravilhosa e blá blá blá. Eu te disse que o cabelo curto ia te deixar como a Audrey. Vamos para a parte boa.
— Bem... — Luce interrompeu.
O som de passos na sala a calaram. Ela inclinou-se para o lado do cubículo e esticou seu pescoço para ver quem estava interrompendo os melhores quinze minutos que ela estava tendo em três dias inteiros.
Cam estava andando na direção dela.
Falando do diabo. Ela engoliu as horríveis palavras falhas na ponta de sua língua: Ele me deu a paleta da guitarra. Ela ainda o tinha dentro do bolso.
O comportamento de Cam era casual, como se por algum golpe de sorte ele não tivesse escutado o que ela havia dito. Ele parecia ser o único aluno da Sword & Cross que não tirava seu uniforme escolar no minuto seguinte que a aula acabasse. Mas o visual preto-no-preto parecia feito para ele, tanto quanto fazia Luce parecer a menina do caixa da mercearia.
Cam estava rodando um relógio de bolso dourado, que balançava a partir de uma longa cadeia laçada em volta de seu dedo indicador. Luce seguiu aquele brilhante arco por um momento, um pouco hipnotizada, até que Cam agarrou a face do relógio para parar em seu punho. Ele olhou para baixo para ver isso, e depois olhou para ela.
— Desculpe — seus lábios se contorceram confusos. — Eu pensei que eu estava com a ligação de sete horas. — Ele encolheu. — Mas eu devo ter escrito isso errado.
O coração de Luce pulou quando ela olhou para seu próprio relógio. Ela e Callie haviam falado apenas quinze palavras uma para a outra – como seus quinze minutos já podiam ter acabado?
— Luce? Oi? — Callie parecia impaciente do outro lado da linha. — Você está sendo estranha. Tem alguma coisa que você não está me contando? Você já me substituiu por algum cortador de escola reformatória? E o cara?
— Shh — Luce assobiou no telefone. — Cam, espere — ela disse, segurando o telefone longe de sua boca. Ele já estava meio caminho da porta. — Só um segundo. Eu estava... — ela engoliu — eu estava só me despedindo.
Cam deslizou seu relógio de bolso para dentro da parte da frente de seu blazer preto e se duplicou em relação a Luce. Ele ergueu seus olhos castanhos e riu alto quando ouviu a voz de Callie crescer do telefone.
— Não pense em desligar. Você não me contou nada! Nada!
— Eu não quero por ninguém pra fora — Cam brincou, gesticulando para o telefone que ladrava. — Pegue minha ficha, você pode me devolver qualquer dia desses.
— Não — Luce disse rapidamente.
Da mesma forma que ela queria continuar falando com Callie, ela imaginou que Cam sentia do mesmo jeito em relação a quem quer que ele fosse telefonar. E diferente de várias pessoas na escola, Cam não havia sido nada mais que legal com ela. Ela não queria o fazer abrir mão de seu turno no telefone, especialmente agora, que ela estava nervosa sobre fofocar com Callie a respeito dele.
— Callie — ela falou, suspirando no telefone. — Eu tenho que ir. Eu ligo logo assim que...
Mas então só havia o vago zumbido do tom de discagem em seu ouvido. O telefone havia sido programado para ser usado apenas por quinze minutos. Agora ela podia ver o pequeno contador marcando 0:00 em sua base. Elas nem haviam se despedido e agora ela teria que esperar mais uma semana inteira para ligar. Horário estendido na mente Luce é como um abismo sem fim.
— Melhor amiga? — Cam perguntou, entrando no cubículo ao lado de Luce.
Seus suas sobrancelhas continuavam arqueadas.
— Eu tenho três irmãs mais novas, eu posso praticamente cheirar a vibração de melhores amigas ao telefone.
Ele se inclinou para frente como se ele fosse cheirar Luce, o que a fez soltar um riso abafado... E depois congelar. A aproximação inesperada dele fez o coração dela pular.
— Deixe-me ver — Cam endireitou-se para trás e levantou o queixo. — Ela quer saber tudo sobre os bad boys de escolas reformatórias?
— Não!
Luce sacudiu a cabeça para provar veementemente que caras não estavam na sua mente de qualquer forma... Até que ela percebeu que Cam estava apenas brincando. Ela corou e fez uma piada de volta.
— Eu quis dizer, não há nenhum solteiro bom aqui.
Cam piscou.
— Precisamente o que deixa isso tão excitante. Você não acha?
Ele tinha um jeito de permanecer muito quieto, o que fazia Luce ficar muito quieta, o que fazia o tique-taque do relógio de bolso dentro do blazer dele parecer mais alto do que possivelmente poderia ser.
Congelada próxima de Cam, Luce de repente estremeceu quando alguma coisa preta atacou violentamente a sala. A sombra parecia jogar amarelinha entre os painéis do teto de um jeito bem cauteloso, preenchendo um quadrado e depois o outro, e depois o outro. Maldição. Nunca seria bom estar sozinha com alguém – especialmente alguém que estivesse centrado nela como Cam estava naquele momento – quando as sombras vinham. Ela podia sentir espasmos, tentando parecer calma enquanto as sombras negras giravam em torno do ventilador de teto, dançando.
Sozinha ela poderia ter resistido. Talvez. Mas as sombras também estavam fazendo os piores de seus terríveis barulhos, um som que Luce havia escutado quando ela viu uma coruja bebê cair de uma árvore e sufocar até a morte. Ela queria que Cam apenas parasse de olhar para ela. Ela queria que alguma coisa acontecesse para chamar sua atenção. Ela desejava Daniel Grigori.
E então ele apareceu. Salva pelo maravilhoso cara usando jeans rasgados e uma camiseta branca surrada. Ele não parecia muito com a salvação – desleixado sobre sua pesada pilha de livros da biblioteca, olheiras cinzas embaixo de seus olhos cinzas. Daniel parecia estar meio acabado. Seu cabelo loiro caía encima de seus olhos, e quando eles se fixaram em Luce e Cam, Luce os viu se estreitarem. Ela estava tão ocupada se lamuriando sobre o que havia feito para incomodar Daniel dessa vez, que nem percebeu a coisa momentânea que aconteceu: um segundo depois que a porta se fechou atrás dele, as sombras deslizaram sobre a porta e foram para a noite. Era como se alguém houvesse tirado um vácuo e limpado toda a sujeira da sala.
Daniel apenas assentiu em sua direção e não desacelerou enquanto ele passava.
Quando Luce olhou para Cam, ele estava observando Daniel. Ele se virou para Luce e disse, mais alto do que o necessário:
— Eu esqueci de te dizer. Terá uma pequena festa no meu quarto essa noite depois da social. Eu amaria se você fosse.
Daniel continuava escutando. Luce não fazia ideia do que era essa social que todo mundo ficava resmungando sobre, mas ela supostamente tinha que encontrar com Penn depois. Elas supostamente tinham que andar juntas.
Seus olhos estavam fixos na nuca de Daniel, e ela sabia que tinha que responder a Cam sobre sua festa, e isso não deveria ser tão difícil, mas quando Daniel se virou e olhou para ela com um olhar que ela jurava ser cheio de lamentos, o telefone atrás dela começou a tocar, e Cam o alcançou e disse:
— Eu tenho que atender, Luce. Você estará lá?
Quase imperceptivelmente, Daniel assentiu.
— Sim — Luce disse para Cam. — Sim.
***
— Eu continuo sem saber porque temos de correr.
Luce estava ofegando vinte minutos depois. Ela tentou alcançar Penn quando elas se misturaram através da área comum do auditório para a misteriosa Social de Quarta-feira à Noite, que Penn ainda não havia explicado. Luce mal teve tempo o suficiente para subir em seu quarto, colocar gloss e seu melhor jeans, apenas para o caso de ser aquele tipo de social. Ela ainda estava tentando acalmar sua respiração depois de sua corrida com Cam e Daniel quando Penn entrou no seu quarto para arrastá-la para fora da porta de novo.
— Pessoas que são cronicamente lentas nunca entendem as várias maneiras que elas estragam os horários das pessoas que são pontuais e normais — Penn falou para Luce quando elas espirraram em meio de uma poça em particular no gramado.
— Ha!
Uma gargalhada explodiu atrás delas.
Luce olhou para trás e sentiu seu rosto se iluminar quando ela viu o corpo magro e pálido de Ariane se juntar à elas.
— Qual charlatão disse que você é normal, Penn? — Ariane cutucou Luce e apontou para baixo. — Atenção para a areia movediça!
Luce patinou e parou um pouco antes de ficar aterrada em um trecho lamacento do terreno.
— Alguém por favor me diz onde a gente está indo!
— Noite de quarta — Penn disse terminantemente. — Noite social.
— Como... um baile ou algo assim? — Luce perguntou, visões de Daniel e Cam de movendo pela pista de dança de sua mente.
Ariane piou.
— Uma dança com morte por tédio. O termo 'social' é típico do duplo sentido da Sword & Cross. Veja, eles requerem planejar eventos sociais pra gente, mas eles também ficam aterrorizados com eventos sociais para nós. Escolha difícil.
— Então em vez disso — Penn continuou — eles tem esses horríveis eventos como seções pipocas seguidas por palestras sobre os filmes, ou – Deus, você se lembra do último semestre?
— Que teve aquele simpósio inteiro sobre taxidermia?
— Tão, tão arrepiante — Penn sacudiu a cabeça.
— Essa noite, minha querida — Ariane a puxou — nós caímos fora fácil. Tudo o que nós temos que fazer é roncar durante um dos três filmes em exibição na videoteca da Sword & Cross. O que você acha que teremos essa noite, Penny Vadia? Starman? Joe versus the volcano? Ou Weekend at Bernie's?
— É Starmen — Penn gemeu.
Ariane lançou à Luce um olhar perplexo.
— Ela sabe de tudo.
— Aguenta firme — Luce disse, na ponta dos pés em volta da areia movediça e abaixando o volume da sua voz quando se aproximaram da escritório da escola. — Se vocês todas viram esses filmes tantas vezes pra quê a pressa de chegar lá?
Penn empurrou as pesadas portas de metal para o “auditório”, enquanto, Luce percebeu, havia um eufemismo para um quarto normal, velho e com teto baixo aplainado e cadeiras dispostas à frente de uma parede em branco.
— Não queira ficar presa no assento quente perto do Sr. Colem — Ariane explicou, apontando para o professor.
Seu nariz estava enterrado profundamente dentro de um grosso livro, e ele estava rodeado pelas poucas cadeiras restantes na sala.
Quando as três garotas passaram pelo detector de metais na porta, Penn disse:
— Qualquer um que sentar lá tem que passar a inquéritos sobre a saúde “mental” semanal dele.
— O que não seria tão ruim... — Ariane continuou.
— Se você não tivesse que ficar até mais tarde para analisar os “achados” — Penn terminou.
— Assim, em falta — Ariane disse com um sorriso largo direcionando Luce para a segunda fila enquanto ela sussurrava. — A pós festa.
Finalmente elas chegaram no coração do problema. Luce riu.
— Eu ouvi sobre isso — ela disse, sentindo um pouco com ela para uma mudança. — É no quarto do Cam, certo?
Ariane olhou para Luce por um segundo e rolou sua língua sobre seus dentes. Então ela olhou para além de Luce, quase através dela.
— Ei Todd — ela chamou, acenando apenas com a ponta dos dedos.
Ela empurrou Luce para um dos assentos, reinvindicou o assento seguro ao lado dela (permanecendo dois assentos abaixo do Sr. Cole), e afagou o assento quente ao seu lado.
— Venha sentar conosco, T-Man.
Todd, que estava mudando o peso do seu corpo no caminho da porta, pareceu extremamente aliviado de ser direcionado, qualquer direção. Ele começou atrás delas, engolindo. Tão logo que ele que ele foi atrapalhado para seu lugar, o Sr. Cole olhou por cima de seu livro, limpou seus óculos em seu lenço e disse:
— Todd, estou feliz que você está aqui. Eu estava me perguntando se você poderia me ajudar com um pequeno favor depois do filme. Você pode ver, o diagrama de Venn é uma ferramenta muito usual para...
— Ruim — Penn colocou seu rosto entre Ariane e Luce.
Ariane deu de ombros e tirou um saco gigante de pipoca de sua bolsa de sua bolsa de viagem.
— Eu só posso olhar por alguns estudantes novos — ela disse, lançando uma amêndoa amanteigada para Luce. — Sorte sua.
Enquanto as luzes da sala se esmaeciam, Luce olhou em volta até seus olhos se estacionarem em Cam. Ela pensou sobre sua abreviada sessão no telefone com Callie e como sua amiga sempre disse que assistir um filme com um garoto era o melhor jeito de saber coisas sobre ele, coisas que talvez nunca viriam a tona em uma conversa. Olhando para Cam, Luce pensou que ela sabia o que Callie queria dizer: há algum tipo de emoção em observar pelo canto do olho para ver qual piada Cam acha divertida, para se juntar a sua risada por si mesma.
Quando o olho dele encontrou o dela, Luce sentiu um instinto estranho de olhar distante. Mas então, antes que ela pudesse, a face de Cam se iluminou em um largo sorriso. Isso fez ela parecer notavelmente perturbada por ser pega olhando. Quando ele colocou suas mãos num aceno, Luce não ajudou, pensando sobre como a oposição aconteceu exatamente alguns minutos que Daniel tinha travado seu olhar nele.
Daniel entrou com Rolland, tarde o suficiente para que Randy já tivesse contado as cabeças, tarde o suficiente para que os únicos assentos restantes eram no chão na frente da sala. Ele passou sobre o feixe de luz do projetor e Luce notou pela primeira vez a corrente de prata nas costas de seu pescoço e algum tipo de medalhão enfiado dentro de sua camisa. Então ele mergulhou completamente para fora de sua visão. Ela não podia nem ao menos ver seu perfil.
Como já haviam dito, Starman não foi muito legal, mas os outros estudantes fazendo imitações de Jeff Bridge eram. Foi difícil para Luce focar no enredo. Além disso, ela estava tendo essa desconfortável sensação congelante atrás de seu pescoço. Alguma coisa estava prestes a acontecer.
Quando as sombras vieram dessa vez, Luce estava esperando por elas. Então, ela começou a pensar sobre isso e contou com os dedos. As sombras estavam aparecendo em um ritmo cada vez mais alarmante, e Luce não conseguia saber se ela estava apenas nervosa na Sword & Cross... Ou se isso significava algo a mais. Elas nunca haviam sido tão ruins assim.
Elas vazaram por cima do auditório, então deslizaram pelos cantos da tela de projeção, e finalmente traçaram as linhas do assoalho como tinta derramada. Luce agarrou o assento de sua cadeira e sentiu o sofrimento causado pelo medo inchar através de seus braços e pernas. Ela apertou todos os músculos de seu corpo, mas ela não podia evitar tremer. Um tapinha no seu ombro esquerdo a fez olhar para Ariane.
— Você está bem? — Ariane sussurrou.
Luce assentiu e abraçou seus ombros, fazendo parecer que estava apenas com frio. Ela desejava que estivesse, mas esse calafrio em particular não tinha nada a ver com o ar-condicionado superpotente da Sword & Cross.
Ela podia sentir as sombras rebocando sob seus pés, abaixo da cadeira. Elas permaneceram assim, paradas pelo filme inteiro, e cada minuto parecia uma eternidade.
***
Uma hora mais tarde, Ariane pressionou seu olho contra o olho mágico da porta pintada de bronze do quarto de Cam no dormitório.
— Yo-hoo — ela cantou, dando risadinhas. — A alma da festa está aqui!
Ela tirou um boá de penas rosas da mesma sacola mágica de onde o saco de pipocas veio.
— Me dê uma mãozinha — pediu para Luce, colocando um dos pés no ar.
Luce cruzou suas mãos e os posicionou debaixo das botas pretas de Ariane. Ela assistiu, enquanto Ariane se empurrava para fora do solo e usava o boá para cobrir a lente da câmera de segurança do corredor, quando ela chegou em torno da parte traseira do dispositivo e desligou-o.
— Isso não é suspeito, ou algo assim? — Penn comentou.
— Seus fiéis dormem com a pós festa? — Ariane revidou. — Ou a festa das câmeras?
— Eu só estou dizendo que há modos mais inteligentes — Penn bufou enquanto Ariane descia.
Ariane lançou o boá sobre os ombros de Luce, e Luce riu e começou a vibrar com a canção de Motown que eles podiam ouvir através da porta. Mas quando Luce ofereceu o boá para Penn, ficou surpresa por ver que ela continuava nervosa. Penn estava roendo suas unhas e suando pelas sobrancelhas. Penn vestia seis suéteres no pantanoso calor sulista de setembro – ela nunca estava com calor.
— O que está errado? — Luce sussurrou, inclinando-se.
Penn puxou a ponta de sua manga e deu de ombros. Ela parecia estar prestes a responder quando a porta atrás deles se abriu. Uma onda de fumaça de cigarro, jato de música surgiu, e de repente Cam abriu os braços, cumprimentando-as.
— Você fez isso — ele disse, sorrindo para Luce.
Mesmo na luz turva, os lábios dele tinham um brilho manchado de cereja. Quando ele a puxou para um abraço, ela se sentiu minúscula e segura. Isso durou apenas um segundo; então ele acenou para dar oi para as outras duas garotas, e Luce se sentiu um pouco orgulhosa por ser a única que ganhou um abraço.
Atrás de Cam, o pequeno, escuro quarto estava abarrotado de pessoas. Roland estava em um canto, na mesa giratória, levantando CDs para uma luz negra. O casal que Luce tinha visto na quadra uns dias atrás estava se agarrando contra a janela. Os caras estilosos com as camisas oxford brancas estavam todos amontoados no mesmo círculo, ocasionalmente dando uma olhada nas garotas. Ariane não perdeu tempo fuzilando através do quarto até a escrivaninha de Cam, que parecia estar sendo usada como um bar. Quase imediatamente, ela tinha uma garrafa de champanhe entre suas pernas, e ria enquanto tentava abrir a garrafa.
Luce estava perplexa. Ela nunca soube como pegar bebidas alcóolicas em Dover, onde o mundo exterior tinha sido muito menos fora dos limites. Cam estava de volta a Sword & Cross apenas há poucos dias, mas ainda assim, ele parecia saber como conseguir tudo que ele precisava para ter uma festa digna de Dioniso, onde a escola toda apareceu.
Ainda na entrada, ela ouviu o estalo, então os vivas do resto da multidão e a voz de Ariane chamando:
— Luciiiiinda venha cá. Eu estou prestes a fazer um brinde!
Luce pode sentir o magnetismo da festa, mas Penn parecia menos pronta a se mover.
— Você vai na frente — ela disse, balançando a mão para Luce.
— O que há de errado? Você não quer entrar?
A verdade era que Luce mesma estava um pouco nervosa. Ela não fazia a menor ideia do que poderia acontecer, e desde que ela não tinha tanta certeza o quão confiável Ariane era, definitivamente a faria melhor ter Penn ao seu lado.
Mas Penn fez uma carranca.
— Eu estou... Estou fora do meu mundo. Eu fico na biblioteca, dou aulas de como usar o Power Point. Se você precisa hackear alguém, eu sou a garota. Mas isso... — Ela ficou na ponta dos pés e espreitou para dentro da sala. — Eu não sei. As pessoas lá dentro pensam que eu sou daquele tipo sabe-tudo.
Luce lançou para ela o melhor olhar dá-um-tempo.
— E eles acham que eu sou um bolo de carne, e nós pensamos que eles são totalmente uns bananas. — Ela riu. — Nós não podemos simplesmente ir em frente?
Lentamente, Penn enrolou o lábio, então pegou o boá de penas e enrolou em volta dos seus ombros.
— Oh, tudo certo — ela disse, entrando à frente de Luce.
Luce piscou enquanto seus olhos se ajustavam. Uma cacofonia encheu o quarto, mas ela podia ouvir as risadas de Ariane. Cam fechou a porta atrás delas e pegou a mão de Luce, então ela tirou, longe do resto da festa.
— Eu estou muito feliz que você veio — ele disse, colocando a mão nas costas dela e inclinando a cabeça, então ela o podia ouvir no quarto barulhento. Os lábios dele pareciam apetitosos, especialmente quando ele dizia coisas como “Eu pulava toda vez que alguém batia na porta, esperando que fosse você."
O que quer que tenha ligado Cam a ela tão rápido, Luce não queria fazer nada para mudar isso. Ele era popular e inesperadamente pensativo, e a atenção dele a fez sentir mais do que lisonjeada. A fez se sentir mais confortável nesse estranho e novo lugar. Ela sabia se tentasse responder ao seu elogio, iria tropeçar sobre as palavras. Então apenas riu, o que o fez rir também, então ele a envolveu em mais um abraço.
De repente, não havia outro lugar para por as mãos além do pescoço dele. Ela sentiu um pouco aliviada enquanto Cam a apertava, a fazendo tirar os pés do chão. Quando ele a colocou de volta, Luce se virou para o resto da festa, e a primeira coisa que ela viu foi Daniel. Mas ela não achava que ele gostava de Cam. Contudo, ele estava sentado de pernas cruzadas na cama, a camiseta branca brilhando violeta por causa da luz negra. Logo que seus olhos encontraram os dele, ficou difícil olhar para alguém mais. O que não fazia sentido, porque um cara deslumbrante e amigável estava parado logo atrás dela, perguntando o que ela gostaria de beber.
O outro cara maravilhoso, infinitamente menos amigável, sentado na frente dela, não podia ser o único que ela não podia parar de olhar. E ele a estava fitando. Tão atentamente, com um secreto, furtivo olhar nos seus olhos, que Luce pensou que nunca ia decodificar, mesmo que o visse centenas de vezes.
Tudo que ela sabia era o efeito que isso causava nela. Todos os outros na sala pareciam fora de foco e ela derreteu. Ela poderia ficar olhando de volta toda noite, se não fosse Ariane, que escalou para o topo da mesa e gritou por Luce, seu copo erguido no ar.
— Para Luce — ela brindou, lançando à Luce um sorriso inocente. — Que obviamente está brisando e perdeu meu discurso inteiro de boas-vindas e que nunca vai saber o quão fabuloso foi – não foi fabuloso, Ro? — ela inclinou-se para perguntar a Roland, que acariciou seu tornozelo, afirmando.
Cam deslizou um copo de plástico cheio de champanhe para a mão de Luce. Ela corou e tentou rir enquanto o resto da festa ecoava:
— Para Luce! Para o Bolo de Carne!
Ao lado dela, Molly deslizou e sussurrou uma versão curta em sua orelha:
— Para Luce, que nunca vai saber.
Alguns dias antes, Luce teria vacilado. Essa noite, ela simplesmente rolou os olhos, então deu as costas para Molly. A garota nunca falara nenhuma palavra que não fizesse Luce se sentir ofendida, mas mostrar isso só parecia incitá-la. Então Luce apenas se agachou para compartilhar a cadeira da mesa com Penn, que deu para ela um cordão de alcaçuz preto.
— Você pode acreditar? Eu acho que eu finalmente estou me divertindo — Penn falou, digerindo a alegria.
Luce mordeu o alcaçuz e tomou um pequeno gole do espumante. Uma combinação não muito saborosa. Quase como ela e Molly.
— Então, Molly é esse diabo com todo mundo ou eu sou um caso especial?
Por um segundo, Penn pareceu que daria uma resposta diferente, mas então ela afagou as costas de Luce.
— Só o charme do seu comportamento usual, minha querida.
Luce olhou em volta do quarto, com toda a circulação livre de champanhe, para a extravagante mesa giratória de Cam, para a globo espelhado rodando acima das cabeças, pedaços de estrelas no rosto de todo mundo.
— Onde que eles conseguem todas essas coisas?
— As pessoas dizem que Roland pode colocar qualquer coisa dentro da Sword & Cross — Penn disse naturalmente. — Não que eu já tenha perguntado para ele.
Talvez seja isso que Ariane quis dizer quando ela disse que Roland sabia como conseguir coisas. A única coisa fora dos limites má o suficiente que Luce podia imaginar era perguntar sobre um celular. Mas então... Cam havia dito para não ouvir Ariane sobre os trabalhos secretos da escola. O que teria sido bom, exceto que boa parte dessa festa parecia ser cortesia de Roland.
Quanto mais ela tentava desvendar suas questões, menos coisas se encaixavam. Ela provavelmente só estava chocada por estar “dentro” o suficiente para ser convidada para festas.
— Certo, todos vocês rejeitados — Roland disse, lentamente, para ter a atenção de todo mundo. O toca-discos tinha acalmado para o estático entre músicas. — Nós vamos começar o espaço aberto da noite, e eu estou solicitando pessoas para o karaokê.
— Daniel Grigori — Ariane piou através de suas mãos.
— Não! — Daniel piou de volta, sem perder o ritmo.
— Aw, o silencioso Grigori sente-se fora — Roland falou, no microfone. — Você tem certeza que não quer fazer sua versão de Hellhound on My Trail?
— Eu creio que essa é sua música, Roland — Daniel replicou.
Um sorriso se espalhou pelos seus lábios, mas Luce sentiu que era um sorriso embaraçado, um sorriso de alguém-por-favor-pegue-os-holofotes.
— Ele tem um ponto, galera — Roland riu. — Eu acho que o karaokê Robert Johnson sabe como limpar uma sala — ele arrancou um álbum de R.L. Burnside da pilha e colocou toca-discos do canto. — Vamos para o Sul de vez.
Enquanto as notas de um baixo e de uma guitarra elétrica começavam, Roland assumiu o centro do palco, que estava apenas a poucos metros quadrados do espaço iluminado pela luz da lua, no meio do quarto. Todos em volta estavam batendo palma ou batendo os pés no tempo, mas Daniel estava olhando para seu relógio. Ela continuava vendo a imagem dele assentindo para ela no lobby mais cedo aquela noite, quando Cam a convidou para a festa.
Se ela apenas pudesse ficar a sós com ele...
Roland estava monopolizando a atenção dos convidados, que apenas Luce percebeu quando, no meio da canção, Daniel levantou-se, moveu-se em torno de Molly e Cam, e saiu silenciosamente pela porta.
Essa era a chance dela. Enquanto todos a sua volta estavam aplaudindo, Lucy levantou-se devagar.
— Bis! — Ariane gritou. Então, percebendo Luce se levantar da cadeira, ela disse: — Oh, espertinha, é a minha garota se levantando para cantar?
— Não!
Luce não queria cantar nesse quarto cheio de pessoas tanto quanto ela não queria admitir a razão pela qual ela estava se levantando no meio da primeira festa dela na Sword & Cross, com Roland empurrando o microfone abaixo de seu queixo. E agora?
— Eu... Eu só estou me sentindo mal por, uh, Todd. Porque ele está perdendo isso.
A voz de Luce ecoou de volta para ela por cima dos alto-falantes. Ela já estava lamentando sua mentira ruim, e o fato de que não havia retorno agora.
— Eu acho que vou descer e ver se ele já terminou com o Sr. Cole.
Nenhum dos outros jovens parecia saber o que fazer com isso. Apenas Penn falou, timidamente:
— Volta rápido!
Molly estava dando um sorriso afetado para Luce.
— Amor nerd — ela disse, fingindo uma falsa síncope — tão romântico.
Espera, eles achavam que ela gostava de Todd? Oh, quem liga – a única pessoa que Luce não queria que pensasse isso era a única pessoa que ela estava tentando seguir do lado de fora.
Ignorando Molly, Luce fugiu para a porta, onde Cam a encontrou com os braços cruzados.
— Precisa de companhia? — ele perguntou, esperançoso.
Ela balançou a cabeça. Em outra situação, ela provavelmente gostaria da companhia de Cam. Mas não agora.
— Eu volto logo.
Antes que pudesse registrar o desapontamento no rosto dele, ela deslizou para o corredor. Após o burmurinho da festa, o silêncio soou em suas orelhas. Levou um segundo antes que ela pudesse perceber vozes logo na curva do corredor.
Daniel. Ela reconheceria essa voz em qualquer lugar. Mas ela não tinha certeza quem estava falando com ele. Uma garota.
— Hmm... Desculpe.
Qualquer coisa que ela tenha dito... Com um som nasalado sulista. Gabbe? Daniel havia saído para ver a loira e escovada Gabbe?
— Isso não vai acontecer de novo — Gabbe continuou — eu juro...
— Isso não pode acontecer de novo — Daniel sussurrou, mas seu tom praticamente gritava — você prometeu que estaria aqui e você não estava.
Onde? Quando? Luce estava agonizando. Ela avançou ao longo do corredor, tentando não fazer barulho.
Mas os dois caíram no silêncio. Luce podia imaginar Daniel pegando a mão de Gabbe. Podia imaginar ele inclinando-se para ela em um longo, profundo beijo. Uma camada de inveja a consumiu em volta do peito de Luce. Do outro lado do corredor, um deles suspirou.
— Você vai ter que confiar em mim, querido — ela escutou Gabbe dizer, em uma voz que fez Luce decidir de uma só vez que a odiava. — Eu sou a única que você vai ter.CAPITULO 6: SEM SALVAÇÃO
Na manhã clara e cedo de quinta, um alto-falante estalou no corredor do lado de fora do quarto de Luce:
— Atenção, Sword & Crossanos!
Luce rolou com um gemido, mas por mais arduamente que ela comprimisse o travesseiro ao redor de suas orelhas, pouco adiantava para bloquear o rosnado de Randy no sistema de alto-falante.
— Vocês têm exatos nove minutos para aparecer no ginásio para o seu exame físico anual. Como sabem, nós não temos paciência com vagabundos, então estejam prontos e preparados para uma avaliação corporal.
Exame físico? Avaliação corporal? Às seis e meia da manhã? Luce já se arrependia de ter ficado até tão tarde ontem a noite... e ter ficado acordada até bem mais tarde deitada na cama, se estressando.
Bem por volta da hora que ela começou a imaginar Daniel e Gabbe se beijando, Luce começou a se sentir enjoada – aquele tipo específico de enjoo que vinha de saber que ela fizera papel de boba. Não tinha como voltar para a festa. Só tinha como sair espreitando da parede e escapar para seu dormitório para duvidar daquela sensação estranha que ela tinha perto de Daniel, aquela que ela tolamente tomara como algum tipo de conexão. Ela tinha acordado com um gosto ruim das consequências da festa ainda em sua boca. A última coisa que queria pensar agora era sobre capacidade física.
Ela girou seus pés para fora da cama e colocou-os no frio chão de vinil. Escovando seus dentes, ela tentou imaginar o que a Sword & Cross poderia querer dizer por “avaliação corporal.” Imagens intimidantes de suas colegas – Molly fazendo dúzias de levantamentos com cara de má, Gabbe escalando facilmente uma corda de nove metros em direção ao céu – encheram sua mente. Sua única chance de não fazer papel de boba – de novo – era tentar tirar Daniel e Gabbe de sua mente.
Ela cruzou a parte sul do campus até o ginásio. Era uma ampla estrutura gótica com arcobotantes e torres pequenas em pedra não-esculpida que faziam-na parecer mais com uma Igreja do que um lugar onde se iria para fazer exercícios físicos. Enquanto Luce se aproximava do prédio, a camada de kudzu cobrindo sua fachada farfalhava na brisa matinal.
— Penn — Luce chamou, vislumbrando sua amiga vestindo uma roupa esportiva amarrando seu tênis no banco.
Luce olhou para baixo para sua roupa preta e botas pretas regulamentadas e de repente entrou em pânico por ter perdido algum memorando sobre o código de vestimenta. Mas então, alguns dos outros estudantes estavam vagabundeando fora do prédio e nenhum deles parecia muito diferente dela.
Os olhos de Penn estava grogues.
— Tão cansada — ela gemeu. — Eu cantei demais ontem a noite. Achei que poderia compensar ao tentar pelo menos parecer atlética.
Luce riu enquanto Penn lutava com o nó duplo em seu sapato.
— O que aconteceu com você ontem a noite, de qualquer jeito? — Penn perguntou. — Você não voltou pra festa.
— Ah — Luce disse, enrolando. — Eu decidi...
— Gaaahh — Penn cobriu seus ouvidos. — Cada som é como uma perfuratriz no meu cérebro. Me conta mais tarde?
— É claro.
As portas duplas para o ginásio estavam abertas. Randy saiu com pesados crocs, segurando sua constante prancheta. Ela acenou para que os estudantes seguissem em frente, e um por um eles foram designados a sua estação física.
— Todd Hammond — Randy chamou a medida em que o garoto de joelhos bambos se aproximava.
Os ombros do Todd desabaram para frente como parêntesis, e Luce conseguia ver resquícios de um severo bronzeado nas braços e nuca.
— Musculação — Randy comandou, atirando Todd para dentro.
— Pennyweather Van Syckle-Lockwood — ela gritou a seguir, fazendo com que Penn se agachasse e pressionasse suas palmas contra seus ouvidos novamente. — Piscina — Randy instruiu, esticando a mão para a caixa de papelão atrás dela e jogando para Penn um maiô único vermelho com corte nadador.
— Lucinda Price — Randy continuou, após consultar sua lista.
Luce deu um passo para frente e ficou aliviada quando Randy disse:
— Piscina também.
Luce se esticou para pegar o maiô único no ar. Estava esticado e fino como um pedaço de pergaminho entre seus dedos. Pelo menos cheirava a limpo. Mais ou menos.
— Gabrielle Givens — Randy disse a seguir.
Luce se virou para ver a sua nova pessoa menos favorita resvalar em shorts pretos curtos e uma fina regata preta. Ela estava nessa escola há três dias... como é que ela já tinha o Daniel?
— Oiii, Randy — Gabbe disse, arrastando as palavras com um som fanhoso que fez Luce querer dar uma de Penn e cobrir seus próprios ouvidos.
Tudo menos a piscina, Luce desejou. Tudo menos a piscina.
— Piscina.
Andando para perto de Penn na direção do vestiário das garotas, Luce tentou evitar olhar para trás para Gabbe, que girou, em seu dedo indicador com unha francesinha, o que parecia ser o único maiô fashion na pilha. Ao invés, Luce focou nas paredes de pedra cinza e na velha parafernália religiosa cobrindo-as.
Ela passou por cruzes entalhadas floreadamente em madeira com descrições em seu baixo-relevo da Paixão. Uma série de trípticos desbotados estavam pendurados à vista, com somente as órbitas das auréolas das imagens ainda iluminadas. Luce se inclinou para frente para ter uma visão melhor do grande pergaminho escrito em latim, envolto em vidro.
— Decoração pra cima, não é? — Penn perguntou, engolindo um par de aspirinas com um gole d’água de sua bolsa.
— O que são essas coisas todas? — Luce perguntou.
— História antiga. As únicas relíquias sobreviventes de quando esse lugar era ainda o local de Missas, lá nos dias da Guerra da Secessão.
— Isso explica porque parece tanto com uma igreja — Luce comentou, parando na frente de uma reprodução de mármore da Pietà de Michelangelo.
— Como todo o resto nessa possilga, eles fizeram um trabalho porco total em atualizá-lo. Quero dizer, quem constrói uma piscina no meio de uma igreja velha?
— Você está brincando.
— Bem que eu queria — Penn girou seus olhos. — Todo verão, o diretor fixa na cabecinha a ideia de me colocar para redecorar esse lugar. Ele não admite, mas todo o negócio de Deus aqui realmente o apavora. O problema é que, mesmo que eu sentisse vontade de dar uma ajuda, eu não faço ideia do que fazer com todo esse lixo, ou mesmo como limpar isso sem ofender, tipo, meio mundo e Deus.
Luce lembrou-se nas paredes brancas imaculadas dentro do ginásio de Dover, fileira após fileira de fotos tiradas profissionalmente de campeonatos estudantis, cada uma combinando com o mesmo cartão azul-marinho, cada uma exibida em uma moldura dourada combinando. O único corredor mais santificado na Dover era sua entrada, que era onde todos os ex-alunos-que-viraram-senadores-estaduais e vencedores da sociedade Guggenheim e bilionários comuns apresentavam seus retratos.
— Você poderia pendurar todas as fotos de polícia atuais dos ex-alunos — Gabbe ofereceu de trás delas.
Luce começou a rir – era engraçado... e estranho, quase como se Gabbe tivesse acabado de ler sua mente - mas então ela se lembrou da voz da garota na noite anterior, dizendo a Daniel que ela era a única que ele tinha. Luce rapidamente engoliu qualquer noção de uma conexão com ela.
— Vocês estão se dispersando!
Gritou uma desconhecida treinadora de ginásio, aparecendo do nada. Ela – pelo menos Luce achava que era ela – tinha uma bucha de cabelo castanho frisado puxado para trás em um rabo-de-cavalo, panturrilhas como um pernil de porco, e aparelho dental "invisível” amarelado cobrindo seus dentes de cima. Ela empurrou as garotas nervosamente para um vestiário, onde a cada uma foi dado um cadeado com uma chave e direções para um armário vazio com um empurrão.
— Ninguém se dispersa na vigia da Treinadora Diante.
Luce e Penn lutaram para entrar em seus maiôs desbotados e frouxos. Luce estremeceu ao ver seu reflexo no espelho, então cobriu o máximo de si mesma que conseguiu com sua toalha. Dentro do espaço de natação úmido, ela imediatamente entendeu sobre o que Penn estava falando. A própria piscina era gigante, tamanho olímpico, um das poucas características atuais que ela tinha encontrado até então nesse campus. Mas não era isso que a tornava notável, Luce percebeu espantosamente. Essa piscina tinha sido construída bem no meio do que costumava ser uma igreja enorme.
Havia uma fileira de lindas janelas com vitrais, com apenas alguns painéis quebrados, atravessando as paredes perto do teto alto e arqueado. Havia nichos de pedra acesos por luz de vela pela parede. Um trampolim tinha sido instalado onde o altar provavelmente costumava estar. Se Luce não tivesse sido criada agnóstica e ao invés, como uma fiel temente a Deus, como o resto de seus amigos no ensino fundamental, ela poderia ter pensado que esse lugar essa sacrílego.
Alguns dos outros estudantes já estavam na água, arfando por ar enquanto completavam suas voltas. Mas eram os estudantes que não estavam na água que capturaram a atenção de Luce.
Molly, Roland e Ariane estavam espalhados nas arquibancadas pela parede. Eles estavam rindo de algo. Roland estava praticamente dobrado, e Ariane estava enxugando lágrimas. Eles estavam com maiôs e sungas muito mais atraentes do que Luce, mas nenhum deles parecia que tinha alguma intenção em fazer um movimento na direção da piscina.
Luce cutucou seu maiô único caído. Ela queria ir se juntar a Ariane – mas bem quando ela estava pesando os prós (a possível entrada num mundo de elite) e contras (a Treinadora Diante repreendendo-a como uma embargadora consciente a exercícios), Gabbe vagueou até o grupo.
Como se ela já fosse a melhor amiga de todos eles. Ela tomou um assento ao lado de Ariane e imediatamente começou a rir também, como se, qualquer que fosse a piada, ela já tinha entendido.
— Eles sempre têm bilhetes para ficarem sentados — Penn explicou, olhando feio para a galera popular nas arquibancadas. — Não me pergunte como eles se safam disso.
Luce circundou e hesitou no lado da piscina, incapaz de captar as instruções da Treinadora Diante. Ver Gabbe e os outros agrupados nas arquibancadas, estilo garotos descolados, fez Luce desejar que Cam estivesse lá. Ela conseguia imaginá-lo parecendo sarado em uma reluzente sunga preta, acenando para que ela viesse para o grupo com seu grande sorriso, fazendo-a se sentir imediatamente bem-vinda, até mesmo importante.
Luce sentiu uma necessidade persistente de se desculpar por se evadir da festa dele mais cedo. O que era estranho – eles não estavam juntos, então não era como se Luce fosse obrigada a explicar suas idas e vindas para Cam. Mas ao mesmo tempo, ela gostava quando ele prestava atenção nela. Ela gostava do jeito que ele tinha um cheiro de ar livre, como dirigir com as janelas abaixadas de noite. Gostava do jeito que ele sintonizava completamente quando ela falava, imóvel como se não conseguisse ver ou ouvir mais ninguém além dela. Ela até mesmo gostara de ser levantada do chão na festa, em plena vista do Daniel. Ela não queria fazer nada para que Cam reconsiderasse o jeito que ele tratava ela.
Quando o apito da treinadora soou, uma Luce muito assustada levantou-se, então olhou para baixo com arrependimento enquanto Penn e todos os outros estudantes perto dela pularam para frente, na piscina.
Ela olhou para a Treinadora Diante por instruções.
— Você deve ser Lucinda Price – sempre atrasada e nunca escuta? — A Treinadora suspirou.
— A Randy me contou sobre você. São oito voltas, escolha seu melhor estilo de natação.
Luce assentiu e ficou de pé com seus dedos dos pés curvados perto da beirada. Ela costumava amar nadar. Quando seu pai a ensinou na piscina comunitária de Thunderbolt, ela até mesmo ganhara um prêmio como a criança mais nova a já desbravar as profundezas sem boias. Mas isso foi há anos. Luce não conseguia nem se lembrar da última vez que tinha nadado. A piscina exterior aquecida da Dover sempre brilhara, tentando-a – mas era fechada para qualquer um que não estivesse no time de natação.
A Treinadora Diante limpou sua garganta.
— Talvez você não tenha entendido que isso é uma corrida... e você já está perdendo.
Essa era a “corrida” mais patética e ridícula que Luce já tinha visto, mas isso não impediu seu lado competitivo de aparecer.
— E... você ainda está perdendo — a Treinadora disse, mastigando seu apito.
— Não por muito tempo — Luce disse.
Ela checou a competição. O cara a sua esquerda estava cuspindo água de sua boca e fazendo um nado livre desajeitado. A sua direita, uma Penn com tampão nasal estava vagarosamente surfando junto, seu estômago descansando em uma pranchinha de espuma rosa. Por uma fração de segundos, Luce olhou para a multidão nas arquibancadas. Molly e Roland estavam assistindo; Ariane e Gabbe estavam desmoronadas uma em cima da outra em um ataque irritante de risadinhas.
Mas ela não ligava do que elas estavam rindo. Mais ou menos. Ela tinha ido.
Com seus braços curvados sobre sua cabeça, Luce mergulhou, sentindo suas costas arquearem enquanto ela deslizava na água ondulada. Poucas pessoas podiam fazer isso muito bem, seu pai uma vez explicou para uma Luce de oito anos na piscina. Mas uma vez que você aperfeiçoou o nado borboleta, não havia jeito de se mover mais rápido na água.
Deixando seu aborrecimento a propelir para frente, Luce levantou a parte superior de seu corpo para fora da água. O movimento voltou imediatamente para ela e ela começou a bater seus braços como asas. Ela nadou mais arduamente do que tinha nadado em muito, muito tempo. Se sentindo justificada, passou pelos outros nadadores uma vez, depois outra.
Ela estava chegando ao fim de sua oitava volta quando sua cabeça apareceu para fora da água por tempo o bastante para ouvir a voz vagarosa de Gabbe dizer, “Daniel”.
Como uma vela apagada, o ímpeto de Luce desapareceu. Ela colocou seus pés para baixo e esperou para ver o que mais Gabbe tinha a dizer. Infelizmente, ela não conseguiu ouvir mais nada além de um chapinhar ruidoso e, um momento depois, o apito.
— E o vencedor é — a Treinadora Diante disse com uma expressão assombrada — Joel Bland.
O garoto magrelo de aparelho da raia ao lado pulou para fora da piscina e começar a fazer barulho para celebrar sua vitória.
Na raia do lado, Penn parou abruptamente.
— O que aconteceu? — ela perguntou a Luce. — Você estava arrasando total com ele.
Luce deu de ombros. Gabbe era o que tinha acontecido, mas quando ela olhou para a arquibancada, Gabbe tinha ido, e Ariane e Molly tinham ido com ela. Somente Roland permanecia onde o grupo estivera, e ele estava imerso em um livro.
A adrenalina de Luce tinha crescido enquanto ela nadava, mas agora ela tinha caído tanto que Penn teve que ajuda-la a sair da piscina.
Luce observou Roland pular das arquibancadas.
— Você estava muito bem lá — ele disse, jogando-lhe uma toalha e a chave do armário do vestiário que ela tinha perdido. — Por um tempinho.
Luce pegou a chave no ar e amarrou a toalha ao seu redor. Mas antes que ela pudesse dizer algo normal, como “Obrigada pela toalha”, ou “Acho que estou simplesmente fora de forma”, esse novo e estranho lado “cabeça-quente” dela, ao invés, simplesmente falou:
— O Daniel e a Gabbe estão juntos ou o quê?
Grande erro. Enorme. Ela conseguia dizer pelo olhar nos olhos deles que a pergunta dela estava direcionada bem para o Daniel.
— Ah, entendi — Roland disse, e riu. — Bem, eu não sei dizer ao certo...
Ele olhou para baixo, para ela e coçou seu nariz e deu-lhe o que pareceu ser um sorriso solidário. Então ele apontou na direção da porta do corredor aberto, e quando Luce seguiu seu dedo ela viu a silhueta composta e loira de Daniel passar.
— Por que você simplesmente não pergunta a ele?
O cabelo da Luce ainda estava pingando e seus pés ainda estavam descalços quando ela se encontrou pairando na porta de uma enorme sala de musculação. Ela tinha intencionado ir diretamente para o vestiário se trocar e secar.
Ela não sabia por que esse negócio com a Gabbe estava balançando tanto com ela. Daniel podia ficar com quem ele quisesse, certo? Talvez Gabbe gostasse de garotos que mostrassem-lhe o dedo do meio. Ou, mais provável, esse tipo de coisa não acontecia com a Gabbe.
Mas o corpo de Luce venceu sua mente quando ele captou outro vislumbre de Daniel. As costas dele estavam voltadas para ela e ele estava de pé em um canto pegando uma corda de pular de uma pilha de emaranhados. Ela observou enquanto ele selecionava uma fina corda azul-marinha com cabos de madeira, então se moveu para um espaço aberto no centro da sala. Sua pele dourada estava quase radiante, e cada movimento que ele fazia, fosse girando seu longo pescoço para esticar ou se curvando para coçar seu joelho esculpido, fazia Luce ficar completamente extasiada. Ela ficou pressionada contra a porta, alheia de que seus dentes estavam tremendo e sua toalha estava ensopada.
Quando ele levou a corda para trás de seus tornozelos logo antes de começar a pular, Luce foi golpeada com uma onda de déjà vu. Não era exatamente que ela sentia que tinha visto Daniel pular corda antes, mas mais que a postura que ele tomava parecia inteiramente familiar.
Ele ficou de pé com seus pés a uma distância de quadril, destravou seus joelhos, pressionou seus ombros para baixo enquanto enchia seu peito de ar. Luce quase podia ter desenhado isso. Foi só quando Daniel começou a girar a corda que Luce saiu do transe... e entrou logo em outro.
Nunca em sua vida ela tinha visto outra pessoa se mover como ele. Era quase como se Daniel estivesse voando. A corda passou por cima e sobre sua alta estrutura tão rapidamente que desaparecia, e seus pés – seus graciosos e estreitos pés – eles ao menos estavam tocando o chão? Ele estava se movendo tão rapidamente, mesmo ele não devia estar contando.
Um alto resmungo e uma pancada no outro lado da sala de musculação tirou a atenção de Luce. Todd estava em um amontoado na base de um dos nós das cordas de escalada. Ela sentiu, momentaneamente, pena de Todd, que estava olhando para baixo para suas mãos com bolhas.
Antes que ela pudesse olhar de volta para Daniel para ver se ele tinha notado, uma fria precipitação negra ao redor de sua pele fez Luce tremer. A sombra varreu-a, primeiramente devagar, gelada, tenebrosa, seus limites ocultos. Então, repentinamente bruta, ela golpeou seu corpo e a forçou para trás. A porta para a sala de musculação bateu em sua cara e Luce ficou sozinha no corredor.
— Ai! — ela gritou, não exatamente por estar machucada, mas porque ela nunca fora tocada pelas sombras antes.
Ela olhou para baixo para seus braços, onde quase parecera que mãos tinham agarrado-a, empurrando-a para fora do ginásio.
Isso era impossível – ela simplesmente tinha estado em um lugar bizarro; um vento muito forte deve ter passado pelo ginásio. Desconfortável, ela se aproximou da porta fechada e pressionou seu rosto contra o pequeno retângulo de vidro.
Daniel estava olhando em volta, como se tivesse ouvindo algo. Ela tinha certeza que ele não sabia que era ela: Ele não estava fazendo cara feia.
Ela pensou na sugestão de Roland de que ela simplesmente perguntasse a Daniel o que estava acontecendo, mas rapidamente dispensou a ideia. Era impossível perguntar qualquer coisa ao Daniel. Ela não queria trazer a tona aquela carranca no rosto dele. Além do mais, qualquer pergunta que ela talvez pudesse apresentar seria inútil. Ela já tinha escutado tudo que precisava escutar ontem a noite. Ela teria que ser algum tipo de sádica para pedir que ele admitisse que estava com a Gabbe. Ela se virou na direção do vestiário quando percebeu que não poderia partir.
Sua chave.
Deve ter escorregado de suas mãos quando ela tropeçou para fora da sala. Ela ficou na ponta dos pés para olhar para baixo pelo pequeno painel de vidro na porta. Ali estava, uma mancada bronze num tapete azul acolchoado. Como tinha ido parar tão longe na sala, tão perto de onde ele estava malhando? Luce suspirou e empurrou a porta para abrir, pensando que se tivesse que entrar, pelo menos ela iria rápido.
Alcançando sua chave, ela roubou uma última olhada nele. Seu passo estava ficando devagar, devagar, mas seus pés ainda mal tocavam o chão. E então, com um salto, leve-como-o-ar, final, ele parou e virou para encará-la.
Por um momento ele não disse nada. Ela conseguia sentir-se ruborizar e realmente desejou que não estivesse usando um maiô tão horroroso.
— Oi — foi tudo que ela conseguiu dizer.
— Oi — ele disse de volta, em um tom de voz muito mais calmo. Então, gesticulando para o maiô dela, disse: — Você ganhou?
Luce deu um riso triste e reticente e balançou sua cabeça.
— Bem longe disso.
Daniel franziu seus lábios.
— Mas você sempre foi...
— Eu sempre fui o quê?
— Eu quero dizer, você parece que talvez seja uma boa nadadora. — Ele deu de ombros. — Só isso.
Ela deu um passo na direção dele. Eles estavam a apenas trinta centímetros de distância. Gotas d’água caíram do cabelo dela e tamborilaram como chuva nos tapetes do ginásio.
— Não era isso o que você ia dizer — ela insistiu. — Você disse que eu sempre...
Daniel se ocupou enrolando a corda de pular ao redor de seu pulso.
— É, eu não quis dizer você você. Eu quis dizer no geral. Eles sempre devem deixar você vencer a sua primeira corrida aqui. Um código de conduta não-falado nosso, os mais velhos.
— Mas a Gabbe também não ganhou — Luce disse, cruzando seus braços sobre seu peito. — E ela é nova. Ela nem ao menos entrou na piscina.
— Ela não é exatamente nova, só está voltando após um tempo... fora.
Daniel deu de ombros, não transparecendo nada de seus sentimentos por Gabbe. Sua tentativa óbvia de tentar parecer despreocupado fez Luce ficar com ainda mais ciúmes. Ela observou ele terminar de enrolar a corda de pular em uma bobina, o jeito que suas mãos moviam-se quase tão rapidamente quanto seus pés. E aqui estava ela, tão desajeitada e solitária e gelada e isolada de tudo por todos. Seu lábio tremeu.
— Oh, Lucinda — ele sussurrou, suspirando pesadamente.
Seu corpo todo aqueceu por aquele som. A voz dele era tão íntima e familiar. Ela queria que ele dissesse seu nome novamente, mas ele tinha se virado. Ele prendeu a corda de pular em um prego na parede.
— Eu deveria ir me trocar antes da aula.
Ela descansou uma mão no braço dele.
— Espera.
Ele empurrou com violência como se tivesse levado um choque – e Luce sentiu isso, também, mas era o tipo de choque que é bom.
— Você já teve a sensação... — ela levantou seus olhos para ele.
De perto, ela conseguia ver como eles eram diferentes. Eles pareciam cinzas de longe, mas de perto havia grãos violeta neles. Ela conhecia outra pessoa com olhos como aqueles...
— Eu podia jurar que nos conhecemos antes — ela disse. — Estou louca?
— Louca? Não é por isso que está aqui? — Ele disse, afastando-a.
— Estou falando sério.
— Eu também — o rosto de Daniel ficou vazio. — E só para constar – ele apontou para um dispositivo piscando pregado ao teto – os vermelhos monitoram os perseguidores.
— Eu não estou te perseguindo.
Ela endureceu, muito ciente da distância entre seus corpos.
— Você pode dizer honestamente que não faz ideia do que eu estou falando?
Daniel deu de ombros.
— Eu não acredito em você — Luce insistiu. — Olhe-me nos olhos e diga-me que estou errada. Que nunca na minha vida eu te vi antes dessa semana.
Seu coração disparou enquanto Daniel dava um passo na direção dela, colocando ambas as mãos em seus ombros. Seus dedões cabiam perfeitamente nas ranhuras de sua clavícula, e ela queria fechar seus olhos ao calor do toque dele – mas ela não fechou. Ela observou enquanto Daniel curvava sua cabeça para que seu nariz quase tocasse o dela. Ela conseguia sentir seu hálito em seu rosto. Ela conseguia sentir um toque de doçura na pele dele.
Ele fez como pedido. Ele olhou-a no olho e disse, muito vagarosamente, muito claramente, para que suas palavras não pudessem possivelmente ser mal-interpretadas:
— Você nunca, na sua vida, me viu antes dessa semana.CAPITULO 7: ESCLARECENDO
— Você vai para onde agora? — Cam perguntou, abaixando seu óculos de plástico vermelho.
Ele apareceu do lado de fora da entrada de Augustine tão repentinamente que Luce quase trombou diretamente com ele. Ou talvez ele tenha estado ali por um tempo e ela simplesmente não tinha notado em sua pressa de chegar na aula. De qualquer jeito, seu coração começou a bater rapidamente e suas palmas começaram a suar.
— Hmm, aula? — Luce respondeu.
Por que, onde parecia que ela estava indo? Seus braços estavam cheios, com seus dois livros pesados de cálculo e sua tarefa de religião parcialmente completa. Essa seria uma boa hora para se desculpar por ir embora tão repentinamente ontem à noite. Mas ela não conseguia se forçar a fazer isso. Ela já estava tão atrasada. Não tivera água quente nos chuveiros do vestiário, então tivera que voltar para o dormitório. De algum modo, o que acontecera após a festa não parecia mais importante. Ela não queria chamar ainda mais atenção a sua saída – especialmente não agora, depois do Daniel tê-la feito se sentir tão patética. Ela também não queria que Cam pensasse que ela estava sendo rude. Ela só queria evitá-lo e ficar sozinha, para que pudesse se desvencilhar da série de envergonhamentos dessa manhã.
Exceto que – quanto mais Cam olhava para ela, menos importante parecia ir embora. E menos o orgulho de Luce doía pela recusa de Daniel. Como um olhar do Cam poderia fazer tudo isso?
Com sua pele clara e pálida e cabelo azeviche, Cam era diferente de qualquer cara que ela já conhecera. Ele exalava confiança, e não só porque ele conhecia todo mundo – e como conseguir tudo – antes que Luce tivesse ao menos descoberto onde suas aulas eram. Bem ali, parado do lado de fora do prédio da escola monótono e cinza, Cam parecia com uma fotografia artística em preto-e-branco, suas lentes vermelhas em tecnicolor.
— Aula, hein?
Cam bocejou dramaticamente. Ele estava bloqueando a entrada, e algo no jeito divertido que sua boca estava posicionada fez Luce querer saber que ideia louca ele tinha escondida. Havia uma sacola de tela pendurada em seu ombro, e um copo descartável de café expresso entre seus dedos.
Ele apertou stop em seu iPod, mas deixou os fones pendurados ao redor do seu pescoço. Parte dela queria saber que música ele estivera escutando, e onde ele tinha conseguido aquele café expresso do mercado negro. O sorriso brincalhão visível apenas em seus olhos verdes a desafiavam a perguntar.
Cam tomou um gole superficial do seu café. Levantando seu dedo indicador, ele disse:
— Permita-me compartilhar meu lema sobre as aulas da Sword & Cross: Antes nunca do que tarde.
Luce riu, e então Cam empurrou seus óculos de volta para o nariz. As lentes eram tão escuras, ela não conseguia ver nem um traço de seus olhos.
— Além do mais — ele sorriu, relampejando um arco branco de dente — é quase almoço, e eu tenho um piquenique.
Almoço? Luce não tinha tomado nem café-da-manhã ainda. Mas seu estômago estavarosnando – e a ideia de ser perfurada pelo Sr. Cole por perder todas as aulas da manhã exceto pelos últimos vinte minutos parecia menos e menos atraente quanto mais eu ficava perto do Cam.
Ela assentiu para a sacola que ele estava segurando.
— Você empacotou o bastante para dois?
***
Dirigindo Luce com uma mão ampla na parte debaixo de suas costas, Cam a guiou para as áreas comuns, passou pela biblioteca e o dormitório deplorável. Nos portões de metal para o cemitério, ele parou.
— Eu sei que esse é um lugar esquisito para um piquenique — ele explicou — mas é o melhor local que conheço para ficar fora de vista por um tempinho. No campus, de qualquer maneira. Às vezes eu simplesmente não consigo respirar lá.
Ele gesticulou na direção do prédio.
Luce conseguia definitivamente concordar com isso. Ela se sentia reprimida e exposta quase o tempo todo nesse lugar. Mas Cam parecia a última pessoa que iria partilhar daquela síndrome de aluno novo. Ele era tão... controlado. Depois daquela festa ontem à noite, e agora o café expresso proibido em sua mão, ela nunca adivinharia que ele se sentia sufocado também. Ou que ele a escolheria para compartilhar essa sensação.
Por trás da cabeça dele, ela conseguia ver o resto do campus precário. Daqui, não havia muita diferença entre um lado dos portões do cemitério e o outro.
Luce decidiu ir na onda.
— Só prometa me salvar se alguma estátua cair.
— Não — Cam disse com uma seriedade que apagou efetivamente sua piada. — Isso não acontecerá novamente.
Os olhos dela caíram no local onde, apenas alguns dias antes, ela e Daniel tinham chegado perto deles próprios terminarem no cemitério. Mas o anjo de mármore que tinha caído sobre eles tinha desaparecido, seu pedestal vazio.
— Vamos — Cam falou, arrastando-a junto com ele.
Eles evitaram retalhos abandonados de ervas daninhas, e Cam ficava se virando para ajudá-la a passar por montes de terra desenterrados por sabe Deus quem.
Numa hora, Luce quase perdeu seu equilíbrio e se agarrou a uma das lápides para se firmar. Era uma laje ampla e polida com um lado áspero e inacabado.
— Eu sempre gostei dessa — Cam comentou, gesticulando para a lápide rosada sob seus dedos.
Luce cruzou até a frente do terreno para ler a inscrição.
— Joseph Miley — ela leu em voz alta — 1821 a 1865. Serviu bravamente na Guerra da Agressão do Norte. Sobreviveu a três balas e a cinco cavalos caídos em cima dele antes de encontrar sua paz final.
Luce estralou suas juntas. Talvez Cam só gostasse porque sua pedra rosada polida se destacava entre quase todas as cinzentas? Ou por causa dos complexos verticílios pelo topo? Ela ergueu uma sobrancelha para ele.
— É — Cam deu de ombros. — Eu simplesmente gosto de como a lápide explica o jeito que ele morreu. É honesto, sabe? Geralmente, as pessoas não querem falar sobre isso.
Luce desviou o olhar. Ela sabia isso muito bem pelo epigrafo inescrutável na lápide do Trevor.
— Pense no quanto mais interessantes esse lugar seria se a causa da morte de todo mundo fosse revelada. — Ele apontou para um pequeno túmulo a alguns lotes do de Joseph Miley. — Como você acha que ela morreu?
— Hm, escarlatina? — Luce adivinhou, vagueando.
Ela contou as datas com seus dedos. A garota enterrada aqui era mais nova do que Luce quando morrera. Luce não queria realmente pensar muito em como poderia ter acontecido.
Cam inclinou sua cabeça, considerando.
— Talvez. Ou isso ou um incêndio misterioso no celeiro enquanto a jovem Betsy estava tirando uma “soneca” inocente com o vizinho.
Luce começou a fingir estar ofendida, mas ao invés, o rosto esperançoso a fez rir. Fazia tanto tempo desde que ela tinha simplesmente se divertido com um cara. Claro, essa cena era um pouco mais mórbida do que os típicos flertes no estacionamento de um cinema ao quais ela estava acostumada, mas também eram os estudantes na Sword & Cross. De um jeito ou de outro, Luce era um deles agora.
Ela seguiu Cam para o fundo de um cemitério no formato de tigela e para tumbas e mausoléus mais ornado. Na inclinação acima, as lápides pareciam estar olhando para baixo na direção deles, como se Luce e Cam fossem artistas em um anfiteatro. O sol do meio-dia brilhava laranja através de folhas de um carvalho vivo gigante no cemitério, e Luce colocou as mãos na frente dos olhos. Era o dia mais quente que eles tinham tido na semana toda.
— Agora, esse cara — Cam disse, apontando para uma tumba enorme emoldurada por colunas de ordem coríntia. — Um desertor total. Ele sufocou quando uma viga caiu em seu porão. O que te mostra, nunca se esconda de uma captura dos Confederados.
— É mesmo? Me lembre o que te faz o especialista sobre tudo isso?
Mesmo enquanto ela provocava-o, Luce se sentia estranhamente privilegiada por estar aqui com Cam. Ele ficava olhando para ela para se certificar de que ela estava sorrindo.
— É só um sexto sentido. — Ele relampejou seu sorriso enorme e inocente. — Se gosta disso, tem um sétimo sentido, e um oitavo sentido, e um nono sentido de onde esse vem.
— Impressionante — ela sorriu. — Eu me satisfarei com o sentido do paladar agora. Estou morrendo de fome.
— Ao seu serviço.
Cam puxou uma coberta de sua sacola e a esticou em um pedaço de sombra sob o carvalho vivo. Ele abriu a garrafa térmica e Luce conseguiu sentir o cheiro de café expresso forte. Ela geralmente não bebia café preto, mas observou enquanto ele enchia um copo com gelo, serviu o café expresso, e acrescentou exatamente a quantidade certa de leite em cima.
— Eu esqueci de trazer o açúcar — ele disse.
— Eu não bebo com açúcar.
Ela tomou um gole do café gelado ultra-seco, seu primeiro gole deliciosos da cafeína proibida da Sword & Cross em toda a semana.
— Que sorte — Cam disse, espalhando o resto do piquenique.
Os olhos de Luce alargaram-se enquanto ela observava-o arrumar a comida: uma baguete marrom-escura, uma rodela pequena de queijo fedorento, um pote de azeitonas laranja amarronzado, uma tigela de ovos apimentados e duas maçãs verdes brilhantes. Não parecia possível que Cam tivesse enfiado tudo isso em sua sacola – ou se que estivera planejando comer toda essa comida sozinho.
— Onde conseguiu isso? — Luce perguntou. Fingindo se focar em despedaçar um pedaço grande de pão, ela perguntou — e com quem você estava planejando um piquenique antes de eu aparecer?
— Antes de você aparecer? — Cam riu. — Eu mal consigo me lembrar da minha triste vida antes de você.
Luce lançou-lhe um ligeiro olhar depreciativo para que ele soubesse que ela achou a observação dele incrivelmente brega... e só um pouquinhozinho charmosa. Ela se reclinou em seus cotovelos no cobertor, suas pernas cruzadas nos tornozelos. Cam estava sentado de pernas cruzadas a encarando, e quando ele se esticou na direção dela para pegar a faca do queijo, seu braço roçou, então descansou, no joelho da calça jeans preta dela. Ele olhou para ela, como se para perguntar, Tudo bem?
Quando ela não recuou, ele ficou ali, pegando o pedaço grande de baguete da mão dela e usando a perna dela como um tampo de mesa enquanto ele espalhava um triângulo de queijo no pão. Ela gostava da sensação do peso dele nela, e nesse calor, isso era dizer muito.
— Eu vou começar com a pergunta mais fácil primeiro — ele disse, finalmente se sentando. — Eu ajudo na cozinha alguns dias por semana. Parte do meu acordo de readmissão na Sword & Cross. Eu devia estar “devolvendo” — ele revirou seus olhos. — Mas não me incomodo de estar lá. Acho que gosto do calor. Isso é, se você não contar as queimaduras de gordura.
Ele mostrou seus punhos virados para cima para expor dúzias de minúsculas cicatrizes em seus antebraços.
— Perigos do trabalho — ele disse casualmente. — Mas eu gerencio a dispensa.
Luce não conseguiu resistir a correr seus dedos por elas, os inchaços pálidos infinitesimais desbotando em sua pele ainda mais pálida. Antes que ela pudesse se sentir envergonhada por sua audácia e recuar, Cam agarrou sua mão e apertou.
Luce encarou os dedos dele entrelaçados ao redor dos dela. Ela não tinha percebido antes o quanto os tons das peles deles combinavam acuradamente. Em um cenário de sulistas bronzeados, a palidez de Luce sempre a deixara autoconsciente. Mas a pele de Cam era tão impressionante, tão notável, quase metálica – e agora ela percebeu que poderia parecer a mesma coisa para ele. Os ombros dela estremeceram e ela se sentiu um pouco tonta.
— Você está com frio? — ele perguntou silenciosamente.
Quando ela encontrou com os olhos dele, sabia que ele sabia que ela não estava com frio. Ele se aproximou no cobertor e abaixou sua voz para um sussurro.
— Agora acho que você vai querer que eu admita que pulei a janela da cozinha e empacotei tudo isso na esperança de convencê-la a matar aula comigo?
Agora seria quando ela teria pescado o gelo em sua bebida, se já não tivesse derretido no calor fedorento de setembro.
— E você fez esse esquema toda de um piquenique romântico — ela terminou. — No cenário de um cemitério?
— Ei — ele correu um dedo pelo lábio inferior dela. — Você é quem está trazendo o romance à tona.
Luce recuou. Ele estava certo – fora ela quem presumira... pela segunda vez no dia. Ela conseguia sentir suas bochechas queimando enquanto tentava não pensar em Daniel.
— Estou brincando — ele falou, balançando sua cabeça para o olhar chocado no rosto dela. — Como se não fosse óbvio.
Ele olhou para um urubu-de-cabeça-vermelha circulando uma grande estátua branca no formato de um canhão.
— Eu sei que aqui não é nenhum Éden — ele continuou, jogando uma maçã para Luce — mas simplesmente finja que estamos numa música dos Smith. E para meu crédito, não é como se tivesse muito com que se trabalhar nessa escola.
E isso pegando leve.
— Do meu ponto de vista — Cam disse, reclinando-se no cobertor — a localização é insignificante.
Luce lançou-lhe um olhar duvidoso. Ela também desejou que ele não tivesse recuado, mas era tímida demais para se aproximar quando ele reclinava.
— Onde eu cresci — ele pausou — as coisas não eram tão diferentes do estilo de vista penitenciário da Sword & Cross. O resultado é que eu estou oficialmente imune ao meu arredor.
— De jeito nenhum — Luce balançou sua cabeça. — Se eu te desse uma passagem de avião para a Califórnia agora mesmo, você não ficaria totalmente animado de cair fora daqui?
— Hmm... indulgentemente indiferente.
Ele enfiou um ovo apimentado em sua boca.
— Eu não acredito em você.
Luce deu-lhe um empurrão.
— Então você deve ter tido uma infância feliz.
Luce mordeu a pele verde mastigável da maçã e lambeu o suco escorrendo de seus dedos. Ela percorreu um catálogo mental de todas as franzidas de seus pais, as visitas a médicos e mudanças escolares de sua infância, as sombras negras pairando como uma mortalha sobre tudo. Não, ela não diria que teve uma infância feliz. Mas se Cam não conseguia nem ao menos ver uma saída da Sword & Cross, algo mais esperançoso no horizonte, então talvez a dele tenha sido pior.
Houve um farfalhar aos pés deles e Luce se encolheu quando uma grossa cobra verde e amarela deslizou. Tentando não chegar muito perto, ela ficou de joelhos e espiou-a. Não só uma cobra, mas uma cobra no meio da troca de pele. Um invólucro translúcido estava saindo de sua cauda.
Tinha cobras por toda a Geórgia, mas ela nunca tinha visto uma se trocar.
— Não grite — Cam aconselhou, descansando uma mão no joelho de Luce. O toque dele fez Luce se sentir mais a salvo. — Ela seguirá se simplesmente a deixarmos em paz.
Não podia demorar mais. Luce queria muito gritar. Ela sempre odiara e temera cobras. Elas eram simplesmente tão escorregadias e escamosas e...
— Ui.
Ela estremeceu, mas não conseguiu tirar seus olhos da cobra até que tivesse desaparecido na grama alta. Cam sorriu forçadamente enquanto pegava a pele caída e a colocava na mão dela. Ainda parecia viva, como a pele fresca de um bulbo de alho que seu pai tinha colhido de seu jardim. Mas tinha acabado de sair de uma cobra. Nojento. Ela a jogou de volta no chão e limpou suas mãos na sua calça jeans.
— Vamos, você não achou que era bonitinho?
— A minha tremedeira revelou isso?
Luce já estava se sentindo um tanto envergonhado pelo quanto ela deve ter parecido uma criança.
— E quanto a fé no poder da transformação? — Cam perguntou, dedilhando a pele caída. — É por isso que estamos aqui, afinal.
Cam tinha tirado seus óculos de sol. Seus olhos esmeralda estavam tão confiantes. Ele estava naquela pose imóvel inumana novamente, esperando que ela respondesse.
— Estou começando a achar que você é um pouquinho estranho — ela disse finalmente, dando um pequenino sorriso.
— Ah, e só pense no quanto mais há para se conhecer sobre mim — ele respondeu, inclinando-se para mais perto. Mais perto do que ele estivera quando a cobra chegou. Mais perto do que ela estivera esperando que ele chegasse. Ele esticou sua mão e correu seus dedos lentamente pelo cabelo dela. Luce ficou tensa.
Cam era lindo e intrigante. O que ela não conseguia entender era como, quando ela devia estar uma pilha de nervos – como bem agora – ela ainda, de algum modo, se sentia confortável. Ela queria estar exatamente onde estava. Ela não conseguia tirar seus olhos dos lábios dele, que eram cheios e rosados e estavam se movendo mais para perto, fazendo-a se sentir ainda mais tonta.
O ombro dele roçou o dela e ela sentiu um estranho tremor no fundo de seu peito. Ela observou enquanto Cam separou seus lábios. Então ela fechou seus olhos.
— Aí estão vocês! — Uma voz sem fôlego tirou Luce diretamente do momento.
Luce soltou um suspiro exasperado e desviou sua atenção para Gabbe, que estava parada diante deles com um rabo-de-cavalo alto e lateral, e um sorriso distraído em seu rosto.
— Eu procurei por todo o lugar.
— Por que diabos você faria isso? — Cam olhou feio para ela, ganhando mais alguns pontos com Luce.
— O cemitério foi o último lugar em que pensei — Gabbe tagarelou, contando em seus dedos. — Eu chequei seus dormitórios, então debaixo das arquibancadas, então...
— O que você quer, Gabbe? — Cam a cortou, como um irmão, como se se conhecessem por muito tempo.
Gabbe pestanejou, então mordeu seu lábio.
— Foi a Senhorita Sophia — ela disse finalmente, estalando seus dedos. — É mesmo. Ela ficou frenética quando Luce não apareceu na aula. Ficou falando como você era uma estudante tão promissora e tudo.
Luce não conseguia decifrar essa garota. Ela era genuína e estava simplesmente seguindo ordens? Ela estava zombando da Luce por ter feita uma boa impressão com uma professora? Não era o bastante para ela ter Daniel na palma da mão – ela tinha que dar em cima do Cam agora, também?
Gabbe deve ter pressentido que estava interrompendo algo, mas ela simplesmente ficou parada lá pestanejando seus grandes olhos de corça e torcendo uma mecha de cabelo loiro ao redor de seu dedo.
— Bem, vamos — ela falou finalmente, esticando as duas mãos para ajudar Luce e Cam a se levantarem. — Vamos te levar de volta para a aula.
***
— Lucinda, você pode ficar na estação três — a Senhorita Sophia disse, olhando para baixo para uma folha de papel quando Luce, Cam e Gabbe entraram na biblioteca.
Nada de Onde você esteve? Nada de desconto de pontos pelo atraso. Só a Senhorita Sophia, distraidamente colocando Luce perto de Penn na seção do laboratório de computação da biblioteca. Como se ela nem ao menos tivesse notado que Luce não estava lá.
Luce lançou um olhar acusatório para Gabbe, mas ela simplesmente deu de ombros para Luce e balbuciou:
— O quê?
— Ondevocêesteve? — Penn exigiu assim que ela sentou.
A única pessoa que pareceu ter notado que ela não estivera lá.
Os olhos de Luce acharam Daniel, que estava praticamente enterrado em seu computador na estação sete. De seu assento, tudo que Luce conseguia ver dele era a auréola loira do cabelo dele, mas era o bastante para trazer um rubor à suas bochechas.
Ela afundou ainda mais em sua cadeira, envergonhada novamente pela conversa dos dois no ginásio. Mesmo depois de todas as risadas e sorrisos e aquele potencial quase beijo que ela tinha acabado de partilhar com Cam, ela não conseguia calar o que sentiu quando viu Daniel. E eles nunca iam ficar juntos.
Essa era a essência do que ele tinha dito a ela no ginásio. Depois de ela basicamente ter se jogado em cima dele.
A rejeição a cortou tão profundamente, tão perto do seu coração, que ela teve certeza de que todos ao redor dela podiam olhar para ela e saber exatamente o que tinha acontecido.
Penn estava batendo seu lápis impacientemente na mesa de Luce. Mas Luce não sabia como explicar. Seu piquenique com Cam tinha sido interrompido por Gabbe antes que Luce tivesse ao menos sido capaz de realmente achar um sentido no que estava acontecendo. Ou prestes a acontecer. Mas o que era estranho, e o que ela não conseguia entender, era por que tudo isso parecia tão menos importante do que o que tinha acontecido no ginásio com Daniel.
A Senhorita Sophia ficou de pé no meio do laboratório de computação, estalando seus dedos no ar como uma professora de jardim para conseguir a atenção de seus estudantes. Suas pilhas de braceletes prata batiam como sinos.
— Se algum de vocês já tiver traçado a sua própria árvore genealógica — ela falou alto sobre o barulho da multidão — então você saberá que tipos de tesouro estão escondidos nas raízes.
— Ah, meu, por favor mate essa metáfora — Penn sussurrou. — Ou me mate. Um ou outro.
— Vocês terão um acesso de vinte minutos a Internet para começar a pesquisar sobre a sua própria árvore genealógica — a Senhorita Sophia disse, batendo num cronômetro. — Uma geração dá aproximadamente vinte a vinte cinco anos, então tenham como objetivo voltar pelo menos seis gerações.
Gemido.
Um suspiro audível irrompeu na estação sete – Daniel.
A Senhorita Sophia virou-se para ele.
— Daniel? Você tem algum problema com essa tarefa?
Ele suspirou novamente e deu de ombros.
— Não, não mesmo. Tudo bem. Minha árvore genealógica. Deve ser interessante.
A Senhorita Sophia inclinou sua cabeça em escárnio.
— Eu tomarei essa informação como uma confirmação entusiasmada.
Dirigindo-se para a sala novamente, ela disse:
— Tenho certeza de que acharão uma linha que valerá a pena perseguir numa pesquisa de dez a quinze páginas.
Luce não poderia possivelmente se focar nisso agora. Não quando tinha tanto mais para se processar. Ela e Cam no cemitério. Talvez não tenha sido a definição padrão de romântico, mas Luce quase preferia desse jeito. Era como nada que ela já tinha feito antes. Matar aula para perambular por todos aqueles túmulos. Partilhar aquele piquenique, enquanto ele enchia um copo de café. Zombando do medo dela de cobras. Bem, ela podia ter passado sem todo aquele desenvolvimento da cobra, mas pelo menos Cam fora doce em relação a isso. Mais doce do que Daniel fora a semana toda.
Ela odiava admitir isso, mas era verdade. Daniel não estava interessado. Cam, por outro lado... Ela o estudou, a algumas estações a distância. Ele piscou para ela antes que começasse a trabalhar no seu teclado. Então, ele gostava dela. Callie não iria ser capaz de calar a boca sobre como ele estava tão obviamente a fim dela.
Ela queria ligar para Callie agora, sair correndo dessa biblioteca e deixar sua tarefa sobre a árvore genealógica para mais tarde. Falar sobre outro cara era o jeito mais rápido – talvez o único – de tirar Daniel da sua cabeça. Mas havia aquela política telefônica horrível na Sword & Cross, e todos os outros estudantes ao redor dela, que pareciam tão diligentes.
Os minúsculos olhos da Senhorita Sophia procuravam na sala por procrastinadores. Luce suspirou, vencida, e abriu o mecanismo de pesquisa no seu computador. Ela estava presa aqui por mais vinte minutos – sem nenhuma celular cerebral dedicada a sua tarefa. A última coisa que ela queria era aprender sobre sua própria família tediosa. Ao invés, seus dedos apáticos começaram a digitar treze letras inteiramente por conta própria.
Daniel Grigori. Buscar.CAPITULO 8: UM MERGULHO FUNDO DE MAIS
Quando Luce atendeu à batida em sua porta na manhã de sábado, Penn caiu em seus braços.
— Era de se esperar que eu aprendesse algum dia que as portas abrem pra dentro — ela desculpou-se, ajeitando seus óculos. — Tenho que me lembrar de parar de me inclinar nos olhos mágicos. Belo local, a propósito — ela acrescentou, olhando ao redor. Ela cruzou até a janela sobre a cama de Luce. — Não é uma má vista, fora as barras e tudo.
Luce ficou de pé atrás dela, olhando para o cemitério e, a plena vista, o carvalho vivo onde ela fizera o piquenique com Cam. E, invisível daqui, mas claro em sua cabeça, o lugar onde ela ficara esmagada sob a estátua com Daniel. O anjo vingador que tinha desaparecido misteriosamente após o acidente.
Lembrando-se dos olhos preocupados de Daniel quando ele tinha sussurrado seu nome naquele dia, o toque próximo de seus narizes, o jeito como ela tinha sentido as pontas dos dedos dele em seu pescoço – tudo isso a fazia se sentir quente. E patética.
Ela suspirou e se afastou da janela, percebendo que Penn tinha se movido também. Ela estava pegando coisas da mesa de Luce, dando a cada uma das posses de Luce um exame detalhe cuidadoso. O peso de papel da Estátua da Liberdade que seu pai tinha trazido de uma conferência na Universidade de Nova York, a foto de sua mãe com um permanente hilário de tão ruim quando ela tinha aproximadamente a idade de Luce, o CD de Lucinda Williams que Callie tinha lhe dado como presente de partida antes mesmo que Luce tivesse ouvido o nome Sword & Cross.
— Onde estão os seus livros? — ela perguntou a Penn, querendo desviar de uma viagem pela rua das lembranças. — Você disse que estava vindo estudar.
Nessa hora, Penn tinha começado a remexer em seu guarda-roupa. Luce observou enquanto ela rapidamente perdia interesse nas variações do estilo de camisetas e suéteres pretos do código de vestimenta. Quando Penn se moveu na direção das gavetas de sua penteadeira, Luce deu um passo para frente para interceptar.
— Está bem, isso é o bastante, bisbilhoteira. Não tem uma pesquisa que devíamos estar fazendo sobre as árvores genealógicas?
— Falando em bisbilhotar — os olhos de Penn cintilaram. — Sim, há uma pesquisa que deveríamos estar fazendo. Mas não a que você está pensando.
Luce encarou-a inexpressivamente.
— Hein?
— Olha — Penn colocou sua mão no ombro de Luce. — Se você realmente quiser saber sobre Daniel Grigori...
— Shhh! — Luce sibilou, pulando para fechar sua porta.
Ela enfiou sua cabeça no corredor e escaneou a cena. A barra parecia limpa – mas isso não significava nada. As pessoas nessa escola tinham uma maneira suspeita de aparecer do nada. Cam em particular. E Luce morreria se ele – ou qualquer um – descobrisse o quanto ela estava enamorada pelo Daniel. Ou, a essa altura, qualquer um, exceto a Penn.
Satisfeita, Luce fechou e trancou a porta e se virou para sua amiga. Penn estava sentada de pernas cruzadas na beira da cama de Luce. Ela parecia divertida.
Luce prendeu suas mãos atrás de suas costas e afundou seus dedos no tapete vermelho circular perto de sua porta.
— O que te faz achar que eu quero saber algo sobre ele?
— Me dá um tempo — Penn respondeu, rindo. — A, é totalmente óbvio que você encara o Daniel Grigori o tempo todo.
— Shhh! — Luce disse novamente.
— B — Penn continuou, não abaixando sua voz — eu te observei persegui-lo online por uma aula inteira no outro dia. Me processa – mas você estava sendo totalmente descarada. E C, não fique toda paranoica. Você acha que eu fofoco com alguém nessa escola além de você?
Penn tinha mesmo razão.
— Só estou dizendo — ela continuou — assumindo que, hipoteticamente, você quisesse saber mais sobre uma certa pessoa sem nome, você podia concebivelmente procurar numa árvore mais frutífera — Penn deu de ombros. — Sabe, se você tivesse ajuda.
— Estou escutando — Luve falou, afundando na cama.
Sua pesquisa na internet no outro dia se resumira a digitar, então deletar, então digitar novamente o nome de Daniel no campo de pesquisa.
— Esperava que você dissesse isso. Eu não trouxe livros comigo hoje porque eu vou te dar — ela arregalou seus olhos patetamente — uma excursão guiada no covil subterrâneo altamente fora dos limites do escritório de registros da Sword & Cross!
Luce fez careta.
— Eu não sei. Espiar os arquivos do Daniel? Não sei preciso de outra razão para me sentir como uma perseguidora louca.
— Haha. E sim, você acabou de dizer isso em voz alta. Vamos, Luce. Será divertido. Além do mais, o que mais você vai fazer numa manhã perfeitamente ensolarada de sábado?
Era um belo dia – precisamente o tipo de belo que fazia você se sentir solitária se não tivesse nada divertido planejado ao ar livre. No meio da noite, Luce sentira um vento frio pela sua janela aberta, e quando ela acordara essa manhã, o calor e a umidade não tinham desaparecido.
Ela costumava passar esses preciosos dias do começo do outono andando na trilha de bicicleta da vizinhança com seus amigos. Isso fora antes de ela começar a evitar a trilha da floresta por causa das sombras que nenhuma das outras garotas via. Antes que seus amigos a fizessem se sentar durante o recesso e disseram que seus pais não queriam mais que eles a convidassem para ir em suas casas, no caso dela ter um incidente.
A verdade era que Luce tinha ficado um pouco em pânico sobre como passaria esse primeiro final de semana na Sword & Cross. Nada de aulas, nada de exames físicos aterrorizantes, nada de eventos sociais na lista. Somente quarenta e oito horas intermináveis de tempo livre. Uma eternidade. Ela tinha tido uma sensação enjoada de saudades de casa a manhã toda – até Penn aparecer.
— Está bem — Luce tentou não rir quando disse — me leve ao seu covil secreto.
Penn praticamente saltitava enquanto levava Luce pela grama esmagada da área comum até o salão principal perto da entrada da escola.
— Você não sabe quanto tempo eu esperei em trazer um parceiro no crime aqui embaixo comigo.
Luce sorriu, feliz que Penn estava mais focada em ter uma amiga com quem explorar do que estava em, bem, essa... coisa que Luce tinha por Daniel.
No fim da área comum, eles passaram por alguns garotos descansando nas arquibancadas no claro sol de tarde da manhã. Era estranho ver cor no campus, naqueles estudantes que Luce identificava tanto com a cor preta. Mas lá estava Roland com um short de futebol verde-limão, driblando uma bola entre seus pés. E Gabbe com sua blusa roxa abotoada. Jules e Phillip – o casal das línguas furadas – estavam desenhando nos joelhos dos jeans desbotados um do outro. Todd Hammond sentava-se distante do resto dos garotos nas arquibancadas, lendo uma história em quadrinhos com uma camiseta de camuflagem. Até mesmo a regata e o short cinza de Luce pareciam mais vibrantes do que qualquer coisa que ela tinha usado a semana toda.
A Treinadora Diante e a Albatroz estavam cuidando do gramado e tinham colocado duas cadeiras de jardim de plástico e um guarda-sol desconjuntado no fim da área comum. Tirando a parte quando apagavam seus cigarros na grama, elas podiam estar dormindo por trás de seus óculos de sol escuros. Elas pareciam absolutamente entediadas, tão aprisionadas por seus trabalhos quanto os acusados que estavam monitorando.
Havia muitas pessoas na área comum, mas enquanto ela seguia perto de Penn, ela ficou feliz de ver que não havia ninguém perto do salão principal. Ninguém tinha dito nada para Luce sobre passar dos limites de áreas restritas, ou mesmo quais áreas eram restritas, mas ela tinha certeza que Randy encontraria uma punição apropriada.
— E quanto aos vermelhos? — Luce perguntou, se lembrando das câmeras onipresentes.
— Eu simplesmente coloquei umas baterias descarregadas em algumas dela no caminho até seu quarto — Penn respondeu, no mesmo tom de voz indiferente que outra pessoa usaria para dizer “Eu acabei de encher o carro com gasolina.”
Penn deu um olhar perscrutador ao redor antes de dirigir Luce para a entrada traseira do prédio principal e por três degraus íngremes para baixo para uma porta de cor azeitonada não visível do nível do solo.
— Esse porão é da época da Guerra da Secessão também? — Luce perguntou.
Parecia uma entrada para o tipo de lugar onde você dava para esconder alguns prisioneiros de guerra. Penn deu uma cheirada longa e dramática no ar úmido.
— A ponta de mal cheiro responde a sua pergunta? Isso aqui é um mofo anterior à guerra. — Ela sorriu sarcasticamente para Luce. — A maioria dos estudantes se ajoelharia pela chance de inalar um ar tão célebre.
Luce tentou não respirar pelo nariz enquanto Penn pegava um amontoado de chaves seguradas por uma passadeira gigante digno de loja de ferragens.
— Minha vida seria tão mais fácil se eles fizessem uma chave mestra para esse lugar — ela comentou, procurando no sortimento e finalmente puxando uma fina chave de prata.
Quando a chave virou na fechadura, Luce sentiu um tremor inesperado de animação. Penn estava certa – isso era muito melhor do que mapear nossa árvore genealógica.
Elas andaram uma pequena distância num corredor quente e úmido cujo teto era apenas alguns centímetros mais alto que suas cabeças. O ar cheirava como se algo tivesse morrido ali, e Luce ficou quase feliz pelo cômodo ser escuro demais para ver claramente o chão. Bem quando ela estava começando a se sentir claustrofóbica, Penn pegou outra chave que abria uma porta pequena, mas muito mais moderna. Elas mergulharam nela, então foram capazes de ficar de pé no outro lado.
Dentro, o escritório de registros fedia a mofo, mas o ar parecia muito mais frio e seco. Estava negro como breu, exceto pelo brilho vermelho fraco do sinal de SAÍDA sobre suas cabeças.
Luce conseguia distinguir a silhueta robusta de Penn, suas mãos tateando o ar.
— Onde está aquela corda? — ela resmungou. — Aqui.
Com um empurrão gentil, Penn ligou uma lâmpada incandescente descoberta, pendurada no teto por uma corrente de elos de metal. O cômodo ainda estava turvo, mas agora Luce conseguia ver que as paredes de cimento também estavam pintadas de verde oliva e alinhadas com pesadas prateleiras de metal e fichários. Dúzias de caixas de papelão tinham sido entulhadas nas prateleiras, e as fileiras entre os fichários parecia se esticar para sempre. Tudo estava coberto por um feltro espesso de poeira. A luz do sol do lado de fora repentinamente parecia muito distante.
Mesmo Luce sabendo que eles estavam apenas a uma escadaria do chão, podia muito bem ser a um quilômetro. Ela roçou seus braços nus. Se fosse uma sombra, esse porão era exatamente onde ela estaria. Não havia sinais delas ainda, mas Luce sabia que isso não era uma razão boa o bastante para se sentir segura.
Penn, inabalada pela melancolia do porão, arrastou uma banqueta com degrau do canto.
— Uau — ela disse, puxando-o atrás de si enquanto andava. — Algo está diferente. Os registros costumavam ficar bem aqui... Eu acho que eles fizeram uma limpezinha geral desde a última vez que eu me intrometi aqui.
— Há quanto tempo foi isso? — Luce perguntou.
— Cerca de uma semana...
A voz de Penn diminuiu enquanto ela desaparecia na escuridão atrás de um fichário alto.
Luce não conseguia imaginar para que a Sword & Cross poderia precisar de todas essas caixas. Ela levantou uma tampa e puxou um arquivo espesso etiquetado MEDIDAS CORRETIVAS. Ela engoliu secamente. Talvez fosse melhor que ela não soubesse.
— Está em ordem alfabética por estudante — Penn explicou. Sua voz soava abafada e distante. — E, F, G... aqui estamos nós, Grigori.
Luce seguiu o som de papelada farfalhando por uma fileira estreita e logo encontrou Penn com uma caixa apoiada em seus braços, lutando sob seu peso. O arquivo de Daniel estava enfiado sob seu queixo.
— É tão fino — ela disse, levantando seu queixo ligeiramente para que Luce pudesse pegá-lo. — Normalmente, há muito mais, hum...
Ela olhou para cima para Luce e mordeu seu lábio.
— Está bem, agora eu soo como uma perseguidora maluca. Vamos simplesmente ver o que tem dentro.
Havia apenas uma única página no arquivo de Daniel. Uma cópia em preto e branco do que deveria ter sido sua foto da carteirinha de estudante estava colada no alto do canto direito. Ele estava olhando diretamente para a câmera, para Luce, um sorriso desbotado em seus lábios. Ela não conseguiu evitar sorrir de volta. Ele parecia exatamente o mesmo que naquela noite quando... bem, ela não conseguia pensar exatamente quando. A imagem de sua expressão estava tão penetrante em sua mente, mas ela não conseguia reconhecer onde ela a havia visto.
— Deus, ele não parece exatamente o mesmo? — Penn interrompeu os pensamentos de Luce. — E olhe a data. Essa foto foi tirada há três anos quando ele veio para Sword & Cross.
Devia ser isso que Luce estivera pensando... que Daniel parecia o mesmo de agora. Mas ela sentira que estivera pensando – ou prestes a pensar – em algo diferente, só que agora ela não conseguia se lembrar o que era.
— Pais: desconhecidos — Penn leu, com Luce inclinando-se sobre seu ombro. — Guardião: Orfanato do Condado de Los Angeles.
— Orfanato? — Luce perguntou, pressionando sua mão em seu coração.
— É só isso que tem. Todo o resto listado aqui é o seu...
— Histórico criminal — Luce terminou, lendo adiante. — Vagabundear em um banco público... vandalismo com um carrinho de compras... andar fora da faixa.
Penn alargou seus olhos para Luce e engoliu uma risada.
— Loverboy Grigori foi preso por andar fora da faixa? Admita, isso é engraçado.
Luce não gostava de imaginar Daniel sendo preso por nada. Ela gostava ainda menos que, de acordo com a Sword & Cross, a vida inteira dele somava um pouco mais do que uma lista de contravenções. Todas essas caixas de papelada aqui embaixo, e isso era tudo que tinha sobre o Daniel.
— Tem que ter mais.
Passos acima. Os olhos de Luce e Penn foram para o teto.
— O escritório principal — Penn sussurrou, puxando um lenço de papel de dentro de sua manga para assoar seu nariz. — Pode ser qualquer um. Mas ninguém irá descer aqui, confie em mim.
Um segundo mais tarde, uma porta bem nos fundos dentro do cômodo abriu rangendo, e uma luz de um corredor iluminou a escadaria. Um som de sapatos começou a descer.
Luce sentiu o aperto de Penn nas costas de sua camiseta, puxando-a contra a parede atrás de um estante de livros. Elas esperaram, segurando suas respirações e apertando o arquivo de Daniel pego ilegalmente em suas mãos. Elas foram tão, tão pegas no flagra.
Luce estava com seus olhos fechados, esperando o pior, quando um cantarolar assombroso e melódico encheu o cômodo. Alguém estava cantando.
— Doooo da da da dooo — uma voz feminina sussurrava suavemente.
Luce suspendeu seu pescoço entre duas caixas de arquivos e conseguiu ver uma mulher magra mais velha com uma pequena lanterna presa em sua testa como um minerador. Senhorita Sophia. Ela carregava duas caixas largas, uma empilhada em cima da outra, assim a única parte dela que estava visível era sua testa brilhante. Seus passos aéreos faziam parecer como se as caixas estivessem cheias de penas ao invés de arquivos pesados.
Penn agarrou a mão de Luce enquanto elas observavam a Senhorita Sophia colocar as caixas de arquivos numa prateleira vazia. Ela tirou uma caneta para escrever algo em seu caderno.
— Só mais algumas — ela disse, então algo baixinho que Luce não conseguiu ouvir.
Um segundo mais tarde, a Senhorita Sophia deslizava de volta pela escada, indo embora tão rapidamente quanto tinha aparecido. Seu cantarolar permaneceu por apenas um instante em seu rastro.
Quando a porta fechou, Penn soltou um trago enorme de ar.
— Ela disse que tinham mais. Ela provavelmente vai voltar.
— O que fazemos? — Luce perguntou.
— Você escapa pela escada — Penn respondeu, apontando. — Vira a esquerda no alto e estará bem no escritório principal. Se alguém te ver, você pode dizer que estava procurando um banheiro.
— E quanto a você?
— Eu guardarei o arquivo do Daniel e te encontrarei na arquibancada. A Senhorita Sophia não ficará desconfiada se ver apenas eu. Eu fico tanto aqui embaixo que é como um segundo dormitório.
Luce espiou o arquivo de Daniel com uma pontadinha de arrependimento. Ela ainda não estava pronta para ir embora. Bem na hora que ela tinha se resignado a checar o arquivo de Daniel, ela também começou a pensar no do Cam. Daniel era tão oculto – e infelizmente, seu arquivo também. Cam, por outro lado, parecia tão aberto e fácil de ler que a deixava curiosa. Luce se perguntou o que mais ela seria capaz de descobrir sobre ele que ele não dividiria de outra forma.
Mas uma olhada no rosto de Penn a disse que elas já estavam com tempo curto demais.
— Se houver mais para acharmos sobre o Daniel, acharemos — Penn a assegurou. — Vamos continuar procurando. — Ela deu um pequeno empurrão em Luce na direção da porta. — Agora, vá.
Luce se movia rapidamente pelo grosseiro corredor, então abriu uma porta até a escada. O ar na base da escada ainda estava úmido, mas ela conseguia senti-lo clarear um pouco com cada passo que dava. Quando finalmente curvou a esquina no alto da escada, teve que piscar e esfregar seus olhos para se reajustar à brilhante luz do sol inundando o corredor. Ela tropeçou na esquina e pelas portas pintadas de branco até o salão principal. Lá ela congelou.
Duas botas pretas de salto agulha, cruzadas nos tornozelos, estavam apoiadas em cima e para fora de uma cabine telefônica, parecendo muito a Bruxa Má do Sul. Luce se apressava na direção da porta dianteira, esperando não ser avistada, quando ela percebeu que as botas de salto agulha estavam presas a uma legging de pele de cobra, que estava presa a uma Molly não-sorridente. A pequenina câmera de prata descansava em sua mão. Ela levantou seus olhos para Luce, desligou o telefone em seu ouvido, e ficou de pé no chão.
— Por que você parece tão culpada, Bolo de Carne? — ela perguntou, ficando de pé com suas mãos em seus quadris. — Deixe-me adivinhar. Você ainda está planejando ignorar a minha sugestão de ficar longe do Daniel.
Todo o negócio de monstro malvado tinha que ser uma atuação. Não tinha jeito da Molly saber onde Luce acabara de estar. Ela não sabia nada sobre a Luce. Ela não tinha razão para ser tão má. Desde o primeiro dia de escola, Luce nunca fizera nada para Molly – exceto tentar ficar longe dela.
— Você está se esquecendo que desastre infernal foi da última vez que você tentou se forçar sobre um cara que não estava interessado? — A voz de Molly estava tão afiada quanto uma faca. — Qual é mesmo o nome dele? Taylor? Truman?
Trevor. Como é que a Molly podia saber sobre o Trevor? Era isso, seu segredo mais profundo e sombrio. A única coisa que Luce queria – precisava – manter em segredo na Sword & Cross. Agora, não só o Mal Encarnado sabia sobre tudo isso, como ela não sentia vergonha alguma em mencionar isso, cruel, arrogantemente – no meio do escritório principal da escola.
Era possível que Penn mentira, que Luce não era a única pessoa com quem ela dividia seus secretos de escritório? Havia alguma outra explicação lógica? Luce prendeu seus braços sobre seu peito, sentindo-se enojada e exposta... e inexplicavelmente culpada como se sentira na noite do incêndio.
Molly inclinou sua cabeça.
— Finalmente — ela disse, soando aliviada. — Algo te atingiu.
Ela virou suas costas para Luce e empurrou a porta dianteira. Então, logo antes dela vaguear para fora, ela torceu seu pescoço e olhou para Luce.
— Então não faça com o querido Daniel o que você fez com o qual-o-nome-dele.Capiche?
Luce começou a ir atrás dela, mas só deu alguns passos para fora da porta antes de perceber que provavelmente explodiria se tentasse confrontar Molly agora. A garota era simplesmente cruel demais. Então, esfregando sal na ferida de Luce, Gabbe trotou da arquibancada para encontrar Molly no meio do campo. Elas estavam longe o bastante que Luce não conseguia distinguir suas expressões quando ambas se viraram para olhar para ela. A cabeça da loira com rabo-de-cavalo levantou-se na direção da com corte de fadinha e preto – a conversa a dois mais odiosa que Luce já tinha visto.
Ela curvou seus punhos suados juntos, imaginando Molly despejando tudo que sabia sobre Trevor para Gabbe, que imediatamente correria para transmitir as noticias para o Daniel. Pensando isso, uma dor enjoativa se espalhou dos dedos da Luce, pelos seus braços, e em seu peito. Daniel podia ter sido pego andando fora da faixa, mas e daí? Era nada comparado pelo que Luce estava aqui.
— Cuidado com a cabeça! — uma voz chamou.
Essa sempre fora a coisa menos favorita de Luce de se ouvir. Equipamentos esportivos de todos os tipos tinham de jeito estranho de descontrolarem bem nela. Ela recuou, olhando para cima diretamente para o sol. Ela não conseguia ver nada e nem teve tempo de cobrir seu rosto antes de sentir um golpe contra a lateral de sua cabeça e ouvir um thwunk alto tocando em seus ouvidos. Ai.
A bola de futebol do Roland.
— Boa!
Roland gritou enquanto a bola viajava diretamente de volta para ele. Como se Luce tivesse tido a intenção de fazer isso. Ela esfregou sua testa e deu alguns passos vacilantes. Uma mão ao redor de seu punho. Uma faísca de calor que a fez arfar. Ela olhou para baixo para ver dedos bronzeados ao redor de seu braço, então para cima para os olhos cinzas profundos de Daniel.
— Você está bem? — ele perguntou.
Quando ela assentiu, ele levantou uma sobrancelha.
— Se queria jogar futebol, podia ter dito. Eu ficaria feliz de explicar alguns detalhes do jogo, como a maioria das pessoas usa partes do corpo menos delicadas para retornar um chute.
Ele soltou seu punho, e Luce achou que ele estava esticando a mão na direção dela, para acariciar o lado dolorido de seu rosto. Por um segundo, ela ficou parada lá, segurando sua respiração. Então seu peito desmoronou quando a mão de Daniel afastou-se para escovar seu próprio cabelo para longe de seus olhos.
Foi quando Luce percebeu que Daniel estava zoando dela.
E por que não deveria? Provavelmente devia haver uma impressão de uma bola de futebol na lateral de seu rosto.
Molly e Gabbe ainda encaravam – e agora Daniel – com seus braços cruzados sobre seus peitos.
— Acho que a sua namorada está ficando com ciúmes — Luce falou, gesticulando para o par.
— Qual delas? — ele perguntou.
— Eu não percebi que ambas eram suas namoradas.
— Nenhuma é minha namorada — ele disse simplesmente. — Eu não tenho namorada. Quis dizer, qual delas achou que fosse minha namorada?
Luce estava estupefata. E quanto a toda a conversa sussurrada com a Gabbe? E quanto ao jeito que as garotas estavam olhando para eles agora? Daniel estava mentindo? Ele estava olhando para ela de um jeito estranho.
— Talvez você tenha batido sua cabeça mais forte do que pensei. Vamos, vamos dar uma volta, respirar um pouco de ar.
Luce tentou localizar a piada depreciadora na última sugestão de Daniel. Ele estava dizendo que ela era uma cabeça de vento que precisava de mais ar? Não, isso nem mesmo fazia sentido. Ela olhou para ele. Como ele podia parecer tão ingenuamente sincero? E bem quando ela estava se acostumando à rejeição de Grigori.
— Onde? — Luce perguntou cuidadosamente.
Porque seria fácil demais se sentir regozijada agora sobre o fato de Daniel não ter uma namorada, sobre ele querer ir a algum lugar com ela. Tinha que ter uma pegadinha.
Daniel meramente espremeu seus olhos para as garotas do outro lado do campo.
— Algum lugar onde não seremos observados.
Luce dissera a Penn que a encontraria na arquibancada, mas haveria tempo para explicar mais tarde, e é claro que Penn entenderia. Luce deixou Daniel guiá-la pelo olhar examinador das garotas e pela alameda de pessegueiros parcialmente apodrecidos, nos fundos da antiga igreja-ginásio. Eles estavam vindo por uma floresta de carvalhos vivos lindamente retorcidos, que Luce nunca adivinharia que estavam escondidos lá. Daniel olhou para trás para se certificar que ela estava acompanhando. Ela sorriu como se segui-lo não fosse nada demais, mas enquanto ela tomava seu caminho pelas velhas raízes nodosas, não conseguia evitar pensar nas sombras.
Agora ela estava entrando no bosque, a escuridão sob a grossa folhagem furada de vez em quanto por uma pequena coluna de luz do sol acima. O fedor de lama rica e úmida encheu o ar, e Luce repentinamente soube que havia água por perto.
Se ela fosse o tipo de pessoa que rezasse, seria agora que ela rezaria para as sombras ficarem distantes, simplesmente pela fatia de tempo que ela tinha com Daniel, para que ele não tivesse que ver como ele ficava maluco as vezes. Mas Luce nunca rezara. Ela não sabia como. Ao invés, ela simplesmente cruzou seus dedos.
— A floresta se abre bem aqui — Daniel disse.
Eles tinham chegado numa clareira, e Luce arfou estupefata.
Algo tinha mudado enquanto ela e Daniel andavam pela floresta, algo mais do que simplesmente a mera distância da Sword & Cross colorida por calmaria.
Porque quando eles saíram das árvores e ficaram parados nessa pedra alta e vermelha, era como se estivessem parados no meio de um cartão postal, do tipo que girava ao redor de uma prateleira de metal de uma farmácia de cidade pequena, uma imagem sonhadora de um sul idílico que não existia mais. Cada cor em que os olhos de Luce caíam era brilhante, mais clara do que tinha sido há um momento. Do lago azul cristalino logo abaixo deles até a floresta esmeralda densa cercando-os. Duas gaivotas voando em inclinação no céu claro acima. Quando ela ficou na ponta dos pés, conseguiu ver o começo de um pântano salgado de cor marrom-amarelada, um que ela sabia que cedia para um oceano de espuma branca em algum lugar no horizonte invisível.
Ela olhou para cima para Daniel. Ele parecia brilhante também. Sua pele estava dourada nessa luz, seus olhos quase chuvosos. A sensação deles em seu rosto era uma coisa pesada e notável.
— O que você acha? — ele perguntou.
Ele parecia tão mais relaxado agora que estavam longe de todos os outros.
— Eu nunca vi algo tão maravilhoso — ela escaneou a superfície intacta do lago, sentindo a vontade de mergulhar. A cerca de quinze metros na água estava uma pedra larga, chata e coberta por musgo. — O que é isso?
— Vou te mostrar — Daniel disse, chutando seus sapatos.
Luce tentou sem sucesso não encarar quando ele puxou sua camiseta pela sua cabeça, expondo seu torso musculoso.
— Vamos — ele disse, fazendo ela perceber como ela devia ter parecia enraizada no lugar. — Você pode nadar naquilo — ele acrescentou, apontando para sua regata seu short cinza. — Eu até te deixarei vencer dessa vez.
Ela riu.
— Contra o quê? Todas aquelas vezes que eu te deixei vencer?
Daniel começou a assentir, então se parou abruptamente.
— Não. Desde que você perdeu na piscina no outro dia.
Por um segundo, Luce teve vontade de dizer a ele por que tinha perdido. Talvez eles pudessem rir sobre todo o mal-entendido da Gabbe-ser-sua-namorada. Mas então os braços de Daniel estavam sobre sua cabeça e ele estava no ar, arqueando e então caindo, mergulhando no lago com um respingo perfeito.
Era uma das coisas mais bonitas que Luce já tinha visto. Ele tinha uma graça como nenhuma outra que ela já tinha testemunhado antes. Até mesmo o respingo que ele fizera deixou um toque adorável em seus ouvidos.
Ela queria estar lá com ele. Tirou seus sapatos e os deixou na margem da magnólia perto de Daniel, então ficou de pé na beirada da pedra. A queda foi a cerca de sete metros, o tipo de mergulho alto que sempre fizera o coração de Luce pular uma batida. De um jeito bom.
Um segundo mais tarde, sua cabeça apareceu acima da superfície. Ele estava sorrindo, mantendo a cabeça acima d’água sem se mover.
— Não me faça mudar de ideia sobre deixar você vencer — ele chamou.
Tomando um fôlego profundo, ela mirou seus dedos sobre a cabeça de Daniel e se empurrou em um alto mergulho de cisne. A queda durou apenas uma fração de segundo, mas era a sensação mais deliciosa, velejar pelo ar ensolarado, para baixo, baixo, baixo.
Splash. A água estava chocantemente fria no começo, então ideal um segundo mais tarde. Luce subiu à superfície para recuperar seu fôlego, deu uma olhada em Daniel, e começou seu nado borboleta.
Ela se impulsionou tão forte que o perdeu. Ela sabia que estava se mostrando e esperava que ele estivesse observando. Ela ficou mais e mais perto até que sua mão bateu na pedra – um instante antes de Daniel.
Ambos arfavam enquanto se rebocavam na superfície chata e aquecida pelo sol. Sua beirada era escorregadia por causa do musgo, e Luce teve dificuldade em se firmar. Daniel não teve problema em escalar a pedra, contudo. Ele se esticou e deu-lhe uma mão, então puxou-a para cima para onde ela podia colocar uma perna sobre a lateral.
Quando ela se suspendeu completamente para fora da água, ele estava deitado de costas, quase seco. Só seu short revelava qualquer indício que ele estivera no lago. Por outro lado, as roupas molhadas de Luce prendiam em seu corpo, e seu cabelo estava pingando por tudo. A maioria dos caras teria agarrado a oportunidade de olhar provocativamente para uma garota pingando, mas Daniel recostou-se na pedra e fechou seus olhos, como se estivesse dando-a um momento para se secar – por bondade ou por falta de interesse.
Bondade, ela decidiu, sabendo que estava sendo irremediavelmente romântico. Mas Daniel parecia tão perceptivo, ele deve ter sentido pelo menos um tiquinho do que Luce sentira. Não só a atração, a necessidade de estar perto dele quando todos ao seu redor estavam dizendo-a para ficar longe, mas aquela sensação muito real de que eles conheciam – realmente conheciam – um ao outro de outro lugar.
Daniel abriu seus olhos num estralar e sorriu – o mesmo sorriso da foto em seu arquivo. Um ataque de déjà vu a engolfou tão completamente que Luce teve que se deitar.
— O quê? — ele perguntou, soando nervoso.
— Nada.
— Luce.
— Não consigo tirar isso da minha cabeça — ela disse, rolando de lado para encará-lo. Ela não se sentia firme o bastante para se sentar ainda. — Essa sensação de que eu te conheço. Que eu te conheço faz tempo.
A água agitou-se contra a pedra, respingando nos dedos dos pés de Luce onde estavam pendurados na beirada. Estava fria e espalhou calafrios até suas panturrilhas. Finalmente, Daniel falou.
— Já não passamos por isso?
Seu tom tinha mudado, como se ele estivesse tentando rir dela. Ele soava como um cara da Dover: satisfeito consigo mesmo, eternamente entediado, presunçoso.
— Estou lisonjeado por você achar que temos essa conexão, sério. Mas você não tem que inventar uma história esquecida para fazer com que um cara preste atenção em você.
Não. Ele achava que ela estava mentindo sobre essa sensação estranha da qual não conseguia se livrar como um jeito de dar em cima dele? Ela cerrou seus dentes, mortificada.
— Por que eu inventaria isso? — ela perguntou, espremendo os olhos na luz do sol.
— Você quem deve me dizer. Não, na verdade, não diga. Não fará bem algum. — Ele suspirou. — Olha, eu devia ter dito isso antes quando eu comecei a ver os sinais.
Luce se sentou. Seu coração começou a acelerar. Daniel via os sinais também.
— Eu sei que te dei um fora no ginásio antes — ele disse lentamente, fazendo com que Luce se inclinasse para frente, como se ela pudesse extrair as palavras mais rapidamente. — Eu devia simplesmente ter te contado a verdade.
Luce esperou.
— Uma garota me magoou. — Ele balançou uma mão na água, arrancou uma folha de nenúfar, e a despedaçou em suas mãos. — Alguém que eu realmente amava, não há muito tempo. Não é nada pessoal, e eu não quero te ignorar.
Ele olhou para ela e o sol foi filtrado por uma gota de água em seu cabelo, fazendo-o brilhar.
— Mas eu também não quero que você tenha esperanças. Eu simplesmente não estou querendo me envolver com ninguém, não tão cedo.
Oh.
Ela desviou o olhar, para a água parada e azul-escura onde apenas minutos atrás eles estiveram rindo e respingando água. O lago não mostrava mais sinais daquela diversão. Assim como o rosto de Daniel.
Bem, Luce tinha sido magoada também. Talvez se ela contasse a ele sobre Trevor e como tudo tinha sido horrível, Daniel se abriria sobre seu passado. Mas, também, ela já sabia que não conseguia suportar escutar sobre o passado dele com outra pessoa. Pensar nele com outra garota – ela imaginou Gabbe, Molly, uma montagem de rostos sorridentes, olhos grandes, cabelos compridos – era o bastante para fazê-la se sentir nauseada. Sua história de término ruim deveria ter justificado tudo. Mas não justificava. Daniel fora tão estranho com ela desde o começo. Mostrando-lhe o dedo do meio um dia, antes mesmo deles terem sido apresentados, então protegendo-a da estátua no cemitério no seguinte. Agora ele tinha trazido ela aqui no lago – sozinha. Ele era uma bagunça só.
A cabeça de Daniel estava abaixada, mas seus olhos estavam encarando-a.
— Não é uma resposta boa o bastante? — ele perguntou, quase como se soubesse o que ela estava pensando.
— Eu ainda sinto como se houvesse algo que você não está me contando.
Tudo isso não podia ser explicado por um coração quebrado, Luce sabia. Ela tinha experiência nesse departamento.
As costas dele estavam voltadas para ela e ele olhava na direção do caminho que eles tinham tomado até o lago.
Após um instante, ele riu amargamente.
— É claro que há coisas que eu não estou te contando. Eu mal te conheço. Não tenho certeza do por que você achar que eu te devo alguma coisa.
Ele ficou de pé.
— Onde está indo?
— Tenho que voltar.
— Não vá — Luce sussurrou, mas ele não pareceu ouvir.
Ela observou, o peito pesando, enquanto Daniel mergulhava na água. Ele ergueu-se distante e começou a nadar na direção da costa. Ele olhou de volta para ela uma vez, perto da metade e deu-lhe um aceno de adeus definitivo.
Então seu coração inchou enquanto ele circulou seus braços sobre sua cabeça num nado borboleta perfeito. Por mais vazia que ela se sentisse por dentro, ela não conseguia evitar admirar isso. Tão puro, tão fácil, mal parecia com natação.
Rapidamente ele alcançara a costa, tornando a distância entre eles parecer muito menor do que parecera para Luce. Ele parecera tão calmo enquanto nadava, mas não havia jeito de ele poder ter alcançado o outro lado tão rapidamente a não ser que ele realmente estivesse voando sob a água.
Era tão urgente para ele se afastar dela?
Ela observou – sentindo uma mistura confusa de envergonhamento profundo e até mesmo uma tentação mais profunda – enquanto Daniel se suspendia de volta na costa. Uma coluna de luz do sol apareceu através das árvores e enquadrou sua silhueta com uma radiação brilhante, e Luce teve que espremer os olhos à visão perante seus olhos.
Ela se perguntou se a bola de futebol na sua cabeça tinha sacudido sua visão. Ou se o que ela achou que estava vendo era uma miragem. Um truque da luz do sol da tarde. Ela ficou de pé na pedra para dar uma olhada melhor.
Tudo que ele estava fazendo era chacoalhar a água de sua cabeça molhada, mas uma camada de gotículas parecia pairar sobre ele, do lado de fora dele, desafiando a gravidade em uma amplitude ampla ao longo de seus braços.
Do jeito que a água brilhava na luz solar, quase parecia que ele tinha asas.
CAPITULO 9: ESTADO DE INCONSCIÊNCIA
CAPITULO 9: ESTADO DE INCONSCIÊNCIA
Na noite de segunda, a Senhorita Sophia ficou de pé atrás de um pódio na frente de uma das maiores salas em Augustine, tentando fazer marionetes de sombra com suas mãos. Ela tinha convocado uma sessão de estudo de última hora para os alunos em sua aula de religião antes do exame do dia seguinte, e já que Luce já tinha perdido um mês inteiro de aula, ela achou que tinha muito o que recuperar.
O que explicava porque ela era a única ao menos fingindo tomar notas. Nenhum dos outros alunos nem ao menos notou que o sol da tarde entrando suavemente pelas estreitas janelas ocidentais estava debilitando o palco caseiro de negatoscópio da Senhorita Sophia. E Luce não quis chamar atenção para o fato de ela estar prestando atenção ao ficar de pé para puxar as persianas poeirentas.
Quando o sol roçou a nuca de Luce, ela se deu conta de quanto tempo estivera sentada nessa sala. Ela tinha observado o brilho do sol nascente brilhar na juba do cabelo diminuto do Sr. Cole naquela manhã durante história mundial. Tinha sofrido o calor sufocante do meio da tarde durante biologia com a Albatroz. Era quase noite agora. O sol tinha curvado o campus inteiro, e Luce mal tinha deixado sua mesa. Seu corpo parecia tão duro quanto a cadeira de metal em que estivera sentada, sua mente tão opaca quanto o lápis com o qual desistira de tomar notas.
Qual era a dessas marionetes de sombra? Ela e outros estudantes tinham, tipo, cinco anos? Mas então ela se sentiu culpada. De todo o corpo docente aqui, a Senhorita Sophia era de longe a mais boazinha, até mesmo gentilmente chamando Luce de lado outro dia para discutir como ela estava atrasada em sua escrita no trabalho da árvore genealógica. Luce teve que fingir uma gratidão impressionante quando a Senhorita Sophia a acompanhou por uma hora de instruções de base de dados mais uma vez.
Ela se sentiu um pouco envergonhada, mas se fingir de burra era muito mais superior a admitir que estivera ocupada demais ficando obcecada com um certo colega para devotar qualquer tempo a sua pesquisa.
Agora a Senhorita Sophia estava de pé com seu longo vestido preto de musselina, entrelaçando elegantemente seus dedões e levantando suas mãos no ar, preparando-se para sua próxima pose.
Do lado de fora da janela, uma nuvem passou pelo sol. Luce voltou a prestar atenção na aula quando notou que havia repentinamente uma sombra real visível na parede atrás da Senhorita Sophia.
— Como todos vocês se lembram da leitura de Paraíso Perdido ano passado, quando Deus deu a seus anjos vontade própria — a Senhorita Sophia disse, respirando no microfone preso em sua lapela de marfim e batendo seus dedos finos como asas de anjo perfeitas — houve um que cruzou a linha.
A voz da Senhorita Sophia caiu dramaticamente, e Luce assistiu enquanto ela retorcia seus dedos indicadores para que as asas do anjo se transformassem em chifres de diabo.
Atrás de Luce, alguém resmungou:
— Grande coisa, esse é o truque mais velho do mundo.
No instante em que a Senhorita Sophia acabou sua aula, parecia que pelo menos uma pessoa na sala discordou de cada palavra que saiu da sua boca.
Talvez fosse porque Luce não tivera uma criação religiosa como o resto deles, ou talvez fosse porque ela sentia pena da Senhorita Sophia, mas ela sentiu uma vontade crescente de se virar e calar os interferentes.
Ela estava mal-humorada. Cansada. Faminta. Ao invés de ir para a fila para jantar com o resto da escola, os vinte estudantes matriculados na aula de religião da Senhorita Sophia foram informados que se estivessem atendendo uma sessão de estudos “opcional” – um triste nome impróprio, Penn a informou – sua refeição seria servida na sala de aula onde a sessão seria realizada, para poupar tempo.
A refeição – não um jantar, nem mesmo um lanche, só algo genérico para encher o estômago no fim da tarde – fora uma experiência estranha para Luce, que tinha bastante dificuldade em achar algo que pudesse comer na lanchonete lotada de carne. Randy tinha acabado de rolar um carrinho de sanduíches deprimentes e alguns jarros de água morna.
Os sanduíches eram todos de frios misteriosos cortados, maionese e queijo, e Luce tinha observado invejosamente enquanto Penn mastigava um atrás do outro, deixando anéis de marcas de dente na crosta enquanto comia. Luce estivera a beira de desbolonhesar um sanduíche quando Cam se aproximou dela. Ele abriu seu punho para expor uma pequena penca de figos frescos.
As frutas roxo-escuras pareciam pedras preciosas na mão dele.
— O que é isso? — ela perguntara, suprindo um sorriso.
— Não pode viver só de pão, pode? — ele tinha dito.
— Não coma isso.
Gabbe tinha aparecido, pegando os figos dos dedos de Luce e os jogando na lixeira. Ela tinha interrompido outra conversa privada e substituído o espaço vazio na palma de Luce com um punhado de M&M's de amendoim de um saco de uma máquina de venda. Gabbe usava uma faixa da cor do arco-íris. Luce imaginou arrancar o negócio de sua cabeça e arremessá-lo na lixeira.
— Ela está certa, Luce — Ariane tinha aparecido, olhando feio para Cam. — Quem sabe com o que ele drogou isso?
Luce tinha rido, porque, é claro que Ariane estava brincando, mas quando ninguém mais sorriu, ela se calou e deslizou os M&M’s em seu bolso bem quando a Senhorita Sophia falou para que todos tomassem seus assentos.
O que pareceu como horas mais tarde, eles todos ainda estavam presos na sala de aula e a Senhorita Sophia só tinha ido do Despontar da Criação até a Guerra no Paraíso. Eles não estavam nem ao menos em Adão e Eva. O estômago de Luce roncou em protesto.
— E todos sabemos quem era o anjo malvado que batalhou contra Deus? — a Senhorita Sophia perguntou, como se estivesse lendo um livro de figuras para um bando de crianças na biblioteca.
Luce meio que esperava que a sala gritasse Sim, Senhorita Sophia.
— Alguém? — a Senhorita Sophia perguntou novamente.
— Roland! — Ariane vaiou baixinho.
— Isso mesmo — a Senhorita Sophia disse, a cabeça balançando em um aceno santo. Ela simplesmente tinha dificuldades auditivas. — Nós o chamamos de Satã agora, mas durante os anos ele teve diversas aparências – Mefistófeles, ou Beliel, até Lúcifer para alguns.
Molly, que estivera sentada na frente de Luce, balançando a parte de trás de sua cadeira contra a mesa de Luce pela última hora com o propósito expresso de enlouquecer Luce, prontamente derrubou um pedaço de papel sobre seu ombro na mesa de Luce.
Luce... Lúcifer... alguma relação?
Sua caligrafia era obscura, nervosa e frenética. Luce conseguiu ver suas maçãs do rosto levantarem em desprezo. Em um momento de fraqueza faminta, Luce começou a rabiscar furiosamente uma resposta atrás do bilhete de Molly. Que ela fora nomeada em homenagem à Lucinda Williams, a melhor cantora-compositora viva cujo show que quase virara um dilúvio fora o local do primeiro encontro de seus pais. Que após sua mãe ter escorregado em um copo plástico, caído em um deslizamento, e aportado nos braços de seu pai, ela não tinha deixado aqueles braços por vinte anos. Que seu nome significava algo romântico e o que a bocuda da Molly tinha a mostrar por si só? E de qualquer jeito, que se houvesse alguém nessa escola inteira que chegava perto de parecer com Satã, não era o destinatário do bilhete, era o remetente.
Seus olhos furaram a nuca do corte joãozinho recém pintado de escarlate de Molly. Luce estava pronta a atirar nela o pedaço dobrado de papel e se arriscar com o temperamento de Molly quando a Senhorita Sophia atraiu sua atenção para as sombras.
Ela estava com ambas as mãos erguidas sobre sua cabeça, as palmas para cima e vertendo o ar. Enquanto ela as abaixava, as sombras de seus dedos na parede pareciam milagrosamente como braços e pernas descontrolados, como alguém pulando de uma ponte ou de um prédio. A visão era tão bizarra, tão obscura e, ainda assim, tão bem feita, que enervou Luce. Ela não conseguia desviar o olhar.
— Por nove dias e nove noites — a Senhorita Sophia explicou — Satã e seus anjos caíram, cada vez mais longe do Paraíso.
Suas palavras refrescaram algo na memória de Luce. Ela olhou até duas fileiras para Daniel, que encontrou seus olhos por meio segundo antes de enterrar seu rosto em seu caderno. Mas aquela segunda olhada fora o bastante, e de uma só vez voltou para ela: o sonho que ela tivera na noite anterior.
Fora uma história revisada dela e Daniel no lago. Mas no sonho, quando Daniel disse adeus e mergulhou de volta na água, Luce teve a coragem de ir atrás dele. A água estava quente, tão confortável que ela nem mesmo se sentira molhada, e cardumes de peixes violeta abundou ao redor dela. Ela estava nadando o mais rápido que podia, e de primeira ela pensou que os peixes estavam ajudando-a a ir na direção de Daniel e da costa. Mas logo as massas de peixes começaram a obscurecer e nublar sua visão, e ela não conseguiu mais vê-lo. Os peixes ficaram com uma aparência indistinta e maligna, e ficaram cada vez mais perto, até que ela não conseguisse ver mais nada, e ela se sentiu afundar, escapulindo dele, até as profundezas lodosas do lago.
Não era uma questão de não ser capaz de respirar, era uma questão de nunca ser capaz de emergir novamente. Era uma questão de perder Daniel para sempre. Então, de baixo, Daniel aparecera, seus braços abertos como remos. Eles dispersaram os peixes obscurecidos e envolveram Luce, e juntos os dois planaram na superfície. Eles romperam a água, cada vez mais alto, passando a pedra e a árvore de magnólia onde tinham deixado seus sapatos. Um segundo mais tarde, eles estavam tão no alto que Luce nem conseguia ver o chão.
— E eles pousaram — a Senhorita Sophia disse, descansando suas mãos no pódio — no buraco flamejante do Inferno.
Luce fechou seus olhos e exalou. Fora apenas um sonho. Infelizmente, essa era sua realidade.
Ela suspirou e descansou seu queixo em suas mãos, lembrando de sua resposta esquecida do bilhete de Molly. Estava dobrado em suas mãos. Agora parecia estúpido e imprudente. Melhor não responder, para que Molly não soubesse que tinha afetado Luce.
Um avião de papel descansou em seu antebraço esquerdo. Ela olhou distante para o canto esquerdo da sala, onde Ariane estava sentada segurando uma pose exagerada piscando os olhos.
Presumo que não esteja sonhando acordada com Satã. Para onde você e o DG se escafederam na tarde de sábado?
Luce não tivera uma chance de falar com Ariane sozinha o dia todo. Mas como Ariane saberia que Luce saiu com Daniel? Enquanto a Senhorita Sophia se ocupava com uma marionete de sombra focada na representação dos nove círculos do Inferno, Luce observou Ariane fazer voar outro avião perfeitamente direcionado em sua mesa. Assim como Molly.
Ela o alcançou bem a tempo de capturar o avião entre suas escorregadias unhas pintadas de preto, mas Luce não ia deixar ela ganhar essa. Ela pegou o avião de volta do aperto de Molly, rasgando suas asas ruidosamente na metade. Luce teve exatamente tempo o bastante para guardar no bolso o bilhete rasgado antes que a Senhorita Sophia virasse.
— Lucinda e Molly — ela falou, franzindo seus lábios e firmando suas mãos no pódio. — Eu esperaria que o que quer que vocês duas tenham a necessidade de discutir passando bilhetes desrespeitosamente pode ser dito perante a turma toda.
A mente de Luce acelerou. Se ela não bolasse nada rápido, Molly bolaria, e não haveria como dizer o quanto isso seria envergonhante.
— M-Molly estava simplesmente dizendo — Luce gaguejou — que ela discorda com a sua visão de como o Inferno foi destruído. Ela tem suas próprias ideias.
— Bem, Molly, se você tem um esquema alternativo do submundo, eu certamente gostaria de ouvi-lo.
— Que diabos — Molly resmungou baixinho. Ela limpou sua garganta e levantou-se. — Bem, você descreveu a desembocadura de Lúcifer como o lugar mais baixo do inferno, que é por que todos os traidores acabam lá. Mas para mim — ela falou, como se tivesse ensaiado as falas — eu acho que o lugar mais torturante no Inferno — ela deu uma longa e envolvente olhada em Luce — deveria ser reservado não para traidores, mas para covardes. Os perdedores mais fracos, mais alquebrados. Porque me parece que, traidores? Pelo menos eles fazem uma escolha. Mas os covardes? Eles simplesmente correm por aí roendo suas unhas, totalmente assustados em fazer qualquer coisa. O que é totalmente pior. — Ela tossiu — Lucinda! — e limpou sua garganta. — Mas essa é só a minha opinião.
Ela se sentou.
— Obrigada, Molly — a Senhorita Sophia disse cuidadosamente — estou certa que todos nos sentimos muito esclarecidos.
Luce não se sentia. Ela tinha parado de escutar na metade do desvairo de Molly, quando teve uma sensação estranha e doentia no fundo de seu estômago.
As sombras. Ela as sentiu antes de as ver, borbulhando como piche do chão. Um tentáculo de escuridão curvou-se ao redor de seu punho, e Luce olhou para baixo em horror. Estava tentando escapar até seu bolso. Estava querendo o avião de papel de Ariane. Ela nem tinha lido-o ainda!
Ela fechou seu punho profundamente em seu bolso e usou dois dedos e toda sua força de vontade para beliscar a sombra o mais forte que pode.
Uma coisa incrível aconteceu: A sombra recolheu-se, recuando como um cachorro machucado. Fora a primeira vez que Luce fora capaz de fazer isso.
Do outro lado da sala, ela encontrou os olhos de Ariane. A cabeça de Ariane estava inclinada de lado e sua boca estava aberta.
O bilhete – ela deveria estar esperando que Luce lesse o bilhete.
A Senhorita Sophia apagou o negatoscópio.
— Eu acho que a minha artrite teve o bastante do Inferno por uma noite. — Ela deu risada, encorajando os estudantes, com seus cérebros adormecidos, a dar risada com ela. — Se vocês todos relerem os ensaios críticos que eu determinei sobre Paraíso Perdido, acho que estarão mais do que preparados para o teste de amanhã.
Enquanto os outros estudantes se apressavam para pegar suas mochilas e cair fora da sala, Luce desdobrou o bilhete de Ariane:
Diga que ele não te deu aquela desculpa esfarrapada de “ter sido magoado antes”.
Ai. Ela definitivamente precisava falar com Ariane e descobrir exatamente o que ela sabia sobre Daniel. Mas antes...
Ele estava diante dela. A fivela prata de seu cinto brilhou ao nível dos olhos. Ela tomou um longo fôlego e olhou para seu rosto.
Os olhos cinzentos manchados de violeta de Daniel pareciam descansados. Ela não falara com ele por dois dias, desde que ele a deixara no lago. Era como se o tempo que ele passara longe dela tive rejuvenescido ele.
Luce percebeu que ela ainda tinha o bilhete revelador de Ariane aberto em sua mesa. Ela engoliu em seco e o guardou de volta em seu bolso.
— Eu queria me desculpar por ter ido tão repentinamente no outro dia — Daniel disse, soando estranhamente formal.
Luce não sabia se ela devia aceitar suas desculpas, mas ele não lhe deu tempo de responder.
— Suponho que você voltou bem para a terra firme?
Ela tentou um sorriso. Passou por sua mente contar a Daniel sobre o sonho que ela tivera, mas felizmente ela percebeu que seria totalmente estranho.
— O que você achou da sessão de revisão? — Daniel parecia fechado, duro, como se eles nunca tivessem se falado antes.
Talvez ele estivesse brincando.
— Foi uma tortura — Luce respondeu.
Sempre aborrecera Luce quando garotas espertas fingiam que não gostavam de algo só porque assumiam que era isso que um cara gostaria de ouvir. Mas Luce não estava fingindo; realmente fora uma tortura.
— Que bom — Daniel disse, parecendo satisfeito.
— Você odiou também?
— Não — ele respondeu enigmaticamente, e Luce agora desejara ter mentido para soar mais interessada do que realmente estava.
— Então... você gostou — ela disse, querendo dizer algo, qualquer coisa para mantê-lo perto dela, falando. — O que você gostou exatamente?
— Talvez gostar não seja a palavra certa. — Após uma longa pausa, ele continuou — está na minha família... estudar essas coisas. Eu acho que não consigo evitar sentir uma conexão.
Levou um momento para que as palavras dele fossem registradas por completo por Luce. Sua mente viajou para o velho porão de armazenamento mofado onde ela tinha relampejado o arquivo de página única de Daniel. O arquivo que alegava que Daniel Grigori tinha passado a maior parte de sua vida no Orfanato do Condado de Los Angeles.
— Eu não sabia que você tinha família — ela disse.
— Por que saberia? — Daniel zombou.
— Eu não sei... Então, quero dizer, você tem?
— A pergunta é por que você assumiria saber qualquer coisa sobre a minha família – ou sobre mim?
Luce sentiu seu estômago despencar. Ela viu Aviso: Alerta de Perseguidora relampejar nos olhos alarmados de Daniel. E ela sabia que tinha estragado as coisas com ele mais uma vez.
— D.
Roland chegou por trás deles e colocou sua mão no ombro coberto por uma camiseta de Daniel.
— Quer ficar por aí para ver se tem outra aula de um ano, ou vamos partir?
— É — Daniel disse suavemente, dando um olhar lateral final para Luce. — Vamos cair fora daqui.
É claro – obviamente – ela devia ter escapulido diversos minutos atrás. Tipo ao primeiro instinto de divulgar quaisquer detalhes do arquivo de Daniel. Uma pessoa inteligente e normal teria esquivado-se da conversa, ou mudado o assunto para algo muito menos bizarro, ou, no mínimo, mantido sua boca enorme fechada.
Luce, porém, estava provando dias após dia que – especialmente quando se tratava do Daniel – ela era incapaz de fazer qualquer coisa que estivesse na categoria de “normal” ou “inteligente.”
Ela observara enquanto Daniel afastava-se com Roland. Ele não olhou de volta, e cada passo que ele dava para longe dela a fazia se sentir mais e mais bizarramente sozinha.CAPITULO 10: ONDE HÁ FUMAÇA
O que você está esperando? — Penn perguntou apenas um segundo depois que Daniel saiu com Roland. — Vamos.
Ela puxou a mão de Luce.
— Para onde? — perguntou Luce.
Seu coração continuava batendo forte pela conversa com Daniel – e da visão dele se afastando. A forma em que seus esculpidos ombros cortavam o corredor fazia parecer maior do que o próprio Daniel.
Penn bateu levemente em um lado da cabeça de Luce.
— Oi? Para a biblioteca, como eu disse a você em meu bilhete... — ela captou a expressão em branco de Luce. — Você não recebeu nenhum dos meus bilhetes? — Ela bateu a perna, frustada. — Mas eu entreguei a Todd para passar ao Cam, para passar pra você.
— Correeeeio.
Cam se meteu na frente de Penn e apresentou a Luce dois pedaços de papel dobrado colocados entre o indicador e o dedo médio.
— Me dê um descanso. Teu cavalo morreu de esgotamento no caminho? — Penn bufou, recolhendo os bilhetes. — Eu te dei estes faz uma hora. Por que levou tanto tempo? Você não os leu...
— Claro que não — Cam levou uma mão a seu peito largo, ofendido. Ele usava um grosso anel preto em seu dedo médio. — Se você recorda, Luce se meteu em problemas por trocar bilhetes com Molly...
— Eu não estava trocando bilhetes com Molly...
— Não me importa — disse Cam, pegando os bilhetes da mão de Penn e entregando-os finalmente a Luce. — Eu só estava olhando por seus interesses. Esperando a oportunidade certa.
— Bem, obrigada — Luce meteu os bilhetes em seu bolso e deu de ombros para Penn como se dissesse “tanto faz.”
— Falando de esperar o momento certo — ele continuou. — Eu estava fora no outro dia e vi isto.
Ele tirou uma pequena caixa de jóias de veludo vermelho e o manteve aberto para que Luce visse. Penn deu um puxão no ombro de Luce com a intenção de dar uma olhada.
Dentro, uma fina corrente de ouro que envolvia um pequeno pingente circular com uma linha esculpida no centro e uma pequena cabeça de serpente na ponta.
Luce olhou para ele. Estava brincando com ela?
Ele tocou no pingente.
— Pensei que, depois do outro dia... queria te ajudar a enfrentar seu medo — ele disse em um tom quase nervoso, com medo de que ela não fosse aceitar.
Ela deveria aceitá-lo?
— Só uma brincadeira. Eu gostei. É único, me lembrou você.
Era único. E muito lindo, e isso fez Luce se sentir estranhamente indigna.
— Você foi às compras? — Luce se encontrou perguntando, porque era mais fácil falar de como Cam havia deixado o campus do que estar se perguntando Por que eu? — Pensei que uma das normas da escola é que estamos todos presos aqui.
Cam levantou o queixo ligeiramente e sorriu com os olhos.
— Há maneiras — disse em voz baixa. — Eu te mostrarei um dia. Poderia te mostrar... esta noite?
— Cam, querido — disse uma voz atrás dele.
Era Gabbe, batendo-lhe no ombro. Uma parte fina da frente de seu cabelo era uma trança francesa e presa até atrás de sua orelha, como uma perfeita pequena bandana. Luce a olhou com ciúmes.
— Preciso de sua ajuda com os preparativos — Gabbe ronronou.
Luce olhou ao seu redor e percebeu que eram as únicas quatro pessoas que ficaram na sala de aula.
— Vou dar uma pequena festa em meu quarto mais tarde — Gabbe anunciou, apertando o queixo no ombro de Cam para dirigir-se a Luce e a Penn. — E todos estão indo, certo?
Gabbe, cuja boca parecia sempre pegajosa pelo brilho labial, cujo os cabelos loiros nunca paravam de deixar sua marca no segundo que um cara começava a falar com Luce. Mesmo que Daniel tenha dito que não havia nada entre eles, Luce sabia que ela nunca iria ser amiga dessa garota.
Então outra vez, você não tem que gostar de alguém para ir a sua festa, especialmente quando certamente outra pessoa que você gosta, provavelmente vai está lá... Ou ela deveria aceitar a oferta de Cam? Ele estava realmente sugerindo que eles escapassem?
Só ontem, um rumor tinha voado por toda a classe quando Jules e Phillip, o casal língua furada, não apareceram para a aula da Srta. Sophia. Aparentemente, eles tinham tentado sair do campus no meio da noite, para um encontro secreto que saiu errado – e agora estavam em algum tipo de confinamento solitário, cuja localização ainda não era conhecida por Penn.
O mais estranho de tudo foi a Srta. Sophia – que geralmente não tolera os sussurros – não calou os estudantes que fofocavam loucamente durante a aula. Era quase como se quisesse que os estudantes imaginassem o pior castigo possível por quebrar alguma de suas regras ditatoriais.
Luce engoliu em seco, olhando para Cam. Ele ofereceu seu cotovelo, ignorando inteiramente Gabbe e Penn.
— O que me diz, garota? — ele perguntou, soando tão encantadoramente um clássico de Hollywood que Luce se esqueceu de tudo o que tinha acontecido a Jules e a Phillip.
— Desculpe — Penn interrompeu, respondendo a ambos e afastando Luce do cotovelo dele. — Mas nós temos outros planos.
Cam olhou para Penn como se estivesse tentando descobrir de onde ela tinha vindo tão repentinamente. Ele fazia Luce se sentir como uma versão melhor, mais calma, de si mesma. E tinha uma maneira de cruzar em seu caminho no momento certo depois que Daniel a tinha feito se sentir exatamente o oposto. Mas Gabbe ainda continuava flutuando ao lado dele, e o aperto de Penn era cada vez mais forte, então finalmente Luce só agitou a mão que ainda estava segurando Cam.
— Hum, talvez da próxima vez! Obrigada pelo colar.
Deixando Cam e Gabbe confusos na sala atrás delas, Penn e Luce saíram de Agustine. Era assustador estar sozinha no escuro edifício tão tarde, e Luce podia dizer pelos ruído apressador das sandálias de Penn nas escadas que ela sentia o mesmo também.
Do lado de fora, havia vento. Uma coruja cantava em sua pequena palmeira. Quando elas passaram sob os carvalhos ao lado do edifício, ganchos desordenados de musgos espanhol tocaram-nas como emaranhados de fios de cabelos.
— Talvez na próxima vez? — Penn imitou a voz de Luce. — O que foi isso?
— Nada... eu não sei — Luce queria mudar de assunto. — Você fez um som muito elegante, Penn — ela disse, rindo enquanto caminhava ao longo do pátio.
— Outros planos... pensei que você se divertiu na festa da semana passada.
— Se você alguma vez andou lendo minha última correspondência, verá por que temos coisas mais importantes em nosso prato.
Luce esvaziou seus bolsos, descobrindo cinco M&M’s não-consumidos, e compartilhando-os com Penn, que fez uma expressão muito Penn – como dizendo que esperava que viessem de um lugar limpo, mas os comeu de todo jeito.
Luce abriu o primeiro bilhete de Penn, no qual parecia uma cópia da página de um dos arquivos da sala de arquivos subterrâneo:
Gabrielle Givens
Cameron Briel
Lucinda Prince
Todd Hammond
LOCALIZAÇÕES ANTERIORES: Todos no Nordeste, com exceção de T. Hammond (Orlando, Flórida)
Ariane Alter
Daniel Grigori
Mary Margaret Zane
LOCALIZAÇÕES ANTERIORES: Los Angeles, Califórnia
O grupo de Lucinda foi anotado que chegou em Sword & Cross em 15 de setembro deste ano. O segundo grupo tinha chegado em 15 de março, três anos antes.
— Quem é Mary Margaret Zane? — Luce perguntou, apontando.
— Apenas a muito virtuosa Molly — Penn respondeu.
— O nome de Molly é Mary Margaret? Não é de se estranhar que é tão irritada com o mundo — Luce comentou. — Então, onde você consegue tudo isso?
— Peguei de uma das caixas que a Srta. Sophia derrubou no outro dia — disse Penn. — É a letra da Srta. Sophia.
Luce olhou pra ela.
— O que isso significa? Por que ela tinha a necessidade de guardar isso? Pensava que eles tinham todas as nossas fichas de chegada separadas em nossos arquivos.
— Eles tem. Não consigo entender isso também — Penn respondeu. — E eu quero dizer, que embora você se apresentasse ao mesmo tempo que os outros garotos, não é como se você tivesse algo em comum com eles.
— Eu não poderia ter menos em comum com eles — Luce disse, prevendo o olhar recatado de Gabbe sempre colado ao seu rosto.
Penn coçou o queixo.
— Mas quando Ariane, Molly e Daniel apareceram, eles já se conheciam. Creio que eram do mesmo Centro de Recuperação em Los Angeles.
Em algum lugar existia uma chave para a história de Daniel. Tinha que ser para ele algo mais que um Centro de Recuperação na Califórnia. Mas pensando em como seria sua reação – que desaparecesse ao horror que Luce poderia ter o interesse de saber algo sobre ele – bem, a fez sentir que tudo o que ela e Penn estavam fazendo era inútil e imaturo.
— Qual é o ponto de tudo isso? — Luce perguntou, de repente irritada.
— Não posso imaginar por que a Srta. Sophia estaria conferindo toda essa informação. Embora a Srta Sophia tenha chegado a Sword & Cross o mesmo dia que Ariane, Daniel e Molly... — a voz de Penn abaixou. — Quem sabe? Talvez isso não signifique nada. Aqui mencionam só um pouco de Daniel nos arquivos, imaginei que deveria te mostrava tudo o que encontrasse. Por tanto, bilhete B.
Ela apontou para o segundo bilhete na mão de Luce.
Luce suspirou. Parte dela queria deixar a busca e parar de se sentir envergonhada sobre Daniel. Outra parte insistente dela ainda ansiava por conhecê-lo melhor... o qual, estranhamente, era muito mais fácil de fazer quando ele não estava tecnicamente presente para lhe dar novos motivos para sentir-se envergonhada.
Ela olhou para o bilhete, uma cópia de um cartão antigo da biblioteca.
Grigori, D. Os Observadores: Mito Medieval
Europa. Seraphim Press, Roma, 1755.
Número de Identificação: R999.318 CR1
— Parece que um dos antepassados de Daniel foi um estudioso — Penn falou, lendo por cima do ombro de Luce.
— Isso deve ter sido o que ele quis dizer — Luce disse em voz baixa. Olhou para Penn — ele me disse que o estudo da religião estava em sua família. Isto deve ser o que ele quis dizer.
— Pensei que ele era órfão...
— Não pergunte — Luce disse, agitando sua mão. — É um tema delicado para ele — ela passou o dedo sobre o título do livro. — O que um observador?
— Só há uma maneira de descobrir. Embora possamos viver para lamentar. Porque isto possivelmente parece com o livro mais chato de todos. No entanto — ela acrescentou, batendo seus dedos em sua camisa. — Tomei a liberdade de checar o catálogo. O livro deve estar nas estantes. Você pode me agradecer mais tarde.
— Você é boa.
Luce sorriu. Estava ansiosa por chegar à biblioteca. Se alguém na família de Daniel tinha escrito um livro, não poderia ser chato. Ou não para Luce, de qualquer modo. Mas então ela olhou outra coisa que tinha em sua mãos. A caixa aveluda de jóias de Cam.
— O que você acha que isso significa? — ela perguntou a Penn, enquanto começava a caminhar até o mosaico de azulejos das escadas da biblioteca.
Penn deu de ombros.
— Seus sentimentos sobre as serpentes são...
— O ódio, a agonia, a paranoia extrema e o desgosto — Luce listou.
— Talvez seja como... ok, eu costumava ter medo de cactos. Não podia nem me aproximar deles... não ria, alguma vez foi picada por uma dessas coisas? Permanecem em sua pele durante vários dias. Mesmo assim, um ano, no meu aniversário, meu pai me presenteou com onze vasinhos de cactos. A principio eu queria desfazer-me delas. Mas então, você sabe, me acostumei com elas. Deixei de dar a volta a cada momento que eu estava próximo de um. No final, superei totalmente.
— Então você está me dizendo que o presente de Cam é na verdade muito suave.
— Eu acho — disse Penn. — Mas se eu soubesse que ele estava louco por ti, eu não teria confiado nossa correspondência particular a ele. Desculpe por isso.
— Ele não está louco por mim — Luce começou a dizer, tocando o pingente de ouro dentro da caixa, imaginando como seria o aspecto contra sua pele, ela não tinha contado nada a Penn sobre seu dia de campo com Cam, porque – bem, ela realmente não sabia o por que. Isto tinha haver com Daniel, e como Luce ainda não sabia se queria estar ou não estar – com qualquer um deles.
— Há — Penn falou. — O que significa que você gosta um pouco dele! Traindo Daniel. Eu não posso continuar com você e seus homens.
— Como se estivesse acontecendo algo com qualquer um deles — Luce falou com tristeza. — Acha que Cam leu os bilhetes?
— Se ele fez isso e ainda te deu esse colar, então ele realmente gosta de você.
Elas entraram na biblioteca e as pesadas portas duplas deram um golpe surdo atrás delas. O som resoou na sala. A Srta. Sophia levantou a vista das montanhas de papéis que cobriam sua mesa à fraca luz.
— Oh, oi, garotas — ela cumprimentou, sorrindo de maneira tão ampla que Luce se sentia culpada de novo pela bagunça que aconteceu durante sua aula. — Espero que tenham desfrutado de minha breve sessão de estudos.
— Muito — Luce assentiu com a cabeça, embora não tenha escrito nada a respeito. — Nós viemos aqui para revisar algumas coisas antes do exame.
— Isso mesmo — interveio Penn. — Você nos inspirou.
— Que maravilhoso! — Sussurrou Srta. Sophia através de sua papelada. — Tenho uma nova lista de leitura em alguma parte. Ficarei feliz em fazer uma cópia.
— Genial — mentiu Penn, dando a Luce um pequeno empurrão até as estantes. — Nós a deixaremos saber se precisarmos.
Do outro lado da mesa da Srta. Sophia, a biblioteca estava em silêncio. Luce e Penn seguiam olhando os números de identificação enquanto passavam de estante em estante até os livros de religião. As lâmpadas que poupavam energia detectavam o movimento e se acendiam a cada vez que cruzavam um corredor, mas só a metade delas funcionavam. Luce percebeu que Penn ainda segurava seu braço, e então percebeu que não queria que ela soltasse.
As garotas chegaram a sessão de estudos que em geral estava lotada, onde só tinha uma lâmpada de mesa queimada. Todo mundo devia estar na festa de Gabbe. Todo mundo exceto Todd. Ele tinha os pés levantados na cadeira em frente a ele e parecia estar lendo um atlas mundial do tamanho de uma mesa de café. Quando as garotas caminhavam até ele, ele as olhou com uma expressão que queria dizer que ou estava muito bem sozinho ou ligeiramente irritado por ter sido perturbado.
— Vocês, garotas, estão atrasadas — disse categoricamente.
— Assim como você — replicou Penn, mostrando a língua dramaticamente.
Quando tinham posto algumas estantes entre elas e Todd, Luce arqueou uma sobrancelha a Penn.
— O que foi isso?
— O quê? Ele paquera comigo.
Ela cruzou os braços sobre peito e soprou um cacho de seu cabelo marrom dos olhos.
— Como assim? Você está na quarta série? — Luce brincou.
Penn levantou o dedo indicador para Luce com uma intensidade que teria feito Luce saltar se ela não estivesse rindo muito.
— Você conhece mais alguém que quer mergulhar na história da família de Daniel Grigori com você? Acho que não. Deixe-me em paz.
Até então, tinham chegado ao canto traseiro da biblioteca, onde todos os 999 livros se organizavam ao longo de uma única estante de cor metal. Penn se agachou e traçou a lombada dos livros com seus dedos, Luce sentiu um tremor, como se alguém percorresse um dedo pelo seu pescoço. Ela esticou a cabeça ao redor e viu uma nuvem de fumaça cinza. Não negra, como eram as sombras em geral, senão mais leve, mas fina. Mas igualmente indesejada.
Ela observou com os olhos arregalados, com a sombra estendida em um longo traço diretamente sobre a cabeça de Penn. Desceu lentamente, como uma agulha enfiada e Luce não queria pensar no que poderia acontecer se tocasse em sua amiga. No outro dia no ginásio tinha sido a primeira vez que a sombra a tinha tocado – e ela ainda se sentia violada, quase suja. Ela não sabia que outra coisa elas podiam fazer.
Nervosa, insegura, Luce esticou o braço como se fosse um bastão de baseball. Deu uma respiração profunda e lançou para frente. Arrepiou-se ao contato frio enquanto afastava a sombra – e golpeou o topo da cabeça de Penn.
Penn pressionou suas mãos contra seu crânio e olhou Luce em choque.
— Qual é o seu problema?
Luce se sentou junto a ela e tocou a parte de cima do cabelo de Penn.
— Desculpe. Havia... pensei que vi uma abelha... pousar em sua cabeça. Me assustei. Não queria que te picasse.
Ela podia sentir quão absurdamente, totalmente pobre essa desculpa era e esperou que sua amiga lhe dissesse que ela estava louca – por que uma abelha estaria em uma biblioteca? Ela esperou que Penn ficasse furiosa. Mas o rosto redondo de Penn se suavizou. Ela pegou a mão de Luce entre a sua e as agitou.
— As abelhas me aterrorizam também — ela contou. — Sou mortalmente alérgica. Basicamente você salvou a minha vida.
Foi como se tivessem um grande momento de conexão – só que não era, porque Luce estava completamente consumida pelas sombras. Se tão somente pudesse afastá-las de sua mente, afastar as coisas das sombras, sem assustar Penn. Luce tinha um forte e inquieto pressentimento sobre esta sombra cinza-clara. A uniformidade das sombras nunca tinham sido reconfortantes, mas estas últimas variações eram novas em um nível desconcertante.
Significava que mais tipos de sombras estavam encontrando uma maneira de chegar a ela? Ou só era ela que estava ficando melhor em distingui-las? E o que era este estranho momento durante a leitura da Srta. Sophia, quando ela praticamente exortou uma sombra antes que pudesse entrar em seu bolso? Ela tinha feito isso sem pensar, e não tinha razão para esperar que seus dois dedos pudessem fazer algo à sombra, mas eles tinham feito – ela deu uma olhada ao redor das estantes – pelo menos temporariamente.
Ela se perguntava se ela tinha arrumado algum tipo de precedente para interagir com as sombras. Exceto que para chamar o que ela tinha feito com a sombra pairando sobre a cabeça de Penn de “interagir” – inclusive Luce sabia que era um eufemismo. Um frio e doentio sentimento cresceu em seu interior quando percebeu que o que ela tinha começado a fazer com as sombras era mais como... lutar com elas.
— Essa é a coisa mais estranha — Penn falou do chão. — Deveria ser exatamente aqui entre O Dicionário dos Anjos e esta coisa horrível de Billy Graham fogo-e-enxofre. — Ela levantou a vista para Luce. — Mas sumiu.
— Pensei que você tivesse dito...
— Eu disse. O computador tinha listado as estantes quando procurei esta tarde, mas não podemos conectar a esta hora para checar de novo.
— Pode perguntar à Todd — Luce sugeriu. — Talvez ele esteja usando como capa para suas Playboys.
— Que nojento — Penn bateu em sua coxa.
Luce saiba que só tinha feito essa brincadeira para baixar um pouco sua decepção. Isso era tão frustrante. Ela não podia encontrar nada sobre Daniel sem correr contra uma parede. Ela não sabia o que poderia encontrar nessas páginas do livro de sua tatara-tatara-o que seja do livro, mas pelo menos lhe diria algo mais sobre Daniel. No qual era melhor que nada.
— Fique aqui — disse Penn, levantando-se. — Vou perguntar para a Srta. Sophia se alguém o tirou hoje.
Luce a observou ir sobre o longo corredor até a mesa da frente. Ela riu quando Penn apertou o passo quando passou pela área onde Todd estava sentado.
Sozinha no canto de trás, Luce roçou alguns dos outros livros na estante. Ela fez uma rápida e mental revisão de todos os estudantes na Sword & Cross, mas não podia pensar em nenhum candidato para tirar um velho livro de religião. Talvez a Srta. Sophia tinha usado como referência para sua sessão de revisão mais cedo.
Luce se perguntou o que deve ter sido para Daniel ficar sentado lá, escutando a bibliotecária falar sobre coisas que tinham sido provavelmente temas da mesa de jantar em sua casa quando ele estava crescendo. Luce queria saber como tinha sido a infância dele. O que tinha acontecido a sua família? Teve sua educação em um orfanato religioso? Ou tinha sido sua infância como a dela, onde as únicas coisas perseguidas religiosamente eram boas notas e honras acadêmicas? Ela queria saber se Daniel tinha lido este livro escrito por seu ancestral e o que ele tinha pensado sobre isso, e se ele gostava de escrever.
Ela queria saber o que ele estava fazendo exatamente agora na festa de Gabbe e quando era seu aniversário e qual o tamanho do sapato que usava e se ele alguma vez desperdiçou um segundo de seu tempo pensando nela.
Luce sacudiu sua cabeça. Este tipo de pensamento estava dirigindo-se diretamente a Cidade da Piedade, e ela queria sair. Tirou o primeiro livro da estante – a tão desinteressante surrada capa do Dicionário dos Anjos – e decidiu se distrair lendo até que Penn voltasse.
Ela tinha ido até o ponto quando o anjo caído Abbadon, que se arrependeu de estar do lado de Satanás e constantemente lamentava sua má decisão – bocejo – quando um som forte soou sobre sua cabeça. Luce olhou para cima para ver a luz vermelha do alarme de incêndio.
— Alerta. Alerta — uma monótona voz robótica anunciava em voz alta. — O alarme de incêndio foi ativado. Evacuem o prédio.
Luce deslizou o livro de volta para a estante e começou a correr. Eles tinham feito este tipo de coisa em Dover o tempo todo. Depois de um tempo, tinha chegado ao ponto onde nem mesmo os professores ouviam as simulações de incêndios mensalmente, então o Departamento de Bombeiros tinha realmente começado a configurar o alarme só para as pessoas responderem.
Luce podia ver claramente os administradores da Sword & Cross fazendo a mesma coisa. Mas quando ela começou a caminhar até a saída, foi surpreendida ao encontrar-se tossindo. Tinha fogo de verdade na biblioteca.
— Penn? — Ela gritou, escutando o eco de sua voz em seus ouvidos.
Ela sabia que seria abafada pelo ruído do alarme. O odor da fumaça a fez instantaneamente voltar às chamas na noite com Trevor. Imagens e sons flutuavam em sua cabeça, coisas que ela tinha abafado tão profundamente de sua memória que poderiam muito bem ter sido apagadas. Até agora.
Os surpreendentes olhos brancos de Trevor contra a luz alaranjada. As individuais chamas enquanto o fogo se dispersava entre cada um de seus dedos. O agudo e interminável grito que ressoava em sua cabeça como uma sirene muito depois que Trevor tivesse dado por vencido. E todo o tempo, ela tinha estado ali parada, observando, ela não podia deixar de ver, congelada neste banho de calor. Ela não tinha sido capaz de mover-se. Ela não tinha sido capaz de fazer algo para ajudá-lo. Então ele morreu.
Sentiu alguém agarrar seu pulso esquerdo e se virou, esperando ver Penn. Era Todd. O branco de seus olhos eram enormes, e ele estava tossindo também.
— Temos que sair daqui — ele disse, respirando rápido. — Acho que a saída está na parte de trás.
— E Penn e a Srta. Sophia? — Luce perguntou.
Ela estava se sentindo fraca e enjoada. Esfregou os olhos.
— Elas estavam ali.
Quando ela apontou para o corredor até a entrada, ela podia ver o quanto a fumaça tinha se tornado mais grossa nesta direção.
Todd olhou receoso por um segundo, mas depois assentiu.
— Ok — ele disse, mantendo-se agarrado ao pulso dela enquanto se agachavam e corriam até as portas principais da biblioteca.
Foram para a direita quando um corredor parecia particularmente estar cheio de fumaça, encontraram-se em uma parede de livros sem nenhuma pista de até onde correr. Os dois pararam para respirar.
A fumaça que só a alguns momentos estava sobre suas cabeças, agora pressionava abaixo de seus ombros. Ainda agachados nela, eles estavam se asfixiando. E não podiam ver nada mais que alguns metros à frente deles. Certificando-se de se manter agarrada a Todd, Luce deu uma volta em círculo, repentinamente insegura de qual direção eles tinham vindo. Ela estendeu a mão e sentiu um metal quente de uma estante. Ela nem sequer podia ver os títulos nos livros. Estavam na sessão de D ou O?
Não tinham pista que guiasse até Penn e a Srta. Sophia, e nenhuma pista que os guiassem para a saída tampouco. Luce sentiu uma onda de pânico passar por ela, fazendo mais difícil respirar,
— Elas já devem ter saído pelas portas da frente! — Todd gritou, parecendo meio convencido. — Temos que voltar!
Luce mordeu seu lábio. E se alguma coisa aconteceu com Penn? Ela mal podia ver Todd, que estava parado exatamente em frente a ela. Ele tinha razão, mas qual era o caminho de volta?
Luce assentiu silenciosamente, e sentiu a mão dele tomando a dela.
Por um longo tempo, ela se moveu sem saber onde estavam indo, mas enquanto eles seguiam, a fumaça se desvanecia, pouco a pouco, até que, eventualmente, ela viu o brilho vermelho da saída de emergência. Luce deu um suspiro de alívio enquanto Todd procurava pela maçaneta da porta e finalmente a abriu.
Eles estavam em um corredor que Luce jamais tinha visto. Todd fechou a porta atrás deles. Eles tossiram e encheram seus pulmões com ar limpo. Tinha um gosto tão bom, Luce queria afundar seus dentes nisso, beber um galão disso, banhar-se nisso.
Ela e Todd tossiram a fumaça para fora de seus pulmões até que começaram a rir, uma inquieta, quase aliviada risada. Eles riram até que ela estava chorando. Mas mesmo quando Luce terminou de chorar e tossir, seus olhos continuavam lacrimejando. Como podia respirar neste ar quando ela nem sequer sabia o que tinha acontecido a Penn? E se Penn não tinha conseguido sair – se estava presa em algum lugar lá dentro – então Luce tinha falhado com alguém a quem lhe importava novamente. Só que desta vez seria muito pior.
Ela limpou os olhos e viu uma nuvem de fumaça passando por baixo da rachadura da base da porta. Ainda não estavam a salvo. Tinha outra porta no final do corredor. Através do painel de cristal da porta, Luce podia ver a forma de um ramo de uma árvore na noite. Exalou. Em pouco tempo, estariam do lado de fora, longe dessa fumaça intoxicante.
Se fossem o suficiente rápido, podiam ir para a entrada principal e assegurar-se de que Penn e a Srta. Sophia tinham saído.
— Vamos — Luce falou a Todd, que estava curvado, respirando com dificuldade. — Temos que continuar.
Ele se endireitou, mas Luce podia ver que estava realmente mal. Seu rosto estava vermelho, seus olhos eram selvagens e molhados. Ela praticamente teve que arrastá-lo até a porta. Ela estava tão concentrada em sair dali que levou um tempo para processar o pesado ruído que tinha caído sobre eles, silenciando o alarme.
Ela olhou para o redemoinho de sombras. Um espectro de sombras de tons de cinza e o mais profundo negro. Ela só devia ser capaz de ver um pouco mais sobre o teto, mas as sombras pareciam de alguma maneira estender-se sobre os limites, em um estranho e escondido céu. Todas estavam amontoadas umas sobre as outras, mas ainda assim, de alguma maneira eram distintas.
No meio delas estava a sombra mais clara e cinza que ela tinha visto anteriormente. Não era mais da forma alongada de uma agulha, mas agora parecia quase como a chama de um fósforo. Se balançou até eles no corredor. Ela realmente tinha apartado essa forma obscura quando tinha ameaçado esfolar a cabeça de Penn? A recordação fez com que suas palmas lhe coçassem e seus dedos se enrolarem.
Todd começou a bater-se contra as paredes, como se o corredor estivesse aproximando-se dele. Luce sabia que eles estavam em algum lugar próximos da porta. Ela pegou sua mão, mas suas mãos suadas se deslizaram uma e outra vez. Ela enrolou seus dedos fortemente ao redor do pulso dele. Ele estava tão pálido como um fantasma, agachou-se do chão, quase encolhido. Um gemido de pavor escapou de seus lábios.
Era porque a fumaça agora estava chegando no corredor? Ou era porque ele também podia ver as sombras? Impossível.
Ainda assim, seu rosto estava comprimido e horrorizado. Muito mais agora que as sombras estavam aproximando-se.
— Luce? — Sua voz tremeu.
Outra onda de sombras se levantou diretamente em seu caminho. Uma cortina negra intensa se estendeu sobre as paredes e fez impossível para Luce ver o chão. Ela olhou para Todd – ele podia ver isso?
— Corre! — Ela gritou.
Ele ainda podia correr? Seu rosto estava cinzento e suas pálpebras fechadas. Ele estava a ponto de desmaiar. Mas então, repentinamente parecia como se ele estivesse carregando-a. Ou algo estava carregando os dois.
— Que diabos...? — Todd gritou.
Seus pés se levantaram do chão só por um momento. Sentiu como se estivesse em uma onda no oceano, um cume leve que a levantava mais alto, levando seu corpo ao ar. Luce não sabia até onde iria – ela nem sequer podia ver a porta, só um monte de sombras ao redor. Próximas dela, mas não a tocaram. Ela deveria ter estado horrorizada, mas não estava. De alguma maneira se sentia protegida das sombras, como se algo a estivesse protegendo – algo flexível mas impenetrável. Algo estranhamente familiar. Algo forte, mas gentil. Algo... quase muito rápido, ela e Todd estavam na porta. Seus pés tocaram o chão de novo, e ela se lançou contra porta de emergência.
Então ela soltou. Sufocada. Ofegante. Com ânsia de vômito.
Outro alarme estava soando. Mas estava soando muito longe.
O vento roçou seu pescoço. Eles estavam do lado de fora! Parados em um pequeno peitoral, um lance de escadas chegavam até a área principal, e inclusive quando tudo em sua cabeça se sentia nublado e cheio de fumaça, Luce pensou que podia escutar vozes em algum lugar próximo. Ela virou para tentar saber o que tinha acontecido. Como ela e Todd tinham saído através dessa grossa, negra e impenetrável sombra? E o que era essa coisa que os tinha salvo? Luce sentiu sua ausência. Ela quase queria voltar para procurá-la. Mas o corredor estava escuro, e seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas, e ela já não podia distinguir as retorcidas formas das sombras. Talvez tivessem ido.
Depois houve uma irregular pincelada de luz, algo que parecia com o tronco de árvore com ramos – não, como um torço amplos, longos membros. Uma pulsante, quase violeta coluna de luz movendo-se pra cima deles. Isso fez com que Luce pensasse, absurdamente, em Daniel. Ela estava vendo coisas. Ela respirou fundo e tentou piscar as lágrimas de fumaça de seus olhos. Mas a luz ainda estava ali. Ela sentia mais que ouvi-la chamar, acalmando-a, uma canção de ninar em meio a uma zona de guerra.
Então ela não viu chegar a sombra.
Bateu no corpo dela e de Todd, rompendo a ligação um do outro, e lançando Luce no ar.
Ela aterrissou ao pé das escadas. Um grunhido agonizante escapou de seus lábios. Por um longo momento sua cabeça latejava. Ela nunca tinha conhecido uma dor tão profunda e abrasadora como esta. Ela chorou durante a noite, no conflito de luz e sombra sobre sua cabeça. Então tudo se tornou muito e Luce se entregou, fechando os olhos.
CAPITULO 11: RUDE DESPERTAR
— Está com medo? — Daniel perguntou.
Sua cabeça estava inclinada para o lado, seu cabelo loiro desgrenhado por uma brisa suave. Ele estava segurando-a, e enquanto seu aperto estava firme em torno de sua cintura, era tão suave e leve como um lenço de seda. Seus próprios dedos estavam entrelaçados atrás do pescoço sem camisa dele.
Ela estava com medo? Claro que não. Ela estava com Daniel. Finalmente. Em seus braços. A verdadeira questão incomodando nos fundos de sua mente era: Deveria ficar com medo? Ela não podia ter certeza. Nem mesmo sabia onde estava.
Ela conseguia sentir o cheiro de chuva no ar, próxima. Mas tanto ela quanto Daniel estavam secos. Ela conseguia sentir um longo vestido branco fluindo até seus tornozelos. Havia só um pouco de luz do dia restante. Luce sentiu um arrependimento penetrante ao desperdiçar o pôr-do-sol, como se houvesse algo que ela pudesse fazer para detê-lo. De alguma forma, ela sabia que esses raios de luz finais eram tão preciosos quanto as últimas gotas de mel em um jarro.
— Você fica comigo? — ela perguntou.
Sua voz era o mais fino sussurro, quase cancelado por um gemido baixo de trovão. Uma rajada de vento girou ao redor deles, soprando o cabelo de Luce em seus olhos. Daniel cruzou seus braços com mais força ao redor dela, até que ela conseguisse respirar a respiração dele, pudesse sentir o cheiro da pele dele na dela.
— Para sempre — ele sussurrou de volta.
O som doce de sua voz a completou.
Havia um pequeno arranhão do lado esquerdo da testa dele, mas ela esqueceu dele enquanto Daniel pegou suas bochechas entre as mãos e trouxe seu rosto mais para perto. Ela inclinou sua cabeça para trás e sentiu todo o seu corpo ficar frouxo de expectativa.
Finalmente, finalmente, os lábios dele desceram nos dela com uma urgência que tirou seu fôlego. Ele a beijou como se ela pertencesse a ele, tão naturalmente como se ela fosse alguma parte dele há muito tempo perdida que ele pudesse enfiar recuperar.
Então a chuva começou a cair. Ensopou seus cabelos, correu pelos seus rostos e suas bocas. A chuva estava quente e inebriante, como os próprios beijos.
Luce esticou sua mão ao redor das costas dele para puxá-lo mais para perto, e suas mãos deslizavam em algo aveludado. Ela correu uma mão sobre isso, depois outra, buscando seus limites, e então olhou para além do rosto brilhante de Daniel. Algo estava se desenrolando atrás dele.
Asas. Lustrosas e iridescentes, batendo devagar, sem esforço, brilhando na chuva. Ela as tinha visto antes, talvez, ou algo parecido com elas, em algum lugar.
— Daniel — ela falou, arfando.
As asas consumiram sua visão e sua mente. Elas pareciam girar em um milhão de cores, fazendo sua cabeça doer. Luce tentou olhar para outro lugar, para qualquer outro lugar, mas de todos os lados, tudo que ela podia ver além de Daniel eram os rosas e azuis infinitos do céu se pondo. Até que ela olhou para baixo e observou uma última coisa. O chão. Milhares de metros abaixo deles.
***
Quando ela abriu seus olhos, estava muito claro, sua pele muito seca, e havia uma dor imobilizante na parte de trás de sua cabeça. O céu tinha ido embora, assim como Daniel. Outro sonho.
Só que esse a deixou se sentindo quase doente de desejo.
Ela estava em um quarto de paredes brancas. Deitada em uma cama de hospital. À sua esquerda, uma cortina fina como papel tinha sido arrastada pela metade do quarto, separando-a de algo se movimentando no outro lado.
Luce delicadamente tocou o ponto tenro na base do seu pescoço e choramingou. Ela tentou se orientar. Não sabia onde estava, mas tinha uma nítida sensação de que não estava mais na Sword & Cross. Seu vestido branco largo era – ela deu um tapinha nas laterais – uma folgada camisola de hospital. Ela conseguia sentir cada parte do sonho escapulindo – tudo exceto aquelas asas. Elas tinham sido tão reais. O toque delas tão aveludado e fluído. Seu estômago agitou-se. Ela fechou e abriu seus punhos, hiperconsciente de seu vazio.
Alguém agarrou e apertou sua mão direita. Luce virou sua cabeça rapidamente e recuou. Ela tinha assumido que estava sozinha. Gabbe estava empoleirada na beira de uma cadeira giratória azul desbotada que parecia, irritantemente, realçar a cor dos olhos.
Luce queria se desvencilhar – ou pelo menos, ela esperou querer se desvencilhar – mas então Gabbe lançou-lhe o sorriso mais quente, um que fez Luce se sentir, de alguma forma, segura, e ela percebeu que estava feliz por não estar sozinha.
— Quanto disso foi um sonho? — ela murmurou.
Gabbe riu. Ela tinha um pote de creme para cutículas na mesa ao lado dela, e começou a esfregar o negócio branco com aroma de limão nas unhas de Luce.
— Isso tudo depende — ela respondeu, massageando os dedos de Luce. — Mas não se importe com sonhos. Eu sei que sempre quando sinto o meu mundo virando de cabeça para baixo, nada me acalma como uma manicure.
Luce olhou para baixo. Ela nunca fora muito de esmalte, mas as palavras de Gabbe a lembraram de sua mãe, que sempre sugeria que elas fossem à manicure quando Luce tinha um dia ruim.
Enquanto as mãos lentas de Gabbe trabalhavam em seus dedos, Luce se perguntava se todos esses anos ela estivera perdendo isso.
— Onde nós estamos? — ela perguntou.
— Hospital Lullwater.
Sua primeira viagem para fora do campus e ela acabara em um hospital a cinco minutos da casa dos seus pais. Na última vez em que ela estivera aqui fora para tirar três pontos de seu cotovelo quando ela caíra da sua bicicleta. Seu pai não havia deixado o seu lado. Agora ele não estava em lugar algum.
— Há quanto tempo estou aqui?
Gabbe olhou para o relógio branco na parede e disse:
— Eles te acharam desmaiada devido a inalação de fumaça na noite passada por volta das onze. É procedimento operacional padrão chamar o Técnico de Emergência Médica quando encontram alguém do reformatório inconsciente, mas não se preocupe, Randy disse que vão te deixar sair daqui logo logo. Assim que seus pais assentirem...
— Meus pais estão aqui?
— E cheios de preocupação com a filha deles, até as pontas do cabelo com permanente da sua mamãe. Eles estão no corredor, se afogando em papelada. Eu disse a eles que ficaria de olho em você.
Luce resmungou e apertou seu rosto no travesseiro, convocando a profunda dor na parte de trás de sua cabeça novamente.
— Se você não quiser vê-los...
Mas Luce não resmungava por causa de seus pais. Ela estava morrendo de vontade de ver seus pais. Ela estava se lembrando da biblioteca, do fogo, e da nova geração de sombras que ficava mais assustadora cada vez que a encontravam. Elas sempre foram escuras e feias, elas sempre a fizeram se sentir nervosa, mas ontem à noite, tinha quase parecido como se as sombras quisessem algo dela. E então houve aquela outra coisa, a força levitante que a libertou.
— Que cara é essa? — Gabbe perguntou, inclinando sua cabeça e acenando sua mão no ar na frente do rosto de Luce. — No que está pensando?
Luce não sabia como assimilar a bondade repentina de Gabbe com ela. Assistente de enfermeira não parecia exatamente o tipo de emprego em que Gabbe seria voluntária, e não era como se houvesse algum cara por aqui cuja atenção ela pudesse monopolizar. Gabbe nem mesmo parecia gostar de Luce. Ela não apareceria aqui por vontade própria, apareceria?
Mas mesmo tão bondosa quanto Gabbe estava sendo, não havia jeito de explicar o que tinha acontecido na noite passada. A reunião pavorosa e inexprimível no corredor. A sensação surreal de ser impulsionada para frente por aquela escuridão. A figura estranha e atraente da luz.
— Onde o Todd está? — Luce perguntou, lembrando-se dos olhos amedrontados do rapaz.
Ela perdera seu aperto sobre ele, saiu voando, e então...
A cortina de papel foi repentinamente atirada para trás, e ali estava Ariane, usando patins em linha e um uniforme vermelho-e-branco cor de doce listrado. Seu curto cabelo preto estava retorcido em uma série de nós no alto da sua cabeça. Ela rolou, carregando uma bandeja na qual estavam três cocos verdes com canudos de festa em formato de guarda-chuva de cor neon.
— Agora me deixa entender — ela disse numa voz rouca, nasal. — Ponha o canudo no coco e beba ambos... opa, caras azedas. O que estou interrompendo?
Ariane parou as rodas no pé da cama de Luce. Ela estendeu uma batida de coco com um guarda-chuva rosa balançando.
Gabbe pulou e agarrou o copo primeiro, dando uma cheirada em seu conteúdo.
— Ariane, ela acabou de passar por um trauma — ela repreendeu. — E para sua informação, o que você interrompeu foi o assunto Todd.
Ariane jogou seus ombros para trás.
— Justamente o por que dela precisar de algo potente — ela debateu, segurando a bandeja possessivamente enquanto ela e Gabbe envolviam-se em um concurso de encarar.
— Ótimo — Ariane disse, olhando para longe de Gabbe. — Darei a ela sua velha bebida chata.
Ela deu a Luce o copo com o canudo azul.
Luce devia estar em algum tipo de atordoamento pós-traumático. Onde é que elas poderiam ter conseguido esse negócio? Batida de coco com guarda-chuvinhas coloridos? Era como se ela tivesse adormecido no reformatório e acordado em um hotel cinco estrelas.
— Onde vocês conseguiram todas essas coisas? — ela perguntou. — Quero dizer, obrigada, mas...
— Nós unimos nossos recursos quando precisamos — Ariane respondeu. — Roland ajudou.
As três se sentaram bebendo de forma barulhenta as bebidas geladas e doces por um momento, até que Luce não conseguisse aguentar mais.
— Então, voltando para o Todd...?
— Todd — Gabbe repetiu, limpando sua garganta. — O negócio é que... ele simplesmente inalou muito mais fumaça do que você, doçura...
— Ele não inalou — Ariane cuspiu. — Ele quebrou o pescoço.
Luce arfou, e Gabbe bateu em Ariane com sua bebida de guarda-chuva.
— O quê? — Ariane indagou. — Luce pode aguentar isso. Se ela vai descobrir eventualmente, por que adoçar a verdade?
— A evidência ainda é inconclusiva — Gabbe disse, sublinhando as palavras.
Ariane deu de ombros.
— Luce estava lá, ela deve ter visto...
— Eu não vi o que aconteceu com ele. Nós estávamos juntos e então, de alguma forma, fomos separados. Eu tive um mau pressentimento, mas eu não sabia... — ela sussurrou. — Então ele...
— Se foi desse mundo — Gabbe disse suavemente.
Luce fechou seus olhos. Um frio, que não tinha nada a ver com a bebida, se espalhou por ela. Ela se lembrou do Todd batendo freneticamente nas paredes, sua mão suada apertando a dela quando as sombras rugiram sobre eles, o momento terrível quando os dois foram separados e ela ficara muito chocada para ir até ele.
Ele tinha visto as sombras. Luce estava certa disso agora. E ele morrera.
Depois de Trevor ter morrido, nenhuma semana se passou sem uma carta de ódio encontrando seu caminho até Luce. Seus pais começaram a tentar vetar o correio antes que ela pudesse ler as coisas venenosas, mas muito ainda chegava a ela. Algumas cartas eram escritas à mão, algumas eram digitadas, uma tinha até sido cortada de letras de revistas, estilo bilhete de resgate.
Assassina, bruxa. Eles a tinham chamado de nomes cruéis o bastante para encher uma página de recados, causado agonia o bastante para mantê-la trancada dentro de casa durante todo o verão.
Ela pensara que tinha feito tanto para se afastar daquele pesadelo: deixando seu passado para trás quando ela foi para a Sword & Cross, concentrando-se em suas aulas, fazendo amigos... ah Deus.
Ela inspirou profundamente.
— E quanto a Penn? — ela perguntou, mordendo seu lábio.
— Penn está ótima — Ariane disse. — Ela é totalmente matéria de primeira página, testemunha do incêndio. Tanto ela quanto a Senhorita Sophia saíram, cheirando como um poço de fumaça do leste da Geórgia, mas ainda assim bem.
Luce soltou sua respiração. Pelo menos havia uma boa notícia. Mas sob os lençóis finos como papel fino da enfermaria, ela estava tremendo. Logo, certamente os mesmos tipos de pessoas que foram atrás dela após a morte de Trevor iriam atrás dela novamente. Não apenas os que escreveram as cartas zangadas. Dr. Sanford. Seu agente da condicional. A polícia.
Bem como antes, seria esperado que ela tivesse a história toda reunida. Que lembrasse de cada detalhe mínimo. Mas é claro que, exatamente como antes, ela não seria capaz. Numa hora, ele estivera ao seu lado, apenas os dois. Na seguinte...
— Luce!
Penn irrompeu pela sala, segurando um grande balão de hélio marrom. Tinha a forma de um band-aid e dizia Arranca em letras cursivas azuis.
— O que é isso? — ela perguntou, olhando para as outras três garotas criticamente. — Algum tipo de festa do pijama?
Ariane tinha desamarrado seus patins e subido na minúscula cama ao lado de Luce. Ela estava segurando os dois copos e deitando sua cabeça no ombro de Luce. Gabbe estava pintando esmalte transparente na mão livre de Luce.
— É — Ariane gargalhou. — Junte-se a nós, Penny. Estávamos prestes a jogar Verdade ou Desafio. Deixaremos você ir primeiro.
Gabbe tentou encobrir sua risada com um delicado espirro falso. Penn colocou suas mãos nos quadris. Luce se sentiu mal por ela, e também um pouco assustada. Penn pareceu bastante feroz.
— Um dos nossos colegas morreu na noite passada — Penn enunciou cuidadosamente. — E Luce poderia ter se machucado muito. — Ela balançou sua cabeça. — Como vocês podem brincar numa hora como essa? — ela fungou. — Isso é álcool?
— Ohhh — Ariane disse, olhando para Penn, seu rosto sério. — Você gostava dele, não gostava?
Penn pegou um travesseiro da cadeira atrás dela e jogou-o em Ariane. O negócio era que Penn estava certa. Era estranho que Ariane e Gabbe estivessem tomando a morte de Todd como algo quase leve. Como se elas vissem esse tipo de coisa acontecer o tempo todo. Como se isso não as afetasse da forma como afetava Luce. Mas elas não podiam saber o que Luce sabia sobre os últimos momentos de Todd. Elas não poderiam saber por que ela se sentia tão enojada agora. Ela deu um tapinha no pé da cama para Penn e entregou-lhe o que restava de sua bebida.
— Nós saímos pelos fundos, e então... — Luce não conseguia nem mesmo dizer as palavras. — O que aconteceu com você e a Senhorita Sophia?
Penn olhou desconfiadamente para Ariane e Gabbe, mas nenhuma se movimentou para ser insolente. Penn desistiu e se sentou na beirada da cama.
— Eu simplesmente fui lá perguntar a ela sobre... — Ela olhou para as outras duas garotas novamente, então lançou a Luce um olhar astucioso. — A pergunta que eu tinha. Ela não sabia a resposta, mas queria me mostrar outro livro.
Luce tinha esquecido tudo sobre a busca dela e de Penn na noite passada. Isso parecia tão distante e tão irrelevante depois do que havia acontecido.
— Nós nos afastamos dois passos da mesa da Senhorita Sophia — Penn continuou — e houve essa explosão maciça de luz de canto de olho. Quero dizer, li sobre combustão espontânea, mas isso foi...
Todas as três outras garotas estavam se inclinando para a frente nesse momento. A história de Penn era notícia de primeira página.
— Algo deve ter começado isso — Luce falou, tentando imaginar a mesa da Senhorita Sophia em sua mente. — Mas eu não acho que havia mais alguém na biblioteca.
Penn sacudiu a cabeça.
— Não havia. A Senhorita Sophia disse que um fio deve ter dado curto-circuito em uma lâmpada. O que quer que tenha acontecido, o fogo tinha bastante combustível. Todos os documentos dela se foram rapidamente.
Ela estalou os dedos.
— Mas ela está bem? — Luce perguntou, dedilhando a bainha parecida com papel de sua camisola de hospital.
— Perturbada, mas bem. Os extintores de incêndio foram ligados eventualmente, mas acho que ela perdeu um bando das coisas dela. Quando lhe contaram o que aconteceu com o Todd, foi quase como se ela estivesse dormente demais até mesmo para entender.
— Talvez estejamos todos dormentes demais para entender — Luce concordou. Dessa vez Gabbe e Ariane assentiram de cada lado dela. — Os... os pais do Todd sabem? — ela perguntou, querendo saber como diabos ela explicaria para seus próprios pais o que tinha acontecido.
Ela os imaginou preenchendo papelada no salão. Será que eles iriam querer vê-la? Será que eles conectariam a morte do Todd com a de Trevor... e traçariam ambas as histórias terríveis até ela?
— Eu ouvi Randy no telefone com os pais de Todd — Penn disse. — Eu acho que eles vão processar. O corpo dele está sendo mandado de volta para a Flórida mais tarde hoje.
Só isso? Luce engoliu em seco.
— A Sword & Cross vai fazer um serviço memorial para ele na quinta — Gabbe murmurou. — Daniel e eu vamos ajudar a organizar.
— Daniel? — Luce repetiu antes que pudesse se controlar.
Ela olhou para Gabbe, e mesmo em seu estado abatido pelo luto, ela não conseguiu evitar reverter à sua imagem inicial da garota: uma sedutora loira de lábios rosa.
— Foi ele quem achou vocês dois na noite passada — Gabbe explicou. — Ele carregou você da biblioteca até o escritório da Randy.
Daniel a tinha carregado? Tipo... seus braços em volta do corpo dela? O sonho voltou correndo e a sensação de voar – não, de flutuar – a inundou. Ela se sentiu amarrada demais em sua cama. Ela sentia falta do mesmo céu, da chuva, da boca dele, dos dentes dele, da língua dele fundindo com a dela novamente. Seu rosto ficou quente, primeiro com desejo, então com a impossibilidade agonizante de tudo aquilo acontecer enquanto ela estivesse acordada. Aquelas asas gloriosas e cegantes não eram as únicas coisas fantásticas nesse sonho. O Daniel da vida real somente a carregara para a enfermaria. Ele nunca iria querer ela, nunca a pegaria em seus braços, não desse jeito.
— Hã, Luce, você está bem? — Penn perguntou.
Ela estava abanando as bochechas coradas de Luce com sua bebida de guarda-chuva.
— Ótima.
Era impossível afastar aquelas asas de sua mente. Esquecer da sensação do rosto dele sobre o dela.
— Ainda estou me recuperando, suponho.
Gabbe deu um tapinha em sua mão.
— Quando ficamos sabendo sobre o que tinha acontecido, nós bajulamos a Randy para nos deixar vir visitar — ela disse, revirando seus olhos. — Não queríamos que você acordasse sozinha.
Houve uma batida na porta. Luce esperava ver os rostos ansiosos de seus pais, mas ninguém entrou. Gabbe ficou de pé e olhou para Ariane, que não fez menção alguma de se levantar.
— Fiquem aqui. Eu lidarei com isso.
Luce ainda estava sobrepujada pelo que tinham lhe contado sobre Daniel. Mesmo não fazendo sentido algum, ela queria que fosse ele fora daquela porta.
— Como ela está? — uma voz perguntou em um sussurro. Mas Luce a ouviu. Era ele.
Gabbe murmurou algo de volta.
— Que congregação toda é essa? — Randy rosnou do lado de fora da sala.
Luce sabia, com o coração afundado, que isso significava que as horas de visita tinham acabado.
— Quem quer que tenha me convencido a deixar vocês, seus pestinhas, virem junto recebe detenção. E não, Grigori, não aceitarei flores como suborno. Todos vocês, entrem na minivan.
Ouvindo a voz da mulher, Ariane e Penn se encolheram, então correram para esconder os copos debaixo da cama. Penn enfiou os guarda-chuvas da bebida dentro de seu estojo e Ariane espirrou um forte perfume almíscar de baunilha no ar. Ela deu um pedaço de chiclete de hortelã para Luce.
Penn engasgou numa nuvem flutuante de perfume, então se inclinou rapidamente para Luce e sussurrou:
— Assim que estiver boa de nova, acharemos o livro. Acho que será bom para nós duas ficarmos ocupadas, tirar nossas mentes das coisas.
Luce apertou a mão de Penn em agradecimento e sorriu para Ariane, que parecia ocupada demais amarrando o cadarço de seus patins para ter ouvido.
Foi então que Randy empurrou com tudo a porta.
— Mais congregação! — ela gritou. — Inacreditável.
— Nós estávamos apenas... — Penn começou a dizer.
— Indo embora — Randy terminou por ela.
Ela tinha um buquê de peônias brancas selvagens em sua mão.
Estranho. Elas eram as favoritas de Luce. E era tão difícil achá-las florescendo por aqui. Randy abriu um armário debaixo da pia e fuçou por um minuto, então puxou um vaso pequeno e empoeirado. Ela o encheu com a água turva da torneira, colocou as peônias rudemente dentro, e as assentou na mesa ao lado de Luce.
— São dos seus amigos que irão todos se despedir agora.
A porta estava largamente aberta, e Luce conseguia ver Daniel encostado contra a moldura. Seu queixo estava levantado e seus olhos cinzentos estavam nublados com preocupação. Ele encontrou o olhar de Luce e deu-lhe um pequeno sorriso. Quando ele tirou seus cabelos de perto de seus olhos, Luce conseguiu ver um pequeno corte vermelho escuro em sua testa.
Randy dirigiu Penn, Ariane e Gabbe porta afora. Mas Luce não conseguia tirar seus olhos de Daniel. Ele ergueu uma mão no ar e balbuciou o que ela achava ser Sinto muito, logo antes de Randy empurrá-los para fora.
— Espero que eles não tenham te deixado exausta — Randy disse, espreitando na entrada com um franzir de testa antipático.
— Ah não!
Luce sacudiu sua cabeça, percebendo o quanto ela tinha aprendido a contar com a lealdade de Penn, e a maneira peculiar de Ariane animar até mesmo o humor mais sombrio. Gabbe, também, tinha sido realmente bondosa com ela. E Daniel, embora ela mal o tenha visto, tinha feito mais para restaurar sua paz de espírito do que jamais saberia. Ele tinha vindo para checá-la. Ele estivera pensando nela.
— Bom — Randy disse. — Porque o horário da visita ainda não acabou.
Novamente, o coração de Luce acelerou enquanto ela esperava ver seus pais. Mas houve apenas um ligeiro ruído no chão de linóleo, e logo Luce viu a minúscula moldura da Senhorita Sophia.
Um xale de outono colorido estava sobre seus ombros magros, e seus lábios estavam pintados de um vermelho profundo para combinar. Atrás dela andava um homem baixo e careca de terno e dois policiais, um gordinho e um magro, ambos com linhas capilares retrocedendo e braços cruzados.
O policial gordinho era mais jovem. Ele sentou-se na cadeira ao lado de Luce, então – percebendo que ninguém mais tinha se mexido para sentar – levantou-se novamente recruzou os braços.
O careca deu um passo a frente e ofereceu sua mão à Luce.
— Sou o Mr. Schultz, advogado da Sword & Cross — Luce apertou sua mão duramente. — Esses policiais simplesmente vão te fazer algumas perguntas. Nada a ser usado em um tribunal, apenas um esforço para corroborar os detalhes do acidente...
— E eu insisti em estar aqui durante o questionamento, Lucinda — a Senhorita Sophia acrescentou, indo para a frente para acariciar o cabelo de Luce. — Como está, querida? — ela sussurrou. — Em estado amnéstico de choque?
— Estou bem...
Luce cortou quando avistou mais duas figuras na entrada. Ela quase caiu em prantos quando viu a cabeça escura e encaracolada de sua mãe e os grandes óculos de couraça de tartaruga de seu pai.
— Mãe — ela sussurrou, baixo demais para alguém mais ouvir. — Pai.
Eles se apressaram em direção à cama, jogando seus braços em volta dela e apertando suas mãos. Ela queria abraçá-los tanto, mas se sentia fraca demais para fazer muito mais do que ficar parada e absorver o conforto familiar do toque deles. Os olhos deles pareciam tão assustados quanto ela se sentia.
— Doçura, o que aconteceu? — sua mãe perguntou.
Ela não conseguia dizer uma palavra.
— Eu disse a eles que você é inocente — a Senhorita Sophia disse, virando-se para lembrar os policiais. — Ao diabo com semelhanças estranhas.
Claro que eles tinham o acidente de Trevor registrado, e é claro que os policiais iriam encontrá-lo... notavelmente devido à morte do Todd. Luce tinha prática o bastante com os policiais para saber que ela apenas iria deixá-los frustrados e irritados.
O policial magro tinha costeletas longas que estavam ficando grisalhas. O arquivo aberto dela na mão dele parecia exigir sua atenção total, porque nenhuma vez ele olhou para ela.
— Srta. Price — ele disse com um lento sotaque sulista. — Por que você e o Sr. Hammond estavam sozinhos na biblioteca numa hora tão tardia quando todos os outros estudantes estavam numa festa?
Luce olhou para seus pais. Sua mãe estava mordiscando seu batom. O rosto do seu pai estava tão branco quanto o lençol da cama.
— Eu não estava com o Todd — ela respondeu, não entendendo a linha de questionamento. — Eu estava com a Penn, minha amiga. E a Senhorita Sophia estava lá. Todd estava lendo sozinho e quando o incêndio começou, eu me perdi da Penn, e Todd foi o único que consegui achar.
— O único que conseguiu achar... para fazer o quê?
— Espera um minuto — o Sr. Schultz deu um passo para frente para interromper o policial. — Isso foi um acidente, devo lembrar-lhe. Você não está interrogando um suspeito.
— Não, eu quero responder — Luce disse.
Havia tantas pessoas nesse minúsculo quarto que ela não sabia para onde olhar. Ela olhou o policial.
— O que quer dizer?
— Você é uma pessoa nervosa, Srta. Price? — Ele agarrou a pasta. — Você se definiria como solitária?
— Já chega — seu pai interrompeu.
— Sim, Lucinda é uma estudante séria — a Senhorita Sophia acrescentou. — Ela não tinha nenhuma má vontade em relação a Todd Hammond. O que aconteceu foi um acidente, nada mais.
O policial olhou em direção a porta aberta, como se desejando que a Senhorita Sophia se deslocasse para fora dela.
— Sim, madame. Bem, com esses casos de reformatório, dar o benefício da dúvida nem sempre se é o mais responsável...
— Eu lhe contarei tudo o que sei — Luce disse, embolando seu lençol em seu punho. — Eu não tenho nada a esconder.
Ela os conduziu da melhor maneira que conseguiu, falando devagar e claramente para que não levantasse novas perguntas para seus pais, para que os policiais pudessem tomar nota. Ela não se deixou escorregar para a emoção, o que parecia ser exatamente o que todos estavam esperando.
E – deixando de fora a aparição das sombras – a história fazia bastante sentido. Eles tinham corrido para a porta traseira. Tinham encontrado a saída no final de um longo corredor. A escada desprendeu-se rapidamente, inclinando-se para longe da base, e ela e Todd ambos estiveram correndo com tanta força, não conseguiram se impedir de tombar escada abaixo. Ela o perdera de vista, batera sua cabeça forte o bastante para acordar aqui doze horas depois. Isso era tudo de que ela se lembrava.
Ela deixou a eles muito pouco que se discutir. Havia apenas a lembrança verdadeira da noite para que ela combatesse – por conta própria.
Quando acabou, o Sr. Schultz deu aos policiais uma inclinação de cabeça do tipo estão-satisfeitos?, e a Senhorita Sophia sorriu de alegria para Luce, como se juntas elas tivessem tido sucesso em algo impossível. A mãe de Luce soltou um longo suspiro.
— Iremos refletir sobre isso na delegacia — o policial magro disse, fechando o arquivo de Luce com tal resignação que parecia que ele queria ser agradecido por seus serviços.
Então os quatro saíram da sala e ela ficou sozinha com seus pais.
Ela lançou-lhes seu melhor olhar me-levem-para-casa. O lábio de sua mão tremeu, mas seu pai só engoliu em seco.
— Randy vai te levar de volta para a Sword & Cross essa tarde — ele disse. — Não pareça tão chocada, doçura. O médico disse que você estava bem.
— Mais do que bem — sua mãe acrescentou, mas ela parecia incerta.
Seu pai deu-lhe um tapinha no braço.
— Te vemos no sábado. Apenas mais alguns dias.
Sábado. Ela fechou seus olhos. Dia dos Pais. Ela estivera ansiando-o desde o momento que chegara na Sword & Cross, mas agora tudo estava tingido pela morte do Todd. Seus pais pareciam quase ansiosos para deixá-la. Eles tinham um jeito de não querer exatamente lidar com as realidades de ter uma filha em um reformatório. Eles eram tão normais. Ela não podia realmente culpá-los.
— Descanse um pouco agora, Luce — seu pai aconselhou, abaixando-se para beijá-la sua testa. — Você teve uma noite longa e difícil.
— Mas...
Ela estava exausta. Ela fechou seus olhos brevemente e quando os abriu, seus pais já estavam acenando da entrada.
Ela arrancou uma rechonchuda flor branca do vaso e a levou lentamente até seu rosto, admirando as folhas profundamente lobuladas e as pétalas frágeis, as gotas ainda úmidas de néctar dentro de seu centro. Ela respirou o odor suave e aromático da flor.
Tentou imaginar o modo como teriam parecido nas mãos de Daniel. Tentou imaginar onde ele as tinha conseguido, e o que tinha estado em sua mente.
Fora uma escolha tão estranha de flor. Peônias selvagens não floresciam no pantanal da Geórgia. Elas nem aderiam ao solo no jardim do seu pai em Thunderbolt. E, ainda, essas não pareciam quaisquer peônias que Luce já tivesse visto. As flores eram tão grandes quanto palmas das mãos vertidas em conchas, e o cheiro a lembrava de algo que ela não conseguia exatamente identificar.
, Daniel dissera. Só que Luce não conseguia entender exatamente pelo o quê.