Prólogo - No começo
HELSTON, INGLATERRA
SETEMBRO DE 1854
Por volta da meia-noite, os olhos dela por fim tomaram forma. O olhar neles era felino, parcialmente determinado e parcialmente tentador – totalmente encrenca. Sim, eles estavam exatamente certos, aqueles olhos. Levantando-se até suas sobrancelhas refinadas e elegantes, a centímetros da cascata negra de seu cabelo.
Ele segurou o papel na distância de um braço para avaliar seu progresso. Era difícil, trabalhar sem ela na sua frente, mas também, ele nunca pôde desenhar em sua presença. Desde que tinha chegado de Londres – não, desde que ele a viu pela primeira vez – ele tinha que cuidar para sempre mantê-la à distância.
A cada dia agora ela lhe abordava, cada dia era mais difícil do que o anterior. Era por isso que ele ia partir de manhã – para a Índia, para as Américas, ele não sabia e nem ligava. Onde quer que ele acabasse, seria mais fácil do que estar aqui.
Ele se inclinou sobre seu desenho, novamente, suspirando enquanto usava seu dedão para aperfeiçoar o biquinho de carvão vegetal borrado de seu lábio inferior. O papel sem vida, impostor cruel, era a única maneira de levá-la com ele. Então, se endireitando na cadeira de couro da biblioteca, ele sentiu. O roçar de calor na sua nuca.
Ela.
Sua mera proximidade deu a ele a sensação mais peculiar, como o tipo de calor quando uma tora vira cinzas numa fogueira. Ele sabia sem se virar. Ela estava lá. Ele cobriu seu retrato nos papéis encadernados em seu colo, mas não podia escapar dela.
Seus olhos caíram para o sofá acolchoado de marfim do outro lado da sala de visitas, onde somente horas mais cedo ela tinha aparecido inesperadamente, mais tarde do que o resto de sua comitiva, em um vestido de seda rosa, para aplaudir a filha mais velha de seu hospedeiro, após uma boa apresentação musical. Ele olhou para o outro lado da sala, da janela para a varanda, onde no dia anterior ela tinha se insinuado até ele, um punhado de peônias selvagens brancas em sua mão. Ela ainda achava que a atração que ela sentia em relação a ele era inocente, que seus frequentes encontros no gazebo eram meras... felizes coincidências. Era tão ingênua! Ele lhe nunca lhe contaria outra coisa – o segredo era dele para suportar.
Ele ficou de pé e se virou, os retratos deixados para trás na cadeira de couro. E lá estava ela, pressionada contra a cortina de veludo rubi em seu simples vestido branco. Seu cabelo negro tinha se soltado de sua trança. O olhar em seu rosto era o mesmo que ele tinha desenhado tantas vezes. Havia fogo queimando em suas bochechas. Ela estava brava? Envergonhada? Ele ansiava saber, mas não podia se permitir a perguntar.
— O que está fazendo aqui? — Ele conseguia ouvir o rosnado em sua voz, e se arrependeu de sua aspereza, sabendo que ela nunca entenderia.
— Eu... não consegui dormir — ela gaguejou, se movendo na direção do fogo e da cadeira dele. — Eu vi a luz acesa no seu quarto e então... — ela pausou, olhando para baixo para suas mãos — sua mala está do lado de fora da porta? Você vai a algum lugar?
— Eu ia te contar... — Ele parou.
Ele não devia mentir. Nunca tivera intenção de deixá-la saber de seus planos. Contar a ela só pioraria as coisas. Certo, ele tinha deixado as coisas irem longe demais, esperando que dessa vez fosse diferente.
Ela chegou mais perto, e seus olhos caíram para seu caderno de retratos.
— Você estava me desenhando?
Seu tom assustado o lembrava do quanto a diferença de entendimento era grande entre eles. Mesmo depois de todo o tempo que eles tinham passado juntos nessas últimas semanas, ela não tinha ainda começado a vislumbrar a verdade que estava por trás da atração deles.
Isso era bom – ou, pelo menos, era para o melhor. Pelos últimos dias, desde que ele escolhera ir embora, ele estivera lutando para se afastar dela. O esforço exigia tanto dele que, assim que ficava sozinho, ele tinha que ceder ao seu desejo reprimido de desenhá-la. Ele tinha enchido seu caderno com páginas do pescoço arqueado dela, de sua clavícula de mármore, do abismo negro de seu cabelo.
Agora, ele olhava de volta para seu desenho, não envergonhado por ser pego desenhando-a, mas pior. Um arrepio gelado espalhou-se por ele enquanto ele percebia que a descoberta dela – a exposição dos sentimentos dele – destruiriam-na. Ele deveria ter sido mais cuidadoso. Sempre começava assim.
— Leite quente com uma colherada de melado — ele murmurou suas costas ainda para ela. Então ele acrescentou tristemente. — Ajuda a dormir.
— Como você sabia? Ora, era exatamente isso que a minha mãe costumava...
— Eu sei — ele disse, virando-se para encará-la.
O assombro em sua voz não o surpreendeu, ainda assim, ele não conseguia explicar a ela como sabia, ou dizer a ela quantas vezes ele tinha administrado essa mesma bebida para ela no passado quando as sombras chegavam, como ele tinha segurado-a até que ela caísse no sono.
Ele sentiu seu toque como se estivesse queimando pela sua camisa, sua mão descansava gentilmente em seu ombro, fazendo-o arfar. Eles ainda não tinham se tocado nessa vida, e o primeiro contato sempre o deixava sem fôlego.
— Reponda-me — ela sussurrou. — Você está partindo?
— Sim.
— Então me leve com você — ela deixou escapar.
Bem à deixa, ele observou-a puxar sua respiração, desejando retirar sua súplica. Ele conseguia ver a progressão de suas emoções se assentarem no vinco entre seus olhos. Ela se sentiria impetuosa, então desnorteada, depois envergonhada por sua própria audácia. Ela sempre fazia isso, e por vezes demais, anteriormente ele cometera o erro de confortá-la nesse momento exato.
— Não — ele sussurrou, se lembrando... sempre se lembrando... — Eu zarpo amanhã. Se você ao menos se importa comigo, não dirá outra palavra.
— Se eu me importo com você — ela repetiu, quase como se estivesse falando consigo mesma. — Eu... eu amo
— Não.
— Eu tenho que dizer isso. Eu – eu te amo, estou bem certa, e se você for embora...
— Se eu for embora, eu salvo sua vida.
Ele falava devagar, tentando alcançar uma parte dela que pudesse se lembrar. Isso ao menos estava lá, enterrado em algum lugar?
— Algumas coisas são mais importantes do que o amor. Você entenderá, mas tem que confiar em mim.
Seus olhos o perfuraram. Ela recuou e cruzou seus braços sobre seu peito. Isso era culpa dele, também – ele sempre despertava o lado desdenhoso dela quando falava com ela.
— Você quer dizer que há coisas mais importantes que isso? — ela desafiou, tomando as mãos dele e atraindo-as para seu coração.
Ah, ser ela e não saber o que iria acontecer! Se pelo menos fosse mais forte que ele e capaz de pará-la. Se ele não a parasse, ela nunca aprenderia, e o passado simplesmente se repetiria, torturando-os de novo e de novo.
O calor familiar da pele dela debaixo das mãos dele o fez inclinar sua cabeça para trás e gemer. Ele estava tentando ignorar o quanto ela estava perto, o quanto ele conhecia bem a sensação dos lábios dela nos dele, o quanto amargamente ele sentia que tudo isso tinha que acabar. Mas os dedos dela traçavam os dele tão levemente. Ele conseguia sentir o coração dela correndo por seu fino vestido de algodão.
Ela estava certa. Não havia nada além disso. Nunca houvera. Ele estava prestes a ceder e tomá-la em seus braços quando capturou o olhar em seus olhos. Como se ela tivesse visto um fantasma. Foi ela que se afastou, uma mão em sua testa.
— Estou tendo uma sensação muito estranha — ela suspirou.
Não – já era tarde demais?
Seus olhos se estreitaram para o formato do retrato dele e ela voltou a ele, suas mãos em seu peito, seus lábios separados esperançosamente.
— Diga que eu estou louca, mas eu juro que estivesse bem aqui antes...
Então era tarde demais. Ele olhou para cima, estremecendo, e conseguiu sentir a escuridão descendo. Ele aproveitou a última oportunidade de agarrá-la, de segurá-la tão apertadamente quanto estivera desejando há semanas.
Assim que os lábios dela derreteram nos dele, ambos ficaram impotentes. O gosto de madressilva da boca dela o deixou tonto. Quanto mais perto ela se pressionava contra ele, mais seu estômago agitava-se com a animação e a agonia disso tudo. A língua dela traçou a dele, e o fogo entre eles queimou mais ardentemente, mais quente, mais poderoso com cada toque novo, com cada nova exploração. Ainda assim, nada disso era novo.
A sala estremeceu. Uma aura ao redor deles começou a brilhar. Ela não notou nada, não estava ciente de nada, não entendia nada além do beijo deles. Somente ele sabia o que estava prestes a acontecer, que companhia sombrias estavam prestes a abater-se na reunião deles. Apesar de ele ser incapaz de mudar o curso da vida deles mais uma vez, ele sabia.
As sombras circularam diretamente acima. Tão perto, que ele poderia ter tocado-as. Tão perto, que ele se perguntava se ela conseguia ouvir o que elas estavam sussurrando. Ele observou a medida em que a nuvem passou pelo rosto dela. Por um momento ele viu um relampejo de reconhecimento crescer nos olhos dela.
Então não havia mais nada, nada mesmo.CAPITULO 1 :PERFEITOS ESTRANHOS
Luce movimentou-se pesadamente para dentro de uma sala iluminada com lâmpadas fluorescentes do Colégio Sword & Cross dez minutos depois do que deveria. Um acompanhante com peito em formato de barril, bochechas vermelhas e uma prancheta presa sobre bíceps de ferro já estava dando ordens – o que significava que Luce estava atrasada.
— Então se lembrem: são remédios, camas e vermelho — o acompanhante rosnou para um grupo de três estudantes, todos de costas para Luce. — Se lembrem do básico e ninguém se machuca.
Luce escorregou rapidamente para trás do grupo. Ela ainda estava tentando descobrir se ela tinha preenchido a gigante pilha de papel corretamente, se esse guia de cabeça raspada parado na frente deles era um homem ou uma mulher, se havia alguém para ajudá-la com sua enorme bolsa de tecido, se seus pais iriam se livrar de seu amado Plymouth Fury no minuto que eles chegassem em casa, depois que a deixaram ali.
Eles vinham ameaçando vender o carro durante todo o verão, e agora eles tinham uma razão que Luce não poderia argumentar contra: ninguém podia ter um carro na nova escola de Luce. Sua nova escola reformatória para ser preciso. Ela ainda estava se acostumando com o termo.
— Você poderia, hum, você poderia repetir isso? — Ela perguntou para o acompanhante. — O que era, remédios...?
— Bem, olhe o que a tempestade trouxe — o acompanhante disse em voz alta, então continuou, enunciando devagar. — Remédios. Se você é um dos alunos medicados, é onde você deve ir para manter-se dopada, sã, respirando, ou seja lá o que for.
Mulher, Luce decidiu, estudando a acompanhante. Nenhum homem poderia ser malicioso o suficiente para dizer tudo isso nesse tom de voz zombador.
— Saquei — Luce sentiu seu estômago agitar-se — remédios.
Ela tinha se desligado dos remédios por anos agora. Depois do acidente no verão passado, Dr. Sanford, seu especialista em Hopkinton – e a razão de seus pais a mandarem para internatos lá em New Hampshire – havia considerado medicá-la mais uma vez. Embora ela o tenha convencido de sua quase-estabilidade, isso a fez ter um mês extra de análise da parte dela, só para ficar longe daqueles terríveis antipsicóticos.
Este era o motivo pelo qual ela estava se registrando em seu último ano no Colégio Sword & Cross um mês depois das aulas começarem. Ser aluno novo já era ruim o suficiente, e Luce estava nervosa o suficiente para entrar em turmas onde todos já estavam fixados. Mas pelo que parecia depois de sua excursão, ela não era a única novata chegando aquele dia.
Ela deu uma olhadinha furtiva para os outros três alunos em meio círculo em volta dela. Em sua última escola, Dover Prep, na excursão pelo campus foi onde ela achou sua melhor amiga, Callie. Em um campus onde todos os outros estudantes foram praticamente desmamados juntos, isso havia sido o suficiente que Luce e Callie fossem as duas únicas crianças sem legado. Mas não demorou muito para elas perceberem que tinham a mesma obsessão pelos mesmos filmes antigos – especialmente os relacionados com Albert Finney. Após a descoberta delas no primeiro ano enquanto assistiam Two for the Road que elas não podiam fazer um saco de pipoca sem ativar o alarme de incêndio, Callie e Luce nunca mais se separaram. Até... Até que elas tiveram que se separar.
Do lado de Luce hoje havia dois caras e uma garota. A garota era bem fácil de se enturmar, loira e com a beleza de comercial de cosméticos, com unhas bem feitas na cor rosa-pastel que combinava com sua pasta de plástico.
— Eu sou Gabbe — ela falou lentamente, lançando a Luce um grande sorriso que desapareceu tão rápido quanto surgiu, depois que Luce não disse seu próprio nome.
O desinteresse da menina lembrou-lhe mais uma versão sulista das meninas da Dover do que alguém que ela esperava na Sword & Cross. Luce não conseguia se decidir se isso era reconfortante ou não, ainda mais imaginar o que uma menina como aquela fazia numa escola reformatória.
À direita de Luce havia um garoto com cabelo castanho curto, olhos castanhos e sardas em volta do nariz. Mas o jeito que ele não olhava nos olhos dela, escolhendo cutucar a cutícula de seu polegar, deu a ela a impressão de que ele provavelmente estava atordoado e com vergonha de encontrar-se aqui.
O garoto à sua esquerda, por outro lado, preenchia a imagem da Luce deste lugar um pouco perto perfeitamente demais. Ele era alto e magro, com uma bolsa de DJ a tiracolo, cabelo preto desgrenhado, e grandes e profundos olhos verdes. Seus lábios eram carnudos e de um rosa natural que muitas garotas matariam para ter. Na parte detrás de seu pescoço uma tatuagem preta com formato de raios de sol parecia quase brilhar em sua pele clara, levantando-se a partir da borda de sua camiseta preta.
Diferente dos outros dois, quando esse cara se virou para encontrar seu olhar, ele o segurou e não deixou soltar. Sua boca foi definida em uma linha reta, mas seus olhos eram quentes e vivos. Ele a contemplava, de pé como uma escultura, que fez Luce se sentir enraizada em seu lugar também. Aqueles olhos eram intensos e sedutores, e bem, um pouco desarmantes.
Com um pigarro alto na garganta, a acompanhante interrompeu o transe. Luce corou e fingiu estar muito ocupada coçando a cabeça.
— Aqueles que entenderam o funcionamento estão livres para sair depois que deixarem aqui seus pertences de risco — a acompanhante apontou para uma grande caixa de papelão sob uma placa que dizia em grandes letras pretas MATERIAIS PROIBIDOS. — E quando eu digo livre, Todd — ela fechou a mão para baixo no ombro do garoto sardento, o que o fez pular. — Eu quis dizer dentro dos limites do ginásio, para encontrar o estudante predestinado para ser seu guia. Você — ela apontou para Luce — despeje seus pertences e fique comigo.
Quatro dos estudantes se juntaram em volta da caixa e Luce assistiu, perplexa, como os outros alunos começavam a esvaziar seus bolsos. A menina puxou um canivete suíço rosa de sete centímetros. O cara de olhos verdes relutantemente sacou uma lata de spray de tinta e um estilete. Até o infeliz Todd teve de deixar várias caixas de fósforos e um pequeno recipiente de fluído de luz.
Luce se sentiu quase estúpida por ela mesma não estar escondendo nada perigoso – mas quando ela viu os outros depositarem seus celulares dentro da caixa, ela engoliu em seco.
Inclinando-se para ler a placa de MATERIAIS PROIBIDOS mais de perto, ela viu que celulares, pagers e todos os dispositivos de rádios bidirecionais estavam estritamente proibidos. Já era ruim o suficiente que ela não poderia ter o seu carro! Luce fechou a mão suada em torno do celular em seu bolso, sua única ligação com o mundo exterior. Quando a acompanhante viu a expressão em seu rosto, Luce recebeu pequenos tapinhas na bochecha.
— Não desmaie comigo, querida. Eles não me pagam o suficiente para fazer ressucitação. Além disso, você tem direito a uma ligação telefônica por semana no átrio principal.
Uma ligação? Por semana? Mas...
Ela olhou para seu telefone mais uma vez e viu que havia recebido mais duas mensagens de texto. Não parecia possível que essas seriam suas duas últimasmensagens de texto. A primeira era de Callie.
Me liga imediatamente! Estarei esperando ao lado do telefone a noite toda, então, esteja pronta. E se lembre do mantra que eu te ensinei: Você vai sobreviver! De qualquer forma, se isso importar, eu acho que todo mundo esqueceu sobre...
Do jeito típico de Callie, ela havia ido tão longe que o celular de Luce cortou quatro linhas da mensagem. De qualquer forma, Luce estava aliviada. Ela não queria ler sobre como todos em sua antiga escola haviam finalmente esquecido o que havia acontecido com ela. O que a fez vir parar nesse lugar.
Ela suspirou e abriu sua segunda mensagem. Era de sua mãe, que só havia aprendido a enviar torpedos há algumas semanas e que certamente não sabia sobre aquela coisa de uma-ligação-por-semana.
Querida, nós estaremos sempre pensando em você. Seja boa e tente comer proteína o suficiente. Nos falamos quando pudermos. Amor, M&P
Com um suspiro, Luce percebeu que seus pais deveriam saber. O que mais poderia explicar suas expressões elaboradas quando ela deu um tchauzinho do portão da escola essa manhã, com sua mala em mãos? No café da manhã, ela havia tentado fazer piada sobre finalmente perder esse terrível sotaque de New England que ela havia adquirido na Dover, mas os seus pais não esboçaram nenhum sorriso. Ela pensou que eles continuavam chateados com ela. Eles nunca haviam feito completamente aquela coisa de elevar a voz, então quando Luce estragou tudo, eles deram a ela o tratamento do silêncio. Agora ela entendia o estranho comportamento dessa manhã: seus pais estavam de luto pela perda de contato com sua única filha.
— Nós estamos esperando apenas uma pessoa — a acompanhante disse. — Eu me pergunto quem é.
A atenção de Luce voltou para a caixa de riscos, que agora estava transbordando de itens contrabandeados que ela não conseguia reconhecer. Ela podia sentir o cara de cabelos negros com seus olhos verdes fixos nela. Ela olhou em volta e viu que todo mundo estava com os olhos fixos. Sua vez. Ela fechou seus olhos e lentamente abriu sua mão, deixando seu celular escorregar e ganhar terreno no topo da pilha. O som de ficar completamente sozinha.
Todd e a robótica Gabbe dirigiram-se para a porta sem nada além um olhar na direção de Luce, mas o terceiro cara se virou para o acompanhante.
— Eu sou capaz de informá-la — disse ele, assentindo para Luce.
— Não faz parte do nosso acordo — a acompanhante replicou automaticamente, como se estivesse esperando esse diálogo. — Você é um novo estudante de novo – o que significa restrições de aluno novo. De volta para o nível um. Se você não gosta disso, deveria ter pensado antes de quebrar a sua condicional.
O garoto permaneceu imóvel, inexpressivo, quando a acompanhante rebocou Luce – que endureceu com o “condicional” – até o fim de um corredor amarelo.
— Mexa-se — ela incitou, como se nada tivesse acontecido. — Camas.
Ela apontou para a janela oeste de um prédio de concreto cinza. Luce podia ver Gabbe e Todd misturarem-se devagar em direção deles, com o terceiro garoto andando devagar, como se alcançá-los fosse a última coisa em sua lista de coisas a fazer.
Os dormitórios eram formidáveis e quadrados, um sólido prédio cinza cujas portas duplas não davam nada sobre a possibilidade de vida dentro delas. Uma grande placa de pedra permanecia plantada no meio do gramado morto, e Luce se lembrou do website as palavras DORMITÓRIO PAULINE esculpidas dentro dele. Parecia mais feio naquela manhã de sol confusa do que na plana foto preto-e-branca.
Mesmo nessa distância, Luce podia ver o bolor negro cobrindo a frente do dormitório. Todas as janelas estavam obstruídas por uma carreira de grossas barras de aço. Ela entortou os olhos. O que era aquele arame farpado em torno do prédio?
A acompanhante olhou para a lista, folheando o arquivo de Luce.
— Quarto sessenta e três. Deixe sua bolsa em meu escritório com o resto deles por agora. Você pode desfazer essa tarde.
Luce arrastou sua mala vermelha rumo a outras três malas pretas sem classificação. Então ela chegou a refletir sobre seu celular, onde ela costumava colocar as coisas que precisava lembrar. Mas, enquanto sua mão procurava em seu bolso vazio, ela suspirou e se comprometeu a gravar o número do quarto na memória.
Ela ainda não entendia a razão pela qual não podia ficar com seus pais; sua casa em Thunderbolt ficava a menos de uma hora da Sword & Cross. Ela havia se sentido tão bem em sua casa em Savannah, onde, como sua mãe sempre dizia, até o vento soprava preguiçosamente. O lugar mais suave da Georgia, tinha o ritmo adequado ao jeito de Luce mais do que New England nunca teve. Mas a Sword & Cross não era como Savannah. Era quase como um lugar qualquer, exceto pelo fato de ser um lugar sem vida e sem cor, onde o tribunal a havia colocado hospedada.
Ela havia escutado seu pai no telefone com o diretor outro dia, concordando em seu jeito confuso e fala de professor de Biologia, “Sim, sim, talvez seja melhor para ela ser supervisionada todo tempo. Não, não, nós não queremos interferir no seu sistema.”
Claramente, seu pai não havia visto as condições de supervisão de sua filha única. Esse lugar parecia uma prisão de segurança máxima.
— E sobre, como você disse... os vermelhos? — Luce perguntou para a acompanhante, pronta para ser liberada da excursão.
— Vermelhos — a acompanhante repetiu, apontando para um pequeno fio do teto: lentes com uma luz piscante vermelha.
Luce não havia visto isso antes, mas assim que a acompanhante apontou a primeira, ela pode notar que estavam em todo lugar.
— Câmeras?
— Muito bem — a acompanhante falou, a voz gotejando condescendência. — Nós a deixamos evidentes a fim de lembrá-los. Todo tempo, a todo momento, nós a observamos. Então, não estrague... quer dizer, se você puder evitar.
Todo o tempo, todos falavam com Luce como se ela fosse uma completa psicopata, e ela estava bem perto de acreditar que isso era uma verdade.
Por todo o verão, as memórias a vinham assustando, em seus sonhos e nos raros momentos em que seus pais a deixavam sozinha. Alguma coisa havia acontecido no chalé, e todo mundo (incluindo Luce) estava morrendo para saber exatamente o quê. A polícia, o juiz, o assistente social, haviam todos tentado forçar a verdade dela, mas ela não sabia nada tanto quanto eles. Ela e Trevor haviam brincado a tarde inteira, perseguindo um ao outro pela fileira de chalés em volta do lago, longe do resto da festa. Ela tentou explicar que essa havia sido a melhor noite de sua vida, até se tornar a pior.
Ela gastou muito tempo repassando aquela noite em sua mente, ouvindo a risada de Trevor, sentindo suas mãos em volta de sua cintura, e tentar conciliar seus instintos de que ela era realmente inocente.
Mas agora, cada regra e regulamento da Sword & Cross parecia trabalhar contra esse pensamento, parecia sugerir que ela era, de fato, perigosa e precisava ser controlada. Luce sentiu uma mão firme em seu ombro.
— Olha — a acompanhante disse — se isso a faz se sentir melhor, você está longe de ser o pior caso aqui.
Foi o primeiro gesto humano que ela demonstrou a Luce, o que a fez acreditar que ela queria fazê-la se sentir melhor. Mas... Ela havia sido mandada para cá por causa da suspeita morte do cara por quem ela era louca, e ela estava “longe de ser o pior caso”? Luce se perguntou com o que exatamente eles lidavam na Sword & Cross.
— Ok. A orientação terminou. Você está por sua conta agora. Aqui está um mapa se você precisar encontrar algo a mais. — Ela deu a Luce uma cópia de um bruto mapa desenhado à mão, então olhou para seu relógio. — Você tem uma hora até sua primeira aula, mas as minhas novelas começam as cinco, então... — ela balançou sua mão para Luce — Mantenha-se direita. E não se esqueça — ela disse, apontando para as câmeras mais uma vez — Os vermelhos estão de olho em você.
Antes que Luce pudesse responder, uma garota magra, de cabelos negros apareceu à sua frente, abanando seus dedos longos na face de Luce.
— Ooooh — a garota zombou com uma voz fantasmagórica, dançando em volta de Luce em círculos. — Os vermelhos estão de olho em vocêêêê.
— Sai daqui, Ariane, antes que eu tenha que lobotomizá-la — a acompanhante disse, embora fosse claro por seu breve, mas genuíno, sorriso que ela possuía alguma bruta afeição pela garota louca.
E estava claro que Ariane não era recíproca ao amor. Ela fez um gesto obsceno para a acompanhante, então parou na frente de Luce, a enfrentando para que ficasse ofendida.
— E só por isso — a acompanhante disse, anotando furiosamente em seu caderninho — você ganhou a tarefa de mostrar tudo em volta para a pequena Miss Sunshine hoje.
Ela apontou para Luce, que parecia qualquer coisa, menos ensolarada, com seus jeans pretos, botas pretas e top preto. Na seção do “código de vestimenta”, o website da Sword & Cross falava alegremente que enquanto os alunos tivessem bom comportamento, eles estavam livres para vestir o que quisessem, porém, com duas condições: o estilo deve ser modesto e as roupas deviam ser pretas. Muita liberdade.
A blusa de gola tartaruga que sua mãe a havia forçado a usar não fazia nada pelas suas curvas, e até sua melhor forma havia sumido: seu grosso cabelo preto, que costumava cair sobre sua cintura, havia sido completamente destruído. O fogo do chalé havia queimado seu couro cabeludo e deixado seu cabelo desigual, então depois da longa, silenciosa viagem de Dover para casa, sua mãe a colocara na banheira, trouxe o barbeador elétrico do pai e sem nenhuma palavra raspou sua cabeça. Durante o verão, seu cabelo havia crescido um pouco, apenas o suficiente para que suas ondas, outrora invejáveis, agora pairassem logo abaixo de suas orelhas.
Ariane a avaliou, dando um tapa com um dedo contra seus finos lábios pálidos.
— Perfeito — ela disse, dando um passo a frente para colocar seus braços em volta de Luce. — Eu estava realmente pensando que eu poderia usar uma nova escrava.
A porta do salão abriu e entrou o menino de olhos verdes. Ele balançou a cabeça e disse para Luce:
— Esse lugar não liga de te despir para fazer uma revista. Então, se você está guardando qualquer outro risco — ele ergueu uma sobrancelha e um punhado de objetos desconhecidos da caixa — salve-se dos perigos.
Atrás de Luce, Ariane prendia o riso. O cara virou a cabeça e quando seus olhos registraram Ariane, ele abriu sua boca e a fechou novamente, como se não tivesse certeza do que fazer.
— Ariane — ele falou uniformemente.
— Cam — ela replicou.
— Você o conhece? — Luce sussurrou, se perguntando se havia o mesmo tipo de facções em escolas reformatórias como haviam na Dover.
— Não me lembre — Ariane disse, arrastando Luce para fora da porta, dentro da cinza e alagada manhã.
Os fundos do prédio principal davam em uma calçada lascada, em volta de um campo bagunçado. A grama estava tão comprida que parecia mais um terreno baldio que uma área pública de uma escola, mas um desbotado placar e arquibancadas de madeira provavam o contrário.
Por trás do contorno do lugar, havia quatro prédios de aparência severa: o dormitório longe à direita; uma gigante, feia e velha igreja à extrema esquerda e outras duas grandes estruturas no meio deles, que Luce imaginou serem as salas de aula.
Era isso. Seu mundo inteiro estava reduzido àquela triste visão de seus olhos.
Ariane imediatamente desviou do caminho direito e levou Luce ao campo, sentando no alto de uma das arquibancadas de madeira molhadas.
A estrutura correspondente em Dover gritava Atleta da Ivy League em formação, então Luce sempre havia evitado ficar lá. Mas esse campo vazio, com essas enferrujados, deformados traves, contava uma história completamente diferente. Uma que não foi fácil para Luce descobrir. Três urubus turcos passaram acima de sua cabeça, e um vento triste chicoteou sobre os galhos nus dos carvalhos. Luce estremeceu e abaixou seu queixo para dentro da gola de tartaruga.
— Então — Ariane começou — agora você conheceu Randy.
— Eu pensei que fosse Cam.
— Eu não estou falando dele — Ariane disse rapidamente — a mulher-macho daqui. — Ariane virou a cabeça para o escritório onde elas haviam deixado a acompanhante vendo TV. — Que que 'cê acha? Homem ou mulher?
— Hm... Mulher? — Luce tentou. — Isso é um teste?
Ariane esboçou um sorriso.
— O primeiro de muitos. E você passou. Pelo menos, eu acho que você passou. O gênero da maioria do corpo docente daqui é um debate escolar em curso. Não se preocupe, você vai entrar nele.
Luce achou que Ariane estava fazendo uma piada – nesse caso, legal. Mas isso tudo era como uma enorme mudança da Dover. Em sua antiga escola, as gravatas-verdes-esgotantes, os engomados futuros senadores praticamente escorriam pelos corredores, no requintado silêncio que o dinheiro parecia passar acima de tudo.
Mais do que nunca, o pessoal da Dover lançava a Luce olhares tortos de não-suje-as-paredes-brancas-com-suas-impressões. Ela tentou imaginar Ariane lá: se espreguiçando nas arquibancadas, fazendo uma alta, bruta piada com sua voz mordaz. Luce tentou imaginar o que Callie pensaria de Ariane. Nunca havia ninguém como ela na Dover.
— Okay, desembucha — Ariane ordenou.
Pulando da arquibancada mais alta e apontando para que Luce se juntasse a ela
— O que cê fez para entrar aqui?
O seu tom de voz era brincalhão, mas de repente Luce teve que se sentar. Era ridículo, mas ela meio que esperava passar por seu primeiro dia de aula sem seu passado vindo a mente, roubando sua fina fachada de calma. É claro que as pessoas aqui vão querer saber.
Ela pôde sentir o sangue arranhar suas têmporas. Acontecia sempre que ela tentava pensar voltar – realmente voltar – àquela noite. Ela nunca parou de se sentir culpada com o que havia acontecido a Trevor, mas ela também tentava duramente não ficar atolada nas sombras que, por agora, eram a única coisa que ela se lembrava do acidente. Aquela escuridão, as coisas indefinidas que ela nunca poderia contar para ninguém.
Risque isso – ela começou a contar a Trevor a presença peculiar que sentiu naquela noite, sobre as curvas retorcidas sobre suas cabeças, tentando assombrar sua noite perfeita. É claro, então já era tarde demais. Trevor se foi, seu corpo queimado e irreconhecível, e Luce era... Ela era... Culpada?
Ninguém sabia sobre as tenebrosas formas que ela havia visto no escuro. Elas sempre vinham para ela. Elas iam e vinham há tanto tempo que Luce não conseguia se lembrar a primeira vez que as vira. Mas ela se lembrava da primeira vez que ela percebeu que as sombras não vinham para todos – ou na verdade, para ninguém além dela. Quando ela tinha sete anos, sua família estava de férias em Hilton Head e seus pais a levaram em uma passeio de barco. Estava perto do pôr-do-sol quando as sombras começaram a ondular sobre a água, e ela se virou para seu pai e disse “O que você faz quando elas aparecem, pai? Porque você não se assusta com os monstros?”
Não haviam monstros, seus pais a asseguraram, mas Luce repetia insistentemente a presença de alguma coisa oscilante e negra que a levou a várias consultas com o oftalmologista da família, e depois óculos, e depois consultas com o médico de ouvido depois dela fazer uma errônea descrição do som rouco de vento soprando forte que as sombras faziam algumas vezes – e depois, terapia, e depois, mais terapia, e finalmente a prescrição de remédios antipsicóticos. Mas nada os fazia ir embora.
Quando ela fez catorze, Luce se recusou a tomar seus remédios. Foi quando eles encontraram o Dr. Sanford e a Dover School perto. Eles voaram para New Hampshire, e seu pai dirigiu seu carro alugado por uma rodovia longa e sinuosa para a mansão no topo da colina chamada Shady Hollows. Eles colocaram Luce de frente para um homem de jaleco e a perguntaram se ela continuava tendo suas “visões”. A palma das mãos de seus pais estavam suando, enquanto eles agarravam as mãos, sobrancelhas franzidas com o medo de que houvesse algo terrivelmente errado com sua filha.
Ninguém veio e disse que se ela dissesse para o Dr. Sanford o que eles queriam que ela dissesse, ela provavelmente estaria vendo muito mais da Shady Hollows. Quando ela mentia e agia normalmente, ela estava permitida a frequentar a Dover e só tinha que visitá-lo uma vez ao mês.
Luce tinha sido permitida de parar de tomar as horríveis pílulas assim que começou a fingir que não via mais as sombras. Mas ela continuava sem ter controle sobre elas quando apareciam.
Tudo o que ela sabia era que o catálogo mental dos lugares que eles apareceram para ela no passado – florestas densas, águas turvas – se tornaram os lugares que ela evitava a todo custo.
Tudo o que ela sabia era que quando as sombras vinham, elas estavam acompanhadas de um calafrio gelado sobre sua pele, um repugnante sentimento diferente de qualquer outra coisa.
Luce sentou de pernas abertas em uma das arquibancadas e segurou suas têmporas entre seus polegares e dedos médios. Se ela queria fazer aquilo completamente hoje, ela tinha que colocar seu passado em recesso na sua mente. Ela não conseguia sondar sua memória daquela noite por ela mesma, então não havia nenhum jeito dela arejar todos os detalhes horríveis para algum esquisito, maníaco estranho.
Em vez de responder, ela observou Ariane, que estava deitada de costas para as arquibancadas, um par de enormes óculos escuros esportivos cobrindo o melhor da sua face. Era difícil afirmar, mas ela estava olhando para Luce, também, porque, depois de um segundo, ela se levantou das arquibancadas e sorriu.
— Corte meu cabelo como o seu.
— O quê? — Luce engasgou. — Seu cabelo é lindo.
Era verdade: Ariane tinha um longo, pesado cabelo, que Luce tinha perdido desesperadamente. Seus cachos negros soltos brilhavam na luz do sol, ganhando um tom avermelhado. Luce enfiou seu cabelo atrás das orelhas, mesmo que ele ainda não fosse longo o bastante para fazer qualquer coisa exceto bater de volta na frente deles.
— Linda porcaria — Ariane disse. — O seu é sexy, moderno. E eu quero ele.
— Oh, um, okay.
Seria isso um elogio? Ela não sabia se deveria estar lisonjeada ou enervada com o jeito que Ariane assumiu que poderia ter o que desejasse, até quando isso pertencia a outra pessoa.
— Onde nós vamos conseguir...
— Tcharã — Ariane abriu sua bolsa e tirou de lá o canivete suíço rosa que Gabbe havia deixado na caixa de perigos. — Que foi? — ela disse, vendo a reação de Luce. — Eu sempre mantenho meu dedo pegajoso no dia que os novos estudantes tem que se livrar dessas coisas. A ideia sozinha me veio em meus dias de cão no entretenimento da Sword & Cross... Hm... Acampamento de verão.
— Você passa o verão inteiro... Aqui? — Luce estremeceu.
— Há! Falando como uma verdadeira novata! Você provavelmente está esperando umas férias de primavera. — Ela atirou para Luce o canivete suíço. — Nós não vamos deixar esse inferno. Nunca. Agora corte.
— E as câmeras? — Luce perguntou, olhando em volta, com o canivete em mãos.
Haveria câmeras em algum lugar aqui.
Ariane sacudiu a cabeça.
— Me recuso a me associar com maricas. Você pode lidar com isso ou não?
Luce assentiu.
— E não me diga que você nunca cortou um cabelo antes. — Ariane agarrou o canivete suíço por trás de Luce, puxou a ferramenta de tesoura e entregou-o de volta. — Nenhuma outra palavra até você me dizer o quão fantástica fiquei.
No “salão” da banheira de seus pais, a mãe de Luce havia puxado os restos de seu longo cabelo em um bagunçado rabo de cavalo, antes de jogar tudo aquilo fora. Luce estava certa de que havia um método mais estratégico de cortar cabelos, mas como alguém que evitara cortes de cabelo durante toda a vida, a técnica do rabo de cavalo era a única que conhecia. Ela recolheu o cabelo de Ariane em suas mãos, pegou o elástico que estava em volta de seu pulso, segurou a pequena tesoura firmemente e começou a cortar.
O rabo de cavalo caiu nos pés dela e Ariane sobressaltou-se e apanhou subitamente. Ela o pegou e segurou na direção do sol. O coração de Luce se comprimiu com a visão. Ela estava agonizando pelo seu próprio cabelo perdido, e todas as outras perdas que isso simbolizava. Mas Ariane só deixou um delicado sorriso espalhar pelos seus lábios. Ela correu os dedos pelo rabo de cavalo, e depois o jogou dentro da bolsa.
— Maravilhoso — ela disse. — Continue.
— Ariane — Luce sussurrou, antes que pudesse parar a si mesma. — Seu pescoço. Está todo...
— Cheio de cicatrizes? Você pode dizer isso.
A pele do pescoço de Ariane, desde a parte de trás de sua orelha direita até seu colar de ossos estava com reentrâncias, marmorizadas e brilhantes. A mente de Luce foi até Trevor – para aquelas horríveis imagens. Até seus próprios pais não a olharam depois do viram. Ela estava tendo um mal momento olhando para Ariane agora.
Ariane agarrou a mão de Luce e pressionou contra sua pele. Era quente e frio, ao mesmo tempo. Era liso e áspero.
— Eu não tenho medo disso — Ariane disse. — Você tem?
— Não — Luce respondeu, enquanto ela desejava que Ariane tirasse sua mão, então Luce poderia tirar a dela também. Seu estômago se contorceu quando ela se questionou se a pele de Trevor seria assim.
— Você tem medo do que realmente é, Luce?
— Não — Luce disse outra vez, rapidamente.
Deveria ser óbvio que ela estava mentindo. Ela fechou os olhos. Tudo que ela desejava da Sword & Cross era um novo começo, um lugar onde as pessoas não olhariam para ela como Ariane estava olhando agora. No portão da escola essa manhã, quando seu pai sussurrou o lema da família em seu ouvido – “Prices nunca quebram” – parecia possível, mas agora Luce sentia-se decaída e exposta. Ela tirou sua mão.
— Então, como isso aconteceu? — ela perguntou, olhando para baixo.
— Se lembra que eu não te pressionei sobre o que você fez para estar aqui? — Ariane perguntou, erguendo suas sobrancelhas.
Luce assentiu.
Ariane gesticulou para as tesouras.
— Arrume a parte de trás, ok? Talvez isso me faça parecer realmente bonita. Talvez me faça parecer com você.
Mesmo com o mesmo corte, Ariane permaneceria como uma versão subnutrida de Luce.
Enquanto Luce estava ocupada com seu primeiro corte de cabelo, Ariane explanava as complexidades da vida na Sword & Cross.
— Esse bloco de celas ali é Augustine. É lá onde nós temos nossos tão falados eventos sociais nas noites de quarta-feira. E todas as nossas aulas.
Ela apontou para a construção com cor de dente amarelado, dois prédios à direita do dormitório. Parecia que havia sido desenhado pelo mesmo sádico que desenhara o Pauline. Era tristemente quadrado, tristemente parecido com uma fortaleza, cercado pelo mesmo arame farpado e janelas com grades. Uma névoa cinza fazia as paredes parecerem camufladas por musgos, tornando impossível de ver se alguém estava lá.
— Aviso claro — Ariane continuou — você vai odiar as aulas aqui. Você não é humana se não odiar.
— Por quê? O que há de tão ruim com elas? — Luce perguntou.
Talvez Ariane apenas não gostasse de escola no geral. Com seu esmalte preto, delineador preto e a bolsa preta que parecia grande o suficiente para caber apenas o novo canivete suíço dela, ela não parecia exatamente estudiosa.
— Aqui você vai ver o ginásio de ponta — ela disse, assumindo um tom nasalado de guia turístico. — Sim, sim, para os olhos inexperientes parece uma igreja. Costumava ser. Nós temos um tipo de arquitetura de segunda mão na Sword & Cross. Alguns anos atrás, algum maluco por exercícios físicos apareceu falando besteira sobre como supermedicar os adolescentes arruína a sociedade. Ele doou uma tonelada de dinheiro de merda então eles transformaram a igreja num ginásio. Agora os poderosos podem pensar que a gente desconta nossas “frustrações” de um jeito mais “produtivo”.
Luce gemeu. Ela sempre detestou educação física.
— Garota do meu coração — Ariane se condoeu — Treinador Diante é di-a-bó-li-co.
Enquanto Luce se movimentou para acompanhar, ela reparou no resto do recinto. O complexo da Dover havia sido bem cuidado, tudo bem feito e pontilhado em espaços uniformes, árvores cuidadosamente podadas. Sword & Cross parecia que havia tudo caído subitamente e abandonado no meio de um pântano. Salgueiros cujos galhos apontavam para baixo balançavam para o chão, kudzu crescia pelo muro em lençóis, e todo o terceiro piso escutava o barulho do respingo.
E não era apenas a maneira que o local parecia. Cada respiração úmida de Luce permanecia presa em seus pulmões. Apenas respirar na Sword & Cross fazia ela se sentir como se estivesse atolando em areia movediça.
— Aparentemente os arquitetos entraram num impasse enorme sobre como melhorar o estilo dos prédios da antiga academia militar. O resultado é que nós acabamos em um lugar metade penitenciária, metade zona de tortura medieval. E sem jardineiro — Ariane disse, tirando um pouco de limo de seus coturnos. — Tosco. Oh, e aqui está o cemitério.
Luce seguiu Ariane apontando o dedo para a parte mais longe do lado esquerdo do terreno, após o dormitório. Um manto ainda mais espesso de névoa pairava sobre a porção de terra sem muros.
Era delimitado dos três lados por uma densa floresta de carvalhos. Ela não podia ver dentro do cemitério, que parecia quase afundar-se debaixo da superfície, mas ela podia sentir o cheiro da podridão e ouvir o coro de cigarras zumbindo nas árvores. Por um segundo, ela pensou que ouviu o silvo das sombras – mas ela piscou e eles se foram.
— Isso é um cemitério?
— Aham. Isso costumava ser uma academia militar, caminho de volta nos dias da Guerra Civil. Então era aqui que eles jogavam todos os seus mortos. É arrepiante como todos caem fora. E meu sinhô — Ariane disse, acumulando um falso sotaque sulista. — Isso fede até os céus!
Então, ela piscou para Luce.
— Nós ficamos lá pra caramba.
Luce olhou para Ariane para ver se ela estava brincando. Ariane só deu de ombros.
— Okay, foi só uma vez. E foi só depois de uma grande festa de medicamentos.
Ora, essa era uma palavra que Luce reconhecia.
— Há! Ariane riu. — Eu acabei de ver uma luz acender aí em cima. Então, alguém estáem casa. Bem, Luce, minha querida, você provavelmente foi a festas de internatos, mas você nunca viu como as crianças de reformatórios colocam tudo abaixo.
— Qual é a diferença? — Luce perguntou, tentando esconder o fato que ela nunca foi a nenhuma grande festa na Dover.
— Você vai ver — Ariane parou e se virou para Luce. — Você vem essa noite e fica lá, okay? — Ela surpreendeu Luce pegando sua mão. — Promete?
— Mas eu pensei que você disse que eu devia manter distância dos casos perigosos — Luce brincou.
— Regra número dois – Não me escute! — Ariane gargalhou, balançando a cabeça. — Eu sou com certeza louca!
Ela deu uma corridinha e Luce foi atrás dela.
— Espere, qual é a regra número um?
— Me acompanha!
***
Quando elas viraram a esquina das salas de aula de paredes de bloco de cimento, Ariane deu uma parada.
— Pareça legal — ela disse.
— Legal — Luce repetiu.
Todos os outros estudantes pareciam estar agrupados em volta das árvores estranguladas pelo kudzu do lado de fora do Augustine. Nenhum deles parecia exatamente feliz por estar do lado de fora, mas ninguém parecia exatamente pronto a entrar, também.
Nunca houve muito código de vestimenta na Dover, então Luce não estava acostumada com a uniformidade do corpo estudantil. Então, novamente, apesar de todos ali usarem os mesmos jeans pretos, blusas de gola alta pretas e suéteres pretos amarrados sobre seus ombros ou em volta da cintura, continuava havendo diferenças substanciais no jeito que eles o usavam.
Um grupo de garotas tatuadas paradas em um círculo cruzado usavam pulseiras até seus cotovelos. As bandanas pretas no cabelo delas lembrou a Luce um filme que ela viu uma vez sobre gangues femininas de motocliclistas. Ela alugou porque pensou: O que pode haver de mais legal que uma gangue de motoqueiros só de mulheres? Agora os olhos de Luce trancaram-se em uma das garotas no gramado. O estrabismo lateral da garota de olhos-de-gato delineados de preto fez Luce rapidamente mudar a direção de seu olhar.
Um cara e uma garota que estavam de mãos dadas tinham lantejoulas costuradas em formato de ossos cruzados nas costas de seus suéteres pretos. A cada poucos segundos, um dos dois puxava o outro pra um beijo nas têmporas, no lóbulo da orelha, nos olhos. Quando eles envolveram seus braços em volta um do outro, Luce pode ver que ambos usavam pulseiras de rastreamento que estavam piscando. Eles pareciam um pouco rudes, mas estava óbvio o quanto estavam apaixonados. Toda vez que ela via as argolas de suas línguas piscando, Luce sentia um aperto solitário beliscando seu peito.
Atrás dos namorados, um grupo de garotos loiros estava encostado contra a parede. Cada um deles usava seu suéter, apesar do calor. E todos eles tinham camisas oxford brancas por baixo, o colarinho engomado para cima. As barras remendadas de suas calças pretas batiam na beira de seus sapatos polidos, que calçavam perfeitamente. De todos os estudantes no perímetro, esses garotos pareciam para Luce os mais próximos do estilo da Dover. Mas um olhar mais aproximado rapidamente os diferenciava dos garotos que ela costumava conhecer. Os caras como Trevor.
Apenas estando em grupo, esses garotos radiavam um tipo especial de tenacidade. Estava bem ali no olhar de seus olhos. Era difícil de explicar, mas isso de repente surpreendeu Luce, que assim como ela, todos nessa escola tinham um passado. Todos aqui provavelmente possuíam segredos que não queriam compartilhar. Mas ela não sabia se essa descoberta a fazia se sentir mais ou menos isolada.
Ariane percebeu os olhos de Luce rondando os outros alunos.
— Nós todos fazemos o que podemos para sobreviver durante o dia — ela disse, encolhendo. — Mas no caso de você não ter observado os abutres aproveitadores, esse lugar cheira muito bem a morte.
Ela tomou um lugar em um banco debaixo de um salgueiro e afagou o lugar perto dela para Luce.
Luce afastou um amontoado de folhas molhadas em decomposição, mas logo antes dela sentar, ela notou outra violação do código de vestimenta.
Uma violação muito atraente.
Ele vestia uma brilhante echarpe vermelha em volta do seu pescoço. Estava longe de estar frio lá fora, mas ele tinha uma jaqueta de couro preta de motociclista em cima de seu suéter preto, também. Talvez fosse porque ele era o único ponto de cor no perímetro, mas ele era tudo que Luce podia olhar. Na verdade, tudo parecia pálido em comparação a isso. Por um longo momento, Luce se esqueceu de quem era.
Ela notou seu cabelo dourado profundo e bronzeado apropriado. Suas maçãs do rosto salientes, os óculos escuros que cobriam seus olhos, a forma suave de seus lábios. Em todos os filmes que Luce tinha visto, em todos os livros que ela havia lido, o interesse amoroso era enlouquecedoramente bonito – exceto por aquela única pequena falha. O dente lascado, o charmoso topete, a bela marca em sua bochecha esquerda. Ela sabia por que – se o herói fosse imaculado demais, havia o risco dele ser inacessível. Mas acessível ou não, Luce sempre teve um fraco pelos sublimemente bonitos. Como esse cara.
Ele inclinou-se contra o prédio com suas mãos cruzadas suavemente sobre seu peito. E por um milésimo de segundo, Luce viu uma rápida imagem dela jogada nos braços dele. Ela sacudiu a cabeça, mas a visão permanecia tão clara que ela quase decolou em direção a ele. Não. Isso era louco. Certo? Mesmo numa escola cheia de malucos, Luce estava certa de que aquele instinto era insano. Ela nem ao menos o conhecia.
Ele estava falando com um aluno de dreads e sorriso cheio de dentes. Os dois estavam rindo forte e genuinamente – de um jeito que fez Luce se sentir estranhamente enciumada. Ela estava tentando lembrar qual foi a última vez que ela riu, realmente, daquele jeito.
— Esse é Daniel Grigori — Ariane falou, se inclinando e lendo sua mente. — Eu posso dizer que ele chamou a atenção de alguma pessoa.
— Eufemismo — Luce concordou, envergonhada quando ela percebeu como ela devia ter parecido para Ariane.
— É bem, se você gosta desse tipo de coisa.
— O que tem para não gostar? — Luce perguntou, sem conseguir fazer as palavras pararem de sair.
— O amigo dele lá é Roland — Ariane explicou, apontando na direção do garoto negro. — Ele é legal. O tipo de cara que pode conseguir coisas, sabe?
Não realmente, Luce pensou, mordendo seu lábio.
— Que tipo de coisas?
Ariane encolheu, usando seu canivete suíço roubado para cortar uma vertente desgastada de seu jeans preto.
— Apenas coisas. Tipo de coisas que você-pede-e-recebe.
— E Daniel? — Luce perguntou. — Qual é a história dele?
— Oh, ela não desiste — Ariane riu, depois limpou a garganta. — Ninguém sabe de verdade. Ele guarda bem firme sua misteriosa personalidade masculina. Pode ser simplesmente o típico babaca de reformatório.
— Eu não sou estranha a babacas — Luce disse, embora assim que as palavras saíram, ela desejou poder pegá-las de volta.
Depois do que aconteceu com Trevor – o que quer que tenha acontecido – ela era a última pessoa que deveria julgar pelas aparências. Mas, mais do que isso, nas raras vezes que ela fazia uma pequena referência àquela noite, o dossel preto das sombras se deslocava e voltava para ela, como se ela estivesse de volta ao lago.
Ela olhou de volta para Daniel. Ele tirou seus óculos e os deslizou para dentro de sua jaqueta, então, virou-se e olhou para ela.
Seu olhar apanhou o dela, e Luce viu enquanto seus olhos alargaram-se e rapidamente se estreitaram em um olhar surpreso. Quando o olhar de Daniel capturou o dela, sua respiração ficou presa em sua garganta. Ela o reconhecia de algum lugar. Mas ela iria se lembrar de conhecer alguém como ele. Ela iria se lembrar de se sentir tão absolutamente assombrada quanto se sentia agora.
Ela percebeu que eles ainda estavam com os olhos presos quando ele relampejou um sorriso para ela. Um jato de calor foi atirado nela e ela teve que agarrar-se ao banco para se apoiar. Ela sentiu os lábios dela derreteram-se num sorriso de volta para ele, mas então ele levantou sua mão no ar.
E mostrou-lhe o dedo do meio.
Luce arfou e deixou seu olhar cair.
— O quê? — Ariane perguntou, alheia ao que havia acontecido. — Esquece. Nós não temos tempo. Eu sinto o sinal.
O sinal tocou na deixa, e todo o corpo estudantil começou o lento arrastar de pés para dentro do prédio. Ariane estava segurando a mão de Luce e declamando orientações sobre onde se encontrar com ela depois e quando. Mas Luce continuava cambaleando por aquele perfeito estranho ter-lhe mostrado o dedo do meio. Seu delírio momentâneo sobre Daniel sumiu. Qual era o problema daquele cara?
Logo antes dela entrar em sua primeira aula, ela ousou olhar para trás. Seu rosto estava vazio, mas não havia dúvida – ele a estava observando ir embora.CAPITULO 2: FEITA PARA FICAR PRESA
Luce tinha um pedaço de papel com seu horário impresso, um caderno com páginas escritas de quando ela começou a prender na Dover em sua aula de História da Europa Avançada ano passado, dois lápis número dois, sua borracha favorita e a repentina sensação ruim que Ariane podia estar certa sobre as aulas na Sword & Cross.
O professor ainda estava para se materializar, as carteiras débeis estavam arrumadas em fileiras a esmo, e o armário de suprimentos estava com uma barreira de pilhas de caixas empoeiradas na frente dele.
O que era pior, nenhum dos outros garotos parecia notar a desarrumação. De fato, nenhum dos outros parecia notar quem estava numa sala de aula. Todos estavam amontoados perto das janelas, dando uma última fumada no cigarro aqui, reposicionando os alfinetes extra-largos em suas camisetas ali. Só Todd estava sentado numa carteira mesmo, talhando algo intrincado em sua superfície com sua caneta. Mas os outros alunos novos pareciam já ter achado seu lugar na multidão.
Cam estava com os caras que pareciam os mauricinhos da Dover em um amontoado apertado ao seu redor. Eles deviam ter sido amigos quando ele se matriculara na Sword & Cross da primeira vez. Gabbe estava cumprimentando a garota com piercing na língua que estivera se amassando com o garoto de piercing na língua do lado de fora. Luce se sentiu estupidamente ciumenta que não fosse ousada e bastante para fazer qualquer coisa exceto sentar-se perto do nada ameaçador Todd.
Ariane voou sobre os outros, sussurrando coisas que Luce não conseguia entender, como algum tipo de princesa gótica. Quando ela passou por Cam, ele despenteou seu cabelo recém-cortado.
— Belo esfregão, Ariane. — Ele sorriu afetadamente, pegando uma mecha atrás de seu pescoço. — Meus cumprimentos para o seu cabelereiro.
Ariane bateu nele.
— Tire as mãos, Cam. O que quer dizer: Nos seus sonhos.
Ela balançou sua cabeça na direção da Luce.
— E pode dar seus cumprimentos para o meu novo bichinho de estimação, bem ali.
Os olhos de esmeralda do Cam brilharam para Luce, que endureceu.
— Creio que darei — ele disse, e começou a andar na direção dela.
Ele sorriu para Luce, que estava sentada com seus tornozelos cruzados debaixo da sua carteira e suas mãos dobradas elegantemente em sua carteira fortemente grafitada.
— Nós, alunos novos, temos que ficar juntos — ele disse. — Sabe o que quero dizer?
— Mas achei que você já esteve aqui antes.
— Não acredite em tudo que Ariane diz.
Ele olhou de volta para Ariane, que estava de pé na janela, olhando-os com suspeita.
— Oh não, ela não disse nada sobre você — Luce falou rapidamente, tentando se lembrar se isso era verdade ou não.
Estava claro que Cam e Ariane não gostavam um do outro, e mesmo Luce sendo grata por Ariane levá-la por aí de manhã, ela não estava pronta para escolher qualquer lado ainda.
— Eu lembro quando era um novato aqui da primeira vez. — Ele riu sozinho. — Minha banda tinha acabado de se separar e eu estava perdido. Eu não conhecia ninguém. Eu podia ter tido alguém sem —– ele olhou para Ariane — segundas intenções para me mostrar o funcionamento.
— O que, e você não tem segundas intenções? — Luce respondeu, surpresa por ouvir um ritmo paquerador em sua voz.
Um sorriso fácil espalhou-se pelo rosto de Cam. Ele ergueu uma sobrancelha para ela.
— E pensar que eu não queria voltar aqui.
Luce corou. Ela geralmente não se envolvia com roqueiros – mas, também, nenhum nunca tinha puxado a cadeira próxima a ela, sentado ao seu lado, e encarando-a com olhos tão verdes.
Cam colocou sua mão no seu bolso e puxou uma palheta verde com o numero 44 impresso.
— Esse é o numero do meu quarto. Dê uma passada qualquer hora.
A palheta não era muito distante da cor dos olhos do Cam, e Luce se perguntou como e quando ele imprimiu aquilo, mas antes que ela pudesse responder – e sabe lá o que ela responderia – Ariane bateu uma mão com força no ombro de Cam.
— Perdão. Não fui clara? Eu vi essa primeiro.
Cam bufou. Ele olhou diretamente para Luce enquanto dizia:
— Viu, eu achei que ainda havia uma coisinha chamada livre arbítrio. Talvez o seubichinho de estimação tenha um caminho próprio em mente.
Luce abriu sua boca para alegar que é claro que ela tinha um caminho, era só o seu primeiro dia aqui e ela ainda estava desvendando o funcionamento. Mas na hora que ela foi capaz de endireitar as palavras em sua cabeça, o sinal de alerta de minuto tocou e a pequena reunião na carteira da Luce dissolveu-se.
Os outros garotos prenderam suas carteiras ao redor dela, e logo parou de ser tão notável que Luce sentou-se empertigada e formal em sua carteira, mantendo seus olhos na porta. Ficando de olho em Daniel.
De canto de olho, ela conseguia ver Cam roubando olhadelas para ela. Ela se sentiu lisonjeada – e nervosa, então frustrada consigo mesma. Daniel? Cam? Ela estava nessa escola a o que, quarenta e cinco minutos? – e sua mente já estava balançada por dois caras diferentes. A razão principal por ela estar nessa escola era porque da última vez que ela ficara interessada num cara, as coisas tinham ficado horrível, horrivelmente ruins. Ela não podia se permitir ficar toda apaixonada (duplamente!) em seu primeiríssimo dia de aula.
Ela olhou para Cam, que piscou novamente para ela, então tirou seu cabelo escuro de seus olhos. Tirando a chocante beleza – é, tá certo – ele realmente parecia uma pessoa útil a se conhecer. Como ela, ele ainda estava se ajustando ao cenário, mas claramente já tinha passado pelas quadras da Sword & Cross algumas vezes antes. E ele era legal com ela. Ela pensou na palheta verde com o número do seu quarto, esperando que ele não as desse livremente. Eles podiam ser... amigos.
Talvez isso fosse tudo que ela precisasse; talvez então ela pudesse parar de se sentir tão obviamente fora de lugar na Sword & Cross. Talvez então ela fosse capaz de perdoar o fato que a única janela na sala de aula fosse do tamanho de uma cartão, endurecida com lima, e olhar para fora para o massivo mausoléu no cemitério. Talvez então ela fosse capaz de esquecer o odor de peróxido de fazer o nariz coçar emanando da garota punk com cabelo loiro de água-oxigenada sentada na frente dela. Talvez então ela realmente pudesse prestar atenção ao professor severo e bigodudo que marchou para a sala de aula, comandou que a turma endireitasse e sentasse e fechou a porta firmemente.
O menor dos beliscões de decepção cutucou seu coração. Ela levou um momento para rastrear de onde tinha vindo. Até o professor fechar a porta, ela tivera uma mínima esperança que Daniel estivesse em sua primeira aula também.
O que ela tinha na próxima aula, francês? Ela olhou para seu horário para checar em que sala era. Bem então, um avião de papel deslizou por seu horário, errou sua carteira e caiu no chão perto de sua bolsa. Ela checou para ver se alguém tinha notado, mas o professor estava ocupado acabando com um pedaço de giz enquanto escrevia algo no quadro.
Luce olhou nervosamente para sua esquerda. Quando Cam olhou para ela, ele lhe deu uma piscadela e um acenozinho flertante que fez com que seu corpo todo ficasse tenso. Mas ele não parecia ter visto ou ser responsável pelo avião de papel.
— Psiiiiu — veio o baixo sussurro atrás dele.
Era Ariane, que fez um movimento com seu queixo para que Luce pegasse o avião de papel. Luce se abaixou para apanhá-lo e viu seu nome escrito em pequenas letras pretas na asa. Seu primeiro bilhete!
Já está procurando pela saída?
Não é um bom sinal.
Estamos nesse inferno até o almoço.
Isso tinha que ser uma piada. Luce checou novamente seu horário e percebeu com horror que todas as suas três aulas eram nessa mesma sala 1 – e todas as três seriam lecionadas pelo mesmo Sr. Cole.
Ele tinha se desprendido do quadro-negro e estava atravessando sonolentamente a sala. Não houve introdução para os novatos – e Luce não conseguia decidir se estava ou não feliz por isso.
O Sr. Cole meramente jogou um roteiro de estudos em cada carteira dos quatro novos estudantes.
Quando o pacote grampeado pousou na frente de Luce, ela se inclinou para frente, ansiosa para olhar. História do Mundo, lia-se. Logrando a Ruína da Humanidade. Hmmm, história sempre fora sua melhor matéria, mas logrando a ruína?
Um olhar mais apurado do roteiro de estudo foi tudo que precisou para Luce ver que Ariane estava certa sobre ser um inferno: uma cara de leitura impossível, TESTE em letras garrafais e em negrito todo o terceiro período, e um trabalho de trinta paginas sobre – sério? – o tirano fracassado de sua escolha. Parênteses grosso e negros tinham sido desenhados com uma caneta preta para retroprojetor ao redor das tarefas que Luce tinha perdido durante as primeiras semanas. Nas margens, o Sr. Cole tinha escritoVenha me ver para uma Pesquisa Substituta. Se houvesse um método efetivo de sugar a alma, Luce estava assustada de descobrir.
Pelo menos ela tinha Ariane sentada ali atrás na próxima fila. Luce estava feliz por já ter sido estabelecido um método para passar notas de emergência. Ela e Callie costumavam mandar mensagens uma para a outra furtivamente, mas para sobreviver aqui, Luce definitivamente teria que aprender a fazer um avião de papel. Ela arrancou uma folha de seu caderno e tentou usar o da Ariane como modelo.
Após alguns minutos desafiadores fazendo origami, outro avião pousou em sua carteira. Ela olhou de volta para Ariane, que balançou sua cabeça e girou os olhos de um modo você-tem-tanto-a-aprender.
Luce desculpou-se dando de ombros e girou-se de volta para abrir o segundo bilhete:
Ah, e até que esteja confiante na sua mira, é melhor não mandar qualquer mensagem relacionada ao Daniel na minha direção. O cara atrás de você é famoso no campo de futebol americano por suas intercepções.
Bom saber. Ela nem ao menos tinha visto Roland, amigo do Daniel, chegar por trás dela. Agora ela se virava bem lentamente em seu assento, até vislumbrar seusdreadlocks de canto de olho.
Ela ousou dar uma espiada no caderno aberto na carteira dele e captou seu nome todo. Roland Sparks.
— Nada de passar bilhetes — o Sr. Cole disse severamente, fazendo com que Luce virasse com tudo sua cabeça para prestar atenção. — Nada de plagiar, e nada de olhar para os trabalhos dos outros. Eu não fiz faculdade só para receber a atenção parcial de vocês.
Luce assentiu em uníssono com os outros garotos estupefatos bem quando um terceiro avião de papel deslizou até parar no meio de sua carteira.
Só mais 172 minutos!
***
Cento e setenta e três minutos torturantes mais tarde, Ariane guiava Luce para a lanchonete.
— Que ‘cê acha? — ela perguntou.
— Você estava certa — Luce resondeu entorpecidamente, ainda se recuperando do quanto suas três primeiras horas de aula tinham sido sombrias. — Por que alguém lecionaria uma matéria tão deprimente?
— Ah, o Cole amolece rápido. Ele coloca sua cara de nada-de-besteira toda vez que tem aluno novo. De qualquer jeito — Ariane disse, cutucando Luce — podia ter ficado com a Srta. Troz.
Luce olhou seu horário.
— Eu estou com ela em biologia na parte da tarde — respondeu com uma sensação de afundamento em seu estômago.
Enquanto Ariane cuspia uma gargalhada, Luce sentiu um encontrão em seu ombro. Era Cam, passando por elas no corredor a caminho do almoço. Luce teria caído estatelada se não fosse pela mão dele esticando-se para firmá-la.
— Calma aí.
Ele lançou-lhe um rápido sorriso, e ela se perguntou se ele tinha trombado nela intencionalmente. Mas ele não parecia tão juvenil assim. Luce olhou para Ariane para ver se ela tinha notado algo. Ariane levantou suas sobrancelhas, quase convidando Luce a falar, mas nenhuma delas disse coisa alguma.
Quando eles cruzaram as janelas interiores poeirentas separando o gélido corredor da lanchonete ainda mais gélida, Ariane tomou o cotovelo de Luce.
— Evite o filé de frango frito a qualquer custo — ela instruiu enquanto seguiam a multidão para o turvo refeitório. — A pizza é boa, o chili é bom, e o borscht na verdade não é ruim. Você gosta de bolo de carne?
— Sou vegetariana.
Ela estava olhando pelas carteiras, procurando por duas pessoas em particular. Daniel e Cam. Ela simplesmente se sentiria mais a vontade se ela soubesse onde eles estavam, para que pudesse continuar seu almoço fingindo que não tinha visto nenhum dos dois. Mas até agora, nada...
— Vegetariana, hein? — Ariane franziu seus lábios. — Pais hippies ou sua própria tentativa miserável de rebelião?
— Hã, nenhum dos dois, eu simplesmente não...
— Gosta de carne?
Ariane girou os ombros de Luce noventa graus, para que ela olhasse diretamente para Daniel, sentado em uma carteira do outro lado do cômodo. Luce soltou uma longa exalação. Ali estava ele.
— Agora, isso vale para qualquer carne? — Ariane cantarolou altamente. — Tipo, você não afundaria seus dentes nele?
Luce bateu com força em Ariane e arrastou-a na direção da fila do almoço. Ariane estava se matando de rir, mas Luce sabia que ela estava corando violentamente, o que seria dolorosamente óbvio nessa iluminação fluorescente.
— Cala a boca, ele com certeza te ouviu — ela sussurrou.
Parte de Luce se sentia feliz por estar brincando sobre garotos com uma amiga. Supondo que Ariane fosse sua amiga.
Ela ainda se sentia desapegada pelo que tinha acontecido essa manhã quando ela vira Daniel.
Aquela atração na direção dele – ela ainda não entendia de onde viera, e ainda assim, aqui estava ela de novo. Ela se forçou a afastar seus olhos do cabelo loiro dele, da linha suave de sua mandíbula. Ela se recusava a ser pega encarando. Ela não queria dar-lhe qualquer razão para lhe mostrar o dedo do meio pela segunda vez.
Luce olhou para o outro lado da carteira, para o amigo de Daniel, Roland. Ele estava olhando diretamente para ela. Quando ele capturou seu olhar, ele agitou suas sobrancelhas de um jeito que Luce não conseguia entender, mas que ainda a assustava um pouquinho.
Luce se voltou para Ariane.
— Por que todos nessa escola são tão esquisitos?
— Vou escolher não me ofender com isso — Ariane respondeu, pegando uma bandeja de plástico e dando uma para Luce. — E eu vou seguir explicando a fina arte de selecionar um assento na lanchonete. Veja, você nunca vai querer se sentar perto de... Luce, cuidado!
Tudo que Luce fez foi dar um passo pra trás, mas assim que ela o fez, ela sentiu o duro empurrão de duas mãos em seus ombros. Imediatamente, ela sabia que iria cair. Ela apalpou à sua frente por apoio, mas tudo que suas mãos encontraram foi a bandeja de almoço cheia de outra pessoa. O negócio todo caiu junto com ela. Ela pousou com uma pancada no chão da lanchonete, uma xícara inteira de borscht em sua cara.
Quando ela limpou beterrabas esmagadas o bastante para que seus olhos vissem, Luce olhou para cima. A fadinha mais brava que ela já tinha visto estava parada sobre ela. A garota tinha cabelo oxigenado espetado, pelo menos dez piercings no rosto, e um olhar mortal. Ela arreganhou seus dentes para Luce e sibilou:
— Se a sua visão não tivesse arruinado meu apetite, eu faria você me comprar outro almoço.
Luce gaguejou uma desculpa. Ela tentou se levantar, mas a garota bateu o salto de sua bota preta de salto agulha no pé de Luce. Dor subiu por sua perna, e ela teve que morder seu lábio para não gritar.
— Por que eu simplesmente não deixo pra próxima? — a garota disse.
— Já chega, Molly — Ariane disse friamente.
Ela se abaixou para ajudar Luce a ficar de pé. Luce recuou. O salto agulha definitivamente iria deixar uma marca.
Molly esquadrinhou seus quadris para encarar Ariane, e Luce teve o pressentimento de que essa não era a primeira vez que elas trocavam faíscas.
— Amizade rápida com a novata, eu vejo — Molly grunhiu. — Esse é um comportamento realmente ruim, A. Você não deveria estar em condicional?
Luce engoliu em seco. Ariane não tinha mencionado nada sobre condicional, e não fazia sentido que isso a proibiria de fazer novos amigos. Mas a palavra fora o bastante para fazer Ariane fechar seu punho e mandar um gordo soco que acabou no olho direito de Molly.
Molly cambaleou para trás, mas foi Ariane quem chamou a atenção de Molly. Ela começou a ter convulsão, seus braços para cima e sacudindo no ar.
Era a pulseira, Luce percebeu com horror. Estava enviando algum tipo de choque pelo corpo de Ariane. Inacreditável. Essa era uma punição cruel e incomum, com certeza. O estômago de Luce revirou enquanto ela observava todo o corpo estudantil trepidar. Ela se esticou para pegar Ariane bem quando ela afundava no chão.
— Ariane — Luce sussurrou. — Você está bem?
— Estou ótima.
Os olhos negros de Ariane abriram-se vacilantemente, então se fecharam.
Luce arfou. Então um dos olhos da Ariane abriu de volta.
— Te assustei, não foi? Ai, que fofo. Não se preocupe, os choques não vão me matar — ela sussurrou. — Eles só me tornam mais fortes. De qualquer jeito, valeu a pena para dar um olho roxo praquela vaca, sabe?
— Certo, afastem-se. Afastem-se — uma voz rouca rugiu atrás deles.
Randy estava parada na entrada, o rosto vermelho e respirando violentamente. Era um pouco tarde demais para afastar qualquer coisa, Luce pensou, mas então Molly estava inclinando-se na direção delas, seus saltos agulha fazendo um som seco no linóleo. A garota não tinha vergonha. Ela realmente iria dar uma surra na Ariane com Randy parada bem ali?
Felizmente, os braços fortes de Randy fecharam-se ao redor dela primeiro. Molly tentou chutar para se libertar e começou a gritar.
— É melhor alguém começar a falar — Randy rosnou, apertando Molly até ela ficar frouxa.
— Pensando melhor, todas as três apresentem-se para a detenção amanhã de manhã. Cemitério. Ao raiar do dia! — Randy olhou para Molly. — Já se acalmou?
Molly assentiu rigidamente, e Randy soltou-a. Ela se abaixou para onde Ariane ainda estava deitada no colo de Luce, seus braços cruzados sobre seu peito. De primeira, Luce achou que Ariane estava de mal-humor, como um cachorro bravo com uma coleira, mas então Luce sentiu um pequeno choque do corpo de Ariane e percebeu que a garota ainda estava à mercê da pulseira.
— Vamos — Randy disse, mais suavemente. — Vamos te desligar.
Ela estendeu sua mão para Ariane e ajudou a puxar seu minúsculo corpo trêmulo, virando-se somente uma vez na entrada para repetir ordens para Luce e Molly.
— Raiar do dia!
— Estou ansiosa por isso — Molly disse docemente, abaixando-se para pegar o prato de bolo de carne que tinha deslizado de sua bandeja.
Ela balançou-o sobre a cabeça da Luce por um segundo, então virou o prato de ponta-cabeça e amassou a comida em seu cabelo. Luce conseguia ouvir o esguicho de sua própria mortificação enquanto toda a Sword & Cross teve uma visão da novata coberta por bolo de carne.
— Impagável — Molly disse, puxando a menor das câmeras prateada de um bolso traseiro em sua calça jeans. — Diga... bolo de carne — ela cantou, tirando algumas fotos de rosto. — Ficarão ótimas no meu blog.
— Belo chapéu — alguém zombou do outro lado da lanchonete.
Então, com trepidação, Luce voltou seus olhos para Daniel, rezando para que de algum modo ele tivesse perdido a cena toda. Mas não. Ele estava balançando sua cabeça. Ele parecia chateado.
Até aquele momento, Luce pensava que tinha uma chance de se levantar e simplesmente chacoalhar o incidente – literalmente. Mas vendo a reação do Daniel – bem, finalmente a fez entender.
Ela não choraria na frente de qualquer uma daquelas pessoas horríveis. Ela engoliu duramente, levantou-se, e se mandou. E se apressou na direção da porta mais próxima, ansiosa por sentir um ar frio em seu rosto.
Ao invés, a umidade sulista de setembro encobriu-a, sufocando-a, assim que ela saiu. O céu tinha aquela cor de nada, um marrom acinzentado tão opressivamente brando que era até mesmo difícil achar o sol. Luce diminuiu, mas foi até a beirada do estacionamento antes de parar completamente.
Ela ansiava ver seu velho carro ali, afundar no assento de pano esfiapado, acelerar o motor, ligar o som, e dar o fora desse maldito lugar. Mas enquanto ficava parada na quente calçada preta, a realidade assentou: Ela estava presa aqui, e um par de portões elevados de metal separavam-na do mundo fora da Sword & Cross. Além do mais, mesmo que ela tivesse saída... para onde ela iria?
A sensação doentia em seu estômago lhe dizia tudo que ela precisava saber. Ela já estava no fundo do poço, e as coisas estavam ficando bem sombrias. Era tão deprimente quanto era verdade: a Sword & Cross era tudo o que ela tinha.
Ela deixou seu rosto cair em suas mãos, sabendo que tinha que voltar. Mas quando ela ergueu sua cabeça, o resíduo em suas palmas a lembrou que ela ainda estava encoberta pelo bolo de carne da Molly. Eca. Primeira parada, o banheiro mais próximo.
De volta lá dentro, Luce entrou no banheiro das garotas bem quando a porta estava abrindo. Gabbe, que parecia ainda mais loira e perfeita agora que Luce parecia que tinha dado um mergulho no lixão, passou por ela se espremendo.
— Oopa, licença, querida — ela disse. Sua voz com sotaque sulista era doce, mas seu rosto se enrugou ao ver Luce. — Ai céus, você está horrível. O que aconteceu?
O que aconteceu? Como se a escola toda já não soubesse. Essa garota provavelmente estava se fazendo de burra para que Luce revivesse toda a cena mortificante.
— Espere cinco minutos — Luce replicou, com mais aspereza em sua voz do que pretendia. — Tenho certeza que fofoca se espalha como a praga aqui.
— Quer a minha base emprestada? — Gabbe perguntou, oferecendo um estojo de maquiagem azul-pastel. — Você não se viu ainda, mas você vai...
— Obrigada, mas não.
Luce a cortou, entrando no banheiro. Sem se olhar no espelho, ela ligou a torneira. Ela jogou água gelada em seu rosto e finalmente soltou tudo. Lágrimas escorrendo, ela apertou o ministrador de sabonete e tentou usar um pouco do sabonete barato rosa empoado para tirar o bolo de carne. Mas ainda havia o problema do cabelo. E suas roupas definitivamente já tinham parecido e cheirado melhor. Não que ela precisasse mais se preocupar em causar uma boa impressão.
A porta do banheiro se abriu e Luce esbarrou contra a parede como um animal enjaulado. Quando uma estranha entrou, Luce endureceu e esperou pelo pior.
A garota tinha uma estrutura corporal atarracada, acentuada por uma quantidade anormal de camadas de roupa. Seu rosto largo era cercado por cabelo castanho cacheado, e seu óculos roxo claro balançou quando ela fungou. Ela parecia bastante modesta, mas também, aparências enganam. Suas duas mãos estavam colocadas atrás de suas costas de um jeito que, depois do dia que Luce tinha tido, ela simplesmente não podia confiar.
— Sabe, você não devia estar aqui sem um passe — a garota disse.
Seu tom parecia ser sério.
— Eu sei.
O olhar nos olhos dessa garota confirmou a suspeita de Luce de que era absolutamente impossível fazer uma pausa nesse lugar. Ela começou a suspirar em rendição.
— Eu só...
— Estou brincando — a garota riu, girando seus olhos e relaxando sua postura. — Eu peguei shampoo do vestiário para você.
Ela trouxe suas mãos para frente para mostrar duas embalagens plásticas de shampoo e condicionador de aparência inocente.
— Vamos — ela disse, puxando uma cadeira de dobrar gasta. — Vamos te limpar. Sente aqui.
Um barulho parcialmente de lástima e parcialmente de risada que ela nunca havia feito antes escapou dos lábios de Luce. Soava, ela achava, com alívio. A garota realmente estava sendo legal com ela – não só legal do tipo colégio reformatório, mas legal do tipo pessoa normal! Por razão alguma. O choque disso era quase grande demais para Luce aguentar.
— Obrigada? — Luce conseguia dizer, ainda se sentindo um pouco cautelosa.
— Ah, e você provavelmente precisa de uma muda de roupas — a garota falou, olhando para seu suéter preto e puxando-o sobre sua cabeça para expôr um suéter preto idêntico abaixo.
Quando ela viu o olhar de surpresa no rosto de Luce, ela disse:
— O quê? Eu tenho um sistema imunológico hostil. Eu tenho que usar muitas camadas.
— Ah, bem, você ficará bem sem essa? — Luce se forçou a perguntar, mesmo ela fazendo quase tudo agora para tirar a capa de carne que estava usando.
— É claro — a garota disse, dispensando-a. — Tenho mais três debaixo dessa. E mais algumas no meu armário. Fique a vontade. Me machuca ver uma vegetariana coberta de carne. Sou muito empática.
Luce se perguntou como essa estranha conhecia suas preferências alimentícias, mas mais que isso, ela tinha que perguntar:
— Hmm, por que você está sendo tão legal?
A garota riu, suspirou, então balançou sua cabeça.
— Nem todos na Sword & Cross são vadias ou atletas.
— Hein? — Luce disse.
— Sword & Cross... Vadias e Atletas. Um péssimo apelido da cidade para essa escola. Obviamente não há nenhum atleta aqui. Eu não irei oprimir os seus ouvidos com alguns dos apelidos mais rudes que bolaram.
Luce riu.
— O que eu quero dizer é que, nem todos aqui são uns completos babacas.
— Só a maioria? — Luce perguntou, odiando ela já soar tão negativa.
Mas fora uma manhã tão longa, e ela já tinha passado por tanto, e talvez essa garota não a julgasse por um ser um tantinho irritada.
Para sua surpresa, a garota sorriu.
— Exatamente. E eles certamente dão ao resto de nós uma má reputação. — Ela estendeu sua mão. — Sou Pennyweather Van Syckle-Lockwood. Pode me chamar de Penn.
— Entendi.
Luce ainda estava irritada demais para perceber que, em uma vida passada, ela poderia ter encoberto uma risada por causa do nome dessa garota. Soava como se ela tivesse pulado diretamente de um romance de Dickens. Mas também, havia algo digno de confiança em uma garota com um nome como esse que conseguia se apresentar com uma cara séria.
— Sou Lucinda Price.
— E todos te chamam de Luce — Penn disse. — E você se transferiu da Dover Prep, em New Hampshire.
— Como sabe disso? — Luce perguntou lentamente.
— Palpite de sorte? — Penn deu de ombros. — Estou brincando, eu li seu arquivo, dãh. É um passatempo.
Luce encarou-a sem expressão. Talvez ela tenha sido precipitada demais com aquele julgamento de ser confiável. Como Penn poderia ter tido acesso ao seu arquivo?
Penn tomou conta de ligar a água. Quando ficou quente, ela fez um movimento para Luce abaixar sua cabeça na pia.
— Veja, o negócio é que — ela explicou — eu não sou realmente louca.
Ela puxou Luce por sua cabeça molhada.
— Sem ofensa.
Então a abaixou de volta.
— Sou a única nesse colégio sem um mandado de corte. E você pode achar que não, mas ser legalmente sã tem suas vantagens. Por exemplo, eu sou a única em que confiam para ser ajudante no escritório. O que é idiotice deles. Tenho acesso a todo tipo de porcaria confidencial.
— Mas se você não tem que estar aqui...
— Quando o seu pai é o caseiro do colégio, eles meio que tem que deixar você frequentá-lo de graça. Então... — Penn dissipou.
O pai de Penn era o caseiro? Pela visão do lugar, não tinha nem passado pela mente de Luce que eles ao menos tinham um caseiro.
— Eu sei o que está pensando — Penn disse, ajudando Luce a limpar o fim de molho de carne de seu cabelo. — Que o lugar não é exatamente bem mantido?
— Não — Luce mentiu.
Ela estava ansiosa a ficar de bem com essa garota, e queria mandar vibrações de seja-minha-amiga muito mais do que queria parecer que realmente se importava se aparavam a grama da Sword & Cross frequentemente.
— É, hm, bem bonito.
— Papai morreu há dois anos — Penn falou mais baixo. — Eles até colocaram o velho decadente Diretor Udell como meu guardião legal, mas, hã, eles nunca realmente contrataram um substituto para o papai.
— Sinto muito — Luce respondeu, abaixando sua voz, também.
Então mais alguém aqui sabia o que era passar por uma grande perda.
— Tudo bem — Penn disse, espremendo condicionador em sua palma. — É na verdade um colégio realmente bom. Eu gosto bastante daqui.
Agora a cabeça de Luce se levantou com tudo, mandando respingos de água pelo banheiro.
— Tem certeza de que não é louca? — ela provocou.
— Estou brincando. Odeio aqui. É uma porcaria total.
— Mas você não consegue se forçar a ir embora — Luce disse, inclinando sua cabeça, curiosa.
Penn mordeu seu lábio.
— Eu sei que é mórbido, mas mesmo que eu não estivesse presa ao Udell, eu não conseguiria. Meu pai está aqui.
Ela gesticulou na direção do cemitério, invisível daqui.
— Ele é tudo que eu tenho.
— Então suponho que você tem mais do que outras pessoas nesse colégio — Luce disse, pensando em Ariane.
Sua mente voltou para o jeito como Ariane tinha agarrado sua mão na quadra hoje, o olhar ansioso em seus olhos azuis quando ela fez Luce prometer que iria passar no seu quarto no dormitório hoje à noite.
— Ela vai ficar bem — Penn falou. — Não seria segunda-feira se Ariane não fosse carregada para a enfermaria após um ataque.
— Mas não foi um ataque — Luce disse. — Foi aquela pulseira. Eu a vi. Estava dando choques nela.
— Nós temos uma definição muito ampla do que caracteriza um “ataque” aqui na Sword & Cross. Sua nova inimiga, Molly? Ela já deu ataques legendários. Eles ficam dizendo que vão mudar a medicação dela. Com sorte você terá o prazer de testemunhar pelo menos um bom surto antes que eles mudem.
A inteligência de Penn era bastante notável. Passou pela cabeça de Luce perguntar qual era a história do Daniel, mas a complicada intensidade de seu interesse nele era provavelmente melhor mantida a uma base de necessidade. Pelo menos até que ela mesmo conseguisse entender. Ela sentiu as mãos de Penn torcendo água de seu cabelo.
— Essa foi a última. Acho que você está finalmente livre de carne.
Luce olhou para o espelho e correu suas mãos por seu cabelo. Penn estava certa. Exceto pela cicatriz emocional e a dor em seu pé direito, não havia evidência de seu rolo na lanchonete com Molly.
— Só fico feliz por você ter cabelo curto. Se ainda fosse comprido como era na foto no seu arquivo, essa teria sido uma operação bem mais comprida.
Luce olhou embasbacada para ela.
— Vou ter que ficar de olho em você, não vou?
Penn enlaçou seu braço no de Luce e guiou-a para fora do banheiro.
— Só fique de bem comigo e ninguém se machucará.
Luce mandou a Penn um olhar preocupado, mas o rosto de Penn não demonstrava nada.
— Você está brincando, certo? — Luce perguntou.
Penn sorriu, repentinamente feliz.
— Vamos, temos que ir para aula. Não está feliz por termos o mesmo horário de tarde?
Luce riu.
— Quando você vai parar de saber tudo sobre mim?
— Não no futuro próximo — Penn disse, empurrando-a pelo corredor e de volta na direção das salas de aula de bloco de cimento. — Você logo aprenderá a amar isso, eu prometo. Sou uma amiga muito poderosa a se ter. CAPITULO 3: FICANDO ESCURO
Luce serpenteou pelo frio e úmido corredor do dormitório em direção ao seu quarto, arrastando a sua mochila vermelha Camp Gurid com a alça partida em sua trilha. As paredes eram da cor de um quadro negro poeirento – e todo o lugar era estranhamente quieto, salvo pelo maçante zumbido das lâmpadas fluorescentes suspensas no teto recuado manchado por gotas de água.
Principalmente, Luce estava surpresa em ver tantas portas fechadas. Lá em Dover, ela sempre quis mais privacidade, um tempo das festas no corredor do dormitório que duravam horas. Você não podia caminhar para o seu quarto sem se deparar com uma reunião de garotas sentando de pernas cruzadas em jeans iguais, ou um casal de lábios grudados pressionado contra a parede.
Mas na Sword & Cross... bem, ou todo mundo já havia começado os seus artigos de trinta páginas... ou então a socialização aqui era mais do tipo atrás-das-portas.
Falando nisso, as portas fechadas era um sinal a ser notado. Se os alunos da Sword & Cross eram cheios de recursos com as violações do código de vestimentas, eles eram completamente engenhosos quando o assunto era personalizar seus espaços. Luce já havia caminhado por uma porta moldurada por uma cortina de contas, e uma outra com um tapete de detecção de movimento que a encorajava a "dar o fora dali" quando ela passou por ele.
Ela parou na única porta em branco do prédio. Quarto 63. Lar, amargo lar. Ela tateou em seu bolso a procura de suas chaves no bolso da sua mochila, respirou profundamente e abriu a porta da sua cela.
Exceto que não era terrível. Ou talvez não fosse tão terrível como ela imaginava. Havia uma janela de um tamanho decente que se abria para deixar entrar um ar noturno menos sufocante. E além das barras de metal, a vista da porção da luz da lua era na verdade algo interessante, se ela não pensasse muito sobre o cemitério que ficava embaixo dela. Ela tinha um closet e uma pequena pia, uma mesa para fazer seus trabalhos – pensando nisso, a coisa mais triste no quarto foi o vislumbre que Luce capturou de si mesma no espelho de corpo inteiro atrás da porta.
Ela rapidamente desviou a visão, sabendo bem demais o que ela ia encontrar em seu reflexo. Seu rosto parecendo apertado e sonolento. Seus olhos castanhos salpicados com estresse. Seu cabelo como o pelo do poodle toy histérico da sua família após uma tempestade. O suéter de Penn caía nela como um saco de pano. Ela estava tremendo. Suas aulas da tarde não haviam sido melhores do que as da manhã, devido principalmente ao fato de seu maior medo ter se tornado realidade: Toda a escola já havia começado a chamá-la de Bolo de Carne. E infelizmente, muito como seu homônimo, o apelido parecia que ia grudar.
Ela queria desfazer as malas, transformar o genérico quarto 63 em seu próprio lugar, para onde ela podia ir quando precisava fugir e se sentir bem. Mas ela somente conseguiu abrir o zíper da sua mochila antes de entrar em colapso na cama descoberta, derrotada. Ela se sentia tão longe de casa. Só levava vinte e dois minutos de carro para sair das dobradiças soltas da porta traseira caiada da sua casa para os portões de ferro forjado enferrujado da Sword & Cross, mas poderia muito bem levar vinte e dois anos.
Pela primeira metade da silenciosa viagem com seus pais essa manhã, a vizinhança parecera praticamente a mesma: subúrbio sulista de classe média adormecido. Mas então a rua foi sobre a marginal em direção à praia, e o terreno ficou mais e mais alagadiço. Um aumento de árvores de mangue marcava a entrada na terra úmida, mas logo até essas diminuíram. Os últimos dezesseis quilômetros até a Sword & Cross foram sombrios. Castanho acinzentado, inexpressivo, abandonado.
Lá em casa, em Thunderbolt, as pessoas da cidade sempre brincavam sobre o estranho, memorável e embolorado fedor por aqui: Você sabia que estava nos pântanos quando o seu carro começava a feder a lama.
Mesmo Luce tendo crescido em Thunderbolt, ela não estava familiarizada com a parte mais oriental do condado. Quando criança, simplesmente presumira que era por nunca ter razão para vir aqui – todas as escolas, lojas, e todos que sua família conhecia estavam do lado oeste. O lado leste era simplesmente menos desenvolvido. Só isso.
Ela sentia falta dos seus pais, que grudaram um bilhete na primeira camisa da mala –Nós te amamos! Os Price nunca quebram. Ela sentia saudade do seu quarto, que tinha vista para a plantação de tomates do seu pai. Sentia saudade de Callie, que devia ter certamente mandando umas dez mensagens que nunca serão vistas. Sentia saudades de Trevor...
Ou, bem, não era exatamente isso. O que ela tinha saudades era do modo como a vida era quando ela começou a falar com Trevor pela primeira vez. Quando tinha alguém em quem pensar se não conseguia dormir à noite, o nome de alguém para rabiscar como uma boboca dentro dos cadernos. A verdade era que Luce e Trevor nunca realmente tiveram a chance de se conhecer bem. A única lembrança que ela tinha era uma foto tirada pela Callie secretamente, do outro lado do campo de futebol, entre dois dos seus conjuntos de pesos, quando ele e Luce conversaram por quinze segundos sobre... seus conjuntos de pesos. E o único encontro que ela realmente teve como ele não foi exatamente um encontro real – só uma hora roubada quando ele a afastou do resto da festa. Uma hora que ela se arrependeria pelo resto de sua vida.
Havia começado inocente o suficiente, somente duas pessoas caminhando pelo lago, mas não demorou muito antes de Luce começar a sentir as sombras sobre a sua cabeça. Então os lábios de Trevor tocaram os seus, e o calor caiu sobre seu corpo, os olhos dele ficaram brancos de terror... e segundos depois a vida como ela conhecia fora embora em uma labareda.
Luce virou-se e enterrou seu rosto na curva do seu braço. Ela passou meses em luto pela morte de Trevor, e agora, deitada nesse quarto estranho, com as barras de metal cavando em sua pele através do fino colchão, ela sentiu a egoísta futilidade disso tudo. Ela não conhecia Trevor mais do que ela conhecia... bem, Cam.
Uma batida em sua porta fez Luce pular da cama. Como alguém poderia saber como encontrá-la aqui? Ela andou nas pontas dos pés até a porta e a puxou até abrir. Então colocou a sua cabeça no vazio corredor. Ela não havia nem ao menos ouvido passos ali fora, e não havia sinal de alguém ter acabado de bater.
Exceto pelo avião de papel preso com um alfinete com uma tacha de latão no centro do quadro ao lado de sua porta. Luce sorriu ao ver seu nome escrito em caneta preto ao longo da asa, mas quando ela desdobrou o bilhete, tudo que estava escrito dento era uma seta negra apontando diretamente para o corredor.
Ariane havia convidado-a para essa noite, mas isso havia sido antes do incidente com Molly na cafeteria. Olhando para o corredor vazio, Luce questionou-se sobre seguir a seta enigmática.
Então ela olhou sobre o seu ombro para a sua gigante bolsa de pano duro, sua festa de autopiedade a aguardando para ser desfeita. Ela deu de ombros, fechou a porta, colocou a chave do seu quarto em seu bolso e começou a caminhar.
Parou em frente a uma porta do outro lado do corredor para checar um pôster gigante de Sonny Terry, um músico cego que ela sabia, pela coleção arranhada de vinis de seu pai, que era um incrível tocador de gaita de blues. Ela se inclinou para frente para ler o nome no quadro e percebeu com surpresa que estava em frente a porta do quarto de Roland Sparks. Imediatamente, irritantemente, havia uma pequena parte do seu cérebro que começou a calcular as chances de que Roland podia estar passando o tempo com Daniel, com apenas uma fina porta os separando de Luce.
Um zumbido mecânico fez Luce pular. Ela olhou diretamente para uma câmera de vigilância pregada acima da porta de Roland. Os vermelhos. Dando zoom em cada um dos seus movimentos. Ela se encolheu, embaraçada por razões que nenhuma câmera seria capaz de discernir. De todo modo, ela tinha vindo aqui para ver Ariane – cujo quarto, ela percebeu, pelo jeito era do outro lado do corredor, em frente ao quarto de Roland.
Em frente ao quarto da Ariane, Luce sentiu uma pequena pontada de doçura. Toda a porta estava lotada por adesivos – uns impressos, outros obviamente caseiros. Havia tantos que eles se sobrepunham, cada slogan cobrindo uma parte e geralmente contradizendo o que o de cima dizia.
Luce riu baixinho imaginando Ariane coletando adesivos indiscriminadamente (PESSOAS MÁS SÃO DEMAIS... MINHA FILHA É UMA ESTUDANTE NOTA ZERO NA SWORD & CROSS... VOTE NÃO NA PROPOSIÇÃO 666) e então colando-os com um foco casual – mas compromissado – em seu território.
Luce podia ter ficado entretida por uma hora lendo a porta de Ariane, mas logo se sentiu consciente de que estava em frente a um quarto de dormitório que ela estava somente meia certa de que havia sido convidada. Então ela viu um segundo avião de papel. Ela tirou-o do quadro e desdobrou a mensagem:
Minha querida Luce,
Se você realmente apareceu para sairmos hoje à noite, parabéns! Nós vamos nos dar tããão bem!
Se você me deu um bolo, então... tire as suas garras da minha carta privada, ROLAND! Quantas vezes eu tenho que te dizer isso? Jesus.
De qualquer modo: eu sei que disse pra você passar aqui essa noite, mas eu tive que correr da estação de descanso e recuperação na enfermaria (a cereja em cima do bolo do meu tratamento de arma de choque hoje) para fazer uma revisão de biologia com a Albatroz. Ou seja, fica pra próxima?
Sua psicoticamente, A.
Luce ficou com a carta nas mãos, incerta sobre o que fazer a seguir. Ela estava aliviada por Ariane estar sendo cuidada, mas ela ainda desejava poder ver a garota pessoalmente. Queria ouvir a indiferença na voz dela, então ela saberia como sentir-se sobre o que houve na lanchonete. Mas estando ali no corredor, Luce estava cada vez mais incerta sobre como processar os eventos do dia. Um pequeno pânico a invadiu quando ela percebeu que estava sozinha, depois da escuridão, na Sword & Cross.
Atrás dela, uma porta abriu-se. Uma fatia de luz apareceu no chão abaixo do seu pé. Luce ouviu música sendo tocada dentro do quarto.
— O que você tá fazendo?
Era Roland, parado no vão da sua porta com uma camisa branca e jeans rasgados. Seusdreads estavam presos em um elástico amarelo acima da sua cabeça e ele segurava uma gaita nos lábios
— Eu vim ver Ariane — Luce respondeu, tentando controlar-se para olhar através dele se havia alguém mais no quarto. — Nós íamos...
— Ninguém está em casa — ele respondeu obscuramente.
Luce não sabia se ele queria dizer Ariane, ou todas os outros no dormitório, ou o que. Ele assoprou algumas notas na gaita, mantendo seus olhos nela o tempo todo. Então ele abriu a porta um pouquinho mais e ergueu suas sobrancelhas. Ela não conseguia afirmar se ele estava ou não convidando-a para entrar.
— Bem, eu só estava passando a caminho da biblioteca — ela mentiu rapidamente, virando-se para o caminho de onde ela havia vindo. — Há um livro que eu preciso emprestar.
— Luce — Roland chamou.
Ela se virou. Eles não haviam se conhecido ainda oficialmente, e ela não esperava que ele soubesse o seu nome. Seus olhos relampejaram um sorriso para ela e ele usou a gaita para indicar a direção oposta.
— A biblioteca é para lá. — Ele cruzou os braços sobre o tórax. — Tenha certeza de checar as coleções especiais da parte leste. Elas são realmente boas.
— Obrigada — a menina respondeu, sentindo-se realmente grata enquanto mudava de direção.
Roland parecia tão real ali, acenando e tocando algumas notas na sua gaita enquanto ela saía. Talvez ele só tenha feito-a sentir-se nervosa mais cedo por ter pensado nele como amigo do Daniel. Pelo que ela sabia, Roland podia ser uma boa pessoa. Seu humor se elevou enquanto ela caminhava pelo corredor. Primeiro a carta de Ariane havia sido impertinente e sarcástica, depois ela teve um encontro não-estranho com Roland Sparks; além do mais, ela realmente queria dar uma olhada na biblioteca. As coisas estavam ficando boas.
Perto do fim do corredor, onde o dormitório fazia uma curva na direção da ala da biblioteca, Luce passou pela única porta meio aberta do corredor. Não havia nenhum estilo de decoração nessa porta, mas alguém tinha pintado-a completamente de preto. À medida que ela se aproximava, Luce podia ouvir o heavy metal raivoso tocando lá dentro. Ela nem teve que parar para ver o nome na porta. Era a Molly.
Luce acelerou os seus passos, de repente ciente de cada barulho da sua bota preta de montaria no linóleo. Ela não havia percebido que tinha prendido a respiração até ela passar pelas portas de madeira com pontas de ferro da biblioteca e exalado.
Um sentimento quente envolveu Luce à medida que ela olhou ao redor da biblioteca. Ela sempre amou o fraco e doce cheiro bolorento que só uma sala cheia de livros cheirava. Se sentiu confortável com o leve e ocasional som das páginas sendo viradas. A biblioteca de Dover havia sido sempre o seu refúgio, e Luce se sentiu quase oprimida de alívio ao perceber que essa poderia oferecer-lhe a mesma sensação de um santuário. Ela dificilmente podia acreditar que este lugar pertencia a Sword & Cross. Isso era quase... era na verdade... convidativo.
As paredes eram de um mogno profundo e o teto era alto. Uma lareira com um console de tijolo descansava em uma parede. Havia longas mesas de madeira iluminadas por lamparinas verdes antiquadas, e corredores de livros que continuavam mais longe do que ela conseguia ver.
O som de suas botas foi abafado por um grosso tapete persa enquanto Luce vagava pela entrada.
Alguns alunos estavam estudando, nenhum que Luce conhecesse pelo nome, mas até mesmo os de aparência mais punk pareciam menos ameaçadores com suas cabeças curvadas sobre os livros. Ela se aproximou da mesa circular principal, que era uma estação grande e redonda no centro da sala. Estava com pilhas de papéis e livros espalhados e tinha uma bagunça acadêmica caseira que lembrava Luce da casa de seus pais. Os livros estavam empilhados tão alto que Luce quase não viu a bibliotecária sentada atrás dela. Ela estava extirpando uma papelada com a energia de alguém separando o ouro. Sua cabeça levantou à medida que Luce se aproximou.
— Olá!
A mulher sorriu – ela realmente sorriu – para Luce. Seu cabelo não era cinza, mas sim prata, com um tipo de brilho que cintilava até mesmo na suave luz da biblioteca. Seu rosto parecia velho e novo ao mesmo tempo. Ela tinha uma pele pálida, quase incandescente, olhos pretos brilhantes e um pequenino e pontudo nariz. Quando ela falou com Luce, empurrou as mangas de seu suéter branco de casimira, expondo amontoados e amontoados de braceletes de pérola decorando ambos seus pulsos.
— Posso ajudá-la a achar algo? — ela perguntou em um sussurro feliz.
Luce se sentiu imediatamente à vontade com essa mulher, e espiou a placa identificadora em sua mesa. Sophia Bliss. Ela desejou realmente ter um pedido bibliotecário. Essa mulher era a primeira figura de autoridade que ela tinha visto o dia todo cuja ajuda ela realmente iria querer procurar. Mas ela só estava perambulando aqui... e então ela de lembrou do que Roland Sparks dissera.
— Sou nova aqui — ela explicou. — Lucinda Price. Você poderia me dizer onde fica a ala leste?
A mulher deu a Luce um sorriso do tipo você-parece-uma-leitora que Luce vinha recebendo de bibliotecários sua vida toda.
— Bem por ali — ela respondeu, apontando na direção de uma fileira de janelas altas no outro lado do cômodo. — Eu sou a Senhorita Sophia, e se a minha lista de plantão está correta, você está no meu seminário de religião nas terças e quintas. Ah, vamos nos divertir! — Ela piscou. — Enquanto isso, se precisar de qualquer outra coisa, estou aqui. Foi um prazer te conhecer, Luce.
Luce sorriu em agradecimento, disse alegremente à Senhorita Sophia que ela a veria amanhã na sala, e começou a ir na direção da janela. Foi sé depois de ter deixado a bibliotecária que ela se perguntou sobre o jeito estranho e íntimo pela qual a mulher lhe havia chamado por seu apelido.
Ela tinha acabado de passar pela área de estudo principal e estava passando pelas altas e elegantes estantes de livros quando algo sombrio e macabro passou por sua cabeça. Ela olhou para cima.
Não. Aqui não. Por favor. Deixe-me ter só esse lugar.
Quando as sombras vinham e iam, Luce nunca tinha certeza absoluta onde elas acabavam – ou por quanto tempo elas ficariam longe.
Ela não conseguia entender o que estava acontecendo agora. Algo estava diferente. Ela estava apavorada, sim, mas não sentia frio. De fato, se sentia um pouquinho corada. A biblioteca estava quente por causa do fogo, mas não estava tão quente. E então seus olhos caíram em Daniel.
Ele estava encarando a janela, suas costas para ela, inclinando-se sobre um palanque que dizia COLEÇÕES ESPECIAIS em letras brancas. As mangas de sua jaqueta de couro gasta estavam empurradas para cima em torno dos seus cotovelos, e seu cabelo loiro brilhava sob as luzes. Seus ombros estavam curvados, e novamente, Luce teve o instinto de se dobrar dentro deles. Ela tirou isso de sua cabeça e ficou na ponta dos pés para dar uma olhada melhor nele.
Dali, ela não conseguia ter certeza, mas parecia que ele estava desenhando algo. Enquanto ela observava o ligeiro movimento de seu corpo enquanto ele desenhava, o interior de Luce parecia que estava queimando, como se ela tivesse engolido algo quente. Ela não conseguia entender porque, contra toda a razão, ela tinha essa premonição selvagem de que Daniel estava desenhando-a.
Ela não devia ir até ele. Afinal, ela nem ao menos o conhecia, nunca tinha nem ao menos falado com ele. Sua única comunicação por enquanto tinha incluído um dedo do meio e um par de olhares feios. Ainda assim, por alguma razão, parecia muito importante para ela que ela descobrisse o que estava no bloco de desenho.
Então ela se tocou. O sonho que ela tinha tido na noite anterior. O relampejo breve dele voltou para ela de repente. No sonho, tinha sido tarde da noite – úmido e frio, e ela estava vestida em algo longo e flutuante. Ela se inclinou contra uma janela com cortina em uma sala estranha. A única outra pessoa ali era um homem... ou um garoto – ela nunca conseguiu ver seu rosto. Ele estava desenhando a representação dela num bloco grosso de papel. Seu cabelo. Seu pescoço. O traçado preciso de seu perfil. Ela ficou de pé atrás dele, assustada demais para deixá-lo ciente de que ela estava observando, intrigada demais para se virar.
Luce deu um sacolejo para frente enquanto sentiu algo apertar a parte detrás de seu ombro, então flutuar sobre sua cabeça. A sombra tinha ressurgido. Era negra e tão grossa quanto uma cortina.
O martelar de seu coração ficou tão alto que encheu seus ouvidos, bloqueando o farfalhar sombrio da sombra, bloqueando o som de seus passos. Daniel olhou por cima de seu trabalho e pareceu levantar seus olhos para exatamente onde a sombra pairava, mas ele não se assustou do jeito que ela tinha se assustado.
É claro, ele não conseguia vê-las. Seu foco estava fixo calmamente do lado de fora da janela. O calor dentro dela ficou mais forte. Ela estava próxima o bastante agora que ela sentia que ele era capaz de sentir ele saindo de sua pele.
O mais silenciosamente que pôde, Luce tentou espiar seu caderno sobre seu ombro. Por apenas um segundo, sua mente viu a curva de seu próprio pescoço nu desenhado em lápis no papel. Mas então ela piscou, e quando seus olhos se fixaram novamente no papel, ela teve que engolir em seco.
Era uma paisagem. Daniel estava desenhando a vista do cemitério do lado de fora da janela detalhadamente quase perfeitamente. Luce nunca havia visto algo que a deixara tão triste.
Ela não sabia porquê. Era maluco – até mesmo para ela – esperar que sua intuição bizarra virasse realidade. Não havia razão para Daniel desenhá-la. Ela sabia disso. Exatamente como ela soubera que não havia razão alguma para ele mostrar-lhe o dedo do meio essa manhã. Mas ele tinha.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou.
Ele tinha fechado seu caderno e estava olhando para ela solenemente. Seus lábios cheios estavam fixos numa linha reta e seus olhos cinzas pareciam opacos. Ele não parecia nervoso, para variar; ele parecia exausto.
— Eu vim pegar um livro das Coleções Especiais — ela disse em uma voz vacilante.
Mas a medida em que ela olhava ao redor, ela percebeu rapidamente seu erro. Coleções Especiais não era uma seção de livros – era uma área aberta na biblioteca para uma amostra de arte sobre a Guerra da Secessão. Ela e Daniel estavam parados em uma minúscula galeria de bustos de bronze de heróis da guerra, caixas de vidro cheias com velhas notas promissórias e mapas da Confederação. Era a única sessão da biblioteca em que não havia um único livro para emprestar.
— Boa sorte com isso — Daniel respondeu, abrindo seu caderno de desenho novamente, como se para dizer, preventivamente, adeus.
Luce ficou sem saber o que falar e envergonhada e o que ela gostaria de ter feito era ter escapado. Mas então, havia as sombras, ainda espreitando perto, e por alguma razão, Luce se sentia melhor em relação a elas quando estava próxima de Daniel. Não fazia sentido – como se houvesse algo que ele pudesse fazer para proteger ela delas.
Ela estava presa, enraizada em seu lugar. Ele olhou para ela e suspirou.
— Deixe eu te perguntar, você gosta quando é espreitada?
Luce pensou nas sombras e o que elas estavam fazendo agora com ela. Sem pensar, ela balançou sua cabeça violentamente.
— Está bem, então somos dois.
Ele limpou sua garganta e encarou-a, escancarando o fato de que ela era a intrusa.
Talvez ela pudesse explicar que estava se sentindo um pouco tonta e só precisava se sentar por um minuto. Ela começou a dizer:
— Olha, posso...
Mas Daniel pegou seu caderno de desenho e ficou de pé.
— Eu vim aqui para escapar — ele cortou-a. — Se você não vai embora, eu vou.
Ele enfiou seu caderno de desenho em sua mochila. Quando ele passou, seu ombro roçou no dela. Por mais breve que o toque tenha sido, mesmo através de camadas de roupas, Luce sentiu um choque de estática.
Por um segundo, Daniel ficou parado, também. Eles viraram suas cabeças para olhar de volta um para o outro, e Luce abriu sua boca. Mas antes que ela pudesse falar, Daniel tinha virado e estava andando rapidamente na direção da porta. Luce observou enquanto as sombras espreitaram sobre sua cabeça, serpentearam, fazendo um círculo, então se apressaram para fora da janela para a noite.
Ela estremeceu no frio do rastro delas, e por um longo tempo após isso, ficou parada na área de coleções especiais, tocando seu ombro onde Daniel tinha roçado, sentindo o calor esfriar.CAPITULO 4: TURNO DO CEMITÉRIO
Ahhh, terça-feira. Dia do waffle.
Desde que Luce podia se lembrar, terças-feiras de verão significavam café fresco, tigelas cheias de framboesa com chantilly, e uma interminável pilha de waffles dourados e crocantes. Mesmo este verão, quando seus pais começaram a sentir um pouco de medo dela, o dia do waffle era algo com que ela podia contar. Ela podia rolar na cama na terça-feira, e antes de pensar em qualquer outra coisa, instintivamente ela sabia que dia era.
Luce inalou, retomando lentamente a seus sentidos, então ela inalou de novo com um pouco mais de vontade. Não, não havia nenhum leitelho batido, nada além do cheiro de vinagre da pintura descascada. Ela mandou o sono para longe e captou a vista de seu dormitório apertado. Isso parecia como a foto de “antes” em um show de renovação de casa. O longo pesadelo que foi a segunda-feira retornou à ela: eles tomarem seu celular, o incidente com o bolo de carne e os olhos brilhantes de Molly no refeitório, Daniel expulsando-a da biblioteca. O que foi que o fez ficar tão rancoroso, Luce não tinha a menor ideia.
Ela sentou para olhar pela janela. Ainda estava escuro; o sol não tinha sequer saído pelo horizonte ainda. Ela nunca tinha acordado tão cedo. Se duvidasse, ela realmente não achava que conseguia se lembrar de já ter visto o nascer do sol. Sinceramente, algo sobre assistir-o-nascer-do-sol como uma atividade sempre a deixava nervosa. Eram os momentos de espera, os momentos logo-antes-do-sol-surgir-no-horizonte, sentada na escuridão olhando através das linhas das árvores. O horário nobre das sombras.
Luce suspirou audivelmente com saudades de casa, um suspiro de solidão, o que a deixou com ainda mais saudade e solitária. O que ela iria fazer durante as três horas entre o raiar do dia e a sua primeira aula?
Raiar do dia – por que essas palavras zumbiam em seus ouvidos? Ah. Droga. Ela deveria estar na detenção.
Ela saltou para fora da cama, tropeçando em sua mala ainda-cheia, e arrancou outro suéter preto tedioso do topo da pilha de suéteres pretos tediosos. Ela colocou o jeans preto que usou ontem, estremeceu quando teve um vislumbre do desastre que estava sua cabeça, e passou os dedos pelo seu cabelo enquanto corria pela porta afora.
Ela estava ofegante quando chegou aos portões de ferro forjado, da altura da cintura e complexamente esculpidos, do cemitério. Estava engasgada com o cheiro esmagador de mato e se sentindo muito sozinha com seus pensamentos. Onde estavam os outros? A definição de “início da manhã” deles era diferente da dela? Ela olhou para seu relógio. Já eram seis e quinze.
Tudo o que eles tinham dito a ela era para se encontrarem no cemitério, e Luce tinha bastante certeza de que essa era a única entrada. Ela estava na divisa, onde o asfalto áspero do estacionamento dava lugar a um terreno destruído cheio de ervas daninhas. Ela notou um dente-de-leão solitário, e passou pela sua mente que uma Luce mais jovem teria pulado sobre ele e então feito um desejo e soprado. Mas agora os desejos dessa Luce pareciam pesados demais para algo tão leve.
Os portões delicados eram tudo o que dividia o cemitério do estacionamento. Incrível para uma escola com tanto arame farpado em todo o lugar. Luce passou a mão ao longo dos portões, seguindo o padrão floral ornamentado com seus dedos. Os portões deviam datar dos dias da Guerra da Secessão de que Ariane falara, quando o cemitério era utilizado para enterrar os soldados caídos. Quando a escola se juntou a ele, não era um lugar para loucos instáveis. Quando o lugar todo era muito menos cheio e sombrio.
Isso era estranho – o resto do terreno era plano como uma folha de papel, mas de alguma forma, o cemitério tinha um formato côncavo, parecido com uma tigela. Daqui, ela podia ver a inclinação de toda a vastidão a partir dela. Fileira após fileira de lápides simples alinhavam-se nas inclinações como espectadores em um estádio. Mas em direção ao centro, no ponto mais baixo do cemitério, o trecho através do terreno se torcia em um labirinto de grandes túmulos esculpidos, estátuas de mármore e mausoléus.
Provavelmente para oficiais da Confederação, ou apenas para soldados que tinham dinheiro. Pareciam que seriam bonitos vistos de perto. Mas vistos dali, o simples peso deles parecia arrastar o cemitério para baixo, quase como se todo o lugar estivesse sendo engolido por um ralo.
Passos atrás dela. Luce girou ao seu redor para ver uma figura pequena e grossa, vestida de preto, surgir de trás de uma árvore. Penn! Ela teve de resistir ao desejo de jogar seus braços em volta da garota. Luce nunca tinha ficado tão contente em ver alguém – embora fosse difícil acreditar que Penn tivesse pego alguma detenção.
— Você não está atrasada? — Penn perguntou, parando alguns metros à frente de Luce e dando a ela um aceno divertido de sua-pobre-novata com a cabeça.
— Eu estou aqui há 10 minutos — Luce falou. — Não é você quem está atrasada?
Penn sorriu.
— De jeito nenhum, eu sou apenas uma madrugadora. Eu nunca peguei detenção. — Ela deu de ombros e empurrou seu óculos roxo para cima em seu nariz. — Mas você pegou, junto com outras cinco almas infelizes, que provavelmente estão ficando mais irritadas a cada minuto que esperam por você lá embaixo no monólito.
Ela ficou na ponta dos pés e apontou para trás de Luce, em direção a maior estrutura de pedra, que se levantava do meio da parte mais profunda do cemitério. Se Luce apertasse os olhos, ela poderia notar um grupo de figuras negras agrupadas em torno de sua base.
— Eles apenas disseram para se encontrar no cemitério — Luce falou, já se sentindo derrotada. — Ninguém me disse para onde ir.
— Bem, eu estou dizendo para você: monólito. Agora desça até lá — Peen falou. — Você não vai fazer muitos amigos acabando com a manhã deles mais do que você já acabou.
Luce engoliu em seco. Parte dela queria pedir a Penn para lhe mostrar o caminho. Daqui de cima, aquilo parecia um labirinto, e Luce não queria ficar perdida no cemitério. De repente, ela ficou com aquela sensação nervosa, de estar longe de casa, e ela sabia que isso só iria piorar lá. Ela estalou suas juntas, retardando.
— Luce? — Penn disse, dando um pequeno empurrão em seus ombros. — Você ainda está parada aqui.
Luce tentou dar uma Penn um sorriso corajoso de agradecimento, mas teve que se contentar com um estranho tique facial. Então ela correu para baixo da encosta para o coração do cemitério.
O sol ainda não tinha nascido, mas estava quase, e estes últimos momentos antes do amanhecer sempre eram os que mais a assustavam. Ela passou rápido pelas fileiras de lápides simples. Em um ponto elas deviam ter estado retas, mas agora elas eram tão velhas que a maioria delas tombava para um lado ou para o outro, dando ao lugar todo, uma aparência de jogo de dominó mórbido.
Ela passou seu tênis Converse preto pelas poças de lama, esmagando folhas mortas. Na hora em que passou pela área mais simples e chegou até os túmulos mais ornamentados, a terra tinha mais ou menos sido achatada, e ela estava totalmente perdida. Ela parou de correr, tentou recuperar o fôlego. Vozes. Se ela se acalmasse, ela poderia ouvir vozes.
— Mais cinco minutos, então eu vou cair fora — disse um rapaz.
— Pena que a sua opinião não tenha valor, Sr. Sparks.
Uma voz teimosa, uma que Luce reconheceu de suas aulas de ontem. Sra. Troz – a Albatroz. Após o incidente com o bolo de carne, Luce tinha chegado tarde para a aula dela e não tinha dado exatamente a impressão mais favorável para a professora severa e esférica de ciência.
— A não ser que alguém queira perder seus privilégios sociais esta semana — gemidos entre os túmulos — vamos todos esperar pacientemente, como se não tivéssemos nada melhor para fazer, até a senhorita Price decidir dar a graça de sua presença para nós.
— Eu estou aqui — Luce arfou, finalmente contornando uma estátua gigante de um querubim.
Sra. Troz estava com as mãos nos quadris, vestindo uma variação do vestido preto florido e solto de ontem. Seu escasso cabelo cor castanho-rato estava puxado na sua cabeça e seus tediosos olhos castanhos mostravam apenas aborrecimento com a chegada de Luce. Biologia sempre foi difícil para Luce, e até agora, ela não estava fazendo nenhum favor à sua nota na classe Sra. Troz.
Atrás da Albatroz estavam Ariane, Molly e Roland, espalhados ao redor de um círculo de blocos que encaravam uma grande estátua central de um anjo. Em comparação com o resto das estátuas, esta parecia mais nova, mais branca, mais grandiosa. E encostado na coxa esculpida do anjo – ela quase não tinha percebido – estava Daniel.
Ele estava vestindo a jaqueta de couro preta e o cachecol vermelho vivo que a tinha deixado fixada ontem. Luce tomou conhecimento de seu cabelo loiro desarrumado, que parecia não ter sido penteado depois dele acordar... o que a fez pensar sobre como Daniel ficava quando estava dormindo... o que a fez corar tão intensamente que, do momento que seus olhos fizeram o caminho da linha do cabelo para os olhos dele, ela estava completamente humilhada.
Nesse momento ele estava olhando fixamente para ela.
— Sinto muito — ela deixou escapar. — Eu não sabia onde deveríamos nos encontrar. Eu juro...
— Pode parar — disse a Sra. Troz, passando o dedo em sua garganta. — Você já desperdiçou o bastante do tempo de todo mundo. Agora, tenho certeza que todos se lembram da indiscrição desprezível que vocês cometeram para estarem aqui. Vocês podem pensar sobre isso nas próximas duas horas enquanto trabalham. Se reúnam em pares. Vocês sabem o que fazer.
Ela olhou para Luce e soltou sua respiração.
— Ok, quem quer uma protegida?
Para o horror de Luce, todos os outros alunos olharam para seus pés. Mas então, depois de um minuto torturante, um quinto aluno entrou no campo de visão ao virar a esquina do mausoléu.
— Eu quero.
Cam. Sua camiseta preta com gola em “v” era justa em torno de seus ombros largos. Ele era quase trinta centímetros mais alto do que Roland, que se deslocou para o lado quando Cam empurrou e passou, caminhando na direção de Luce. Seus olhos estavam grudados nela enquanto ele andava para frente, movendo-se suave e confiantemente, tão à vontade em sua roupa de escola reformatória quanto Luce estava pouco à vontade. Parte dela queria desviar seus olhos, porque era embaraçosa a maneira que Cam olhava para ela na frente de todos. Mas por alguma razão, ela estava hipnotizada. Ela não poderia quebrar o seu olhar – até que Ariane pisou entre eles.
— Primeiro — ela falou. — Eu disse que vi primeiro.
— Não, você não disse.
— Sim, eu disse, você não me ouviu de seu poleiro estranho lá atrás. — As palavras se apressaram para fora de Ariane. — Eu a quero.
— Eu... — Cam começou a responder.
Ariane inclinou a cabeça com expectativa. Luce engoliu em seco. Ele ia chegar e dizer que ele a queria também? Eles não poderiam simplesmente esquecer isso? Fazer detenção com um grupo de três?
Cam acariciou o braço de Luce.
— Vou encontrar com você depois, ok? — ele disse a ela, como se fosse uma promessa que ela lhe pediu para fazer.
Os outros garotos pularam dos túmulos nos quais eles tinham sentado e marcharam em direção a um galpão. Luce os seguiu, agarrando-se em Ariane, que sem dizer uma só palavra entregou-lhe um ancinho.
— Então. Você quer o anjo vingador, ou os amantes carnais abraçados?
Não houve menção sobre os acontecimentos de ontem, ou do bilhete da Ariane, e Luce de algum modo não sentia que deveria puxar esse assunto com Ariane agora. Em vez disso, ela olhou para cima e viu-se rodeada por duas estátuas gigantes. A mais próxima dela parecia um Rodin. Um homem nu e uma mulher estavam enlaçados em um abraço. Ela tinha estudado escultura francesa em Dover, e sempre pensou que as peças de Rodin eram as mais românticas. Mas agora era difícil olhar para os amantes abraçados sem pensar em Daniel.
Daniel. Que a odiava. Se ela precisasse de mais uma prova disso depois que ele basicamente fugiu da biblioteca à noite, tudo o que tinha que fazer era voltar a pensar no novo olhar fulminante que ela tinha ganhado dele esta manhã.
— Onde está o anjo vingador? — ela perguntou a Ariane com um suspiro.
— Boa escolha. Por aqui.
Ariane levou Luce para uma enorme escultura de mármore de um anjo salvando o solo da fúria de um raio. Ela pode ter sido uma peça interessante, no dia em que foi esculpida. Mas agora ela só parecia velha e suja, coberta de lama e musgo verde.
— Eu não entendi — Luce falou. — O que vamos fazer?
— Vamos dar uma esfregadinha — Ariane respondeu, quase cantando. — Eu gosto de fingir que eu estou lhes dando um banhozinho.
Com isso, ela escalou o anjo gigante, balançando as pernas ao longo do braço da estátua que impedia o raio, como se o negócio todo fosse apenas um carvalho grosso e velho para ela escalar.
Com medo de parecer que ela estava querendo mais encrenca com a Sra. Troz, Luce começou a trabalhar com seu ancinho em toda a base da estátua. Ela tentou limpar o que parecia ser uma interminável pilha de folhas úmidas.
Três minutos depois, os braços dela a estavam matando. Ela definitivamente não estava vestida para este tipo de trabalho manual lamacento. Luce nunca tinha sido enviada para a detenção na Dover, mas de acordo com o que ela tinha escutado, consistia em encher um pedaço de papel com "Eu não vou plagiar coisas da Internet" algumas centenas de vezes.
Isto era brutal. Principalmente quando tudo o que ela realmente tinha feito foi topar com Molly acidentalmente no refeitório. Ela estava tentando não fazer um julgamento precipitado aqui, mas limpar a lama de sepulturas de pessoas que tinham morrido há mais de um século? Agora Luce odiava sua vida totalmente.
Em seguida, raios de sol finalmente filtraram-se através das árvores, e de repente havia cor no cemitério. Luce sentiu-se instantaneamente mais leve. Ela podia ver mais de três metros na frente dela. Ela podia ver Daniel... trabalhando lado a lado com Molly.
O coração de Luce afundou. O sentimento de leveza desapareceu.
Ela olhou para Ariane, que lançou-lhe um olhar de simpatia do tipo isso-é-um-saco, mas continuou trabalhando.
— Hey — Luce falou em voz alta.
Ariane colocou um dedo sobre os lábios, mas gesticulou para Luce subir ao lado dela.
Com muito menos graça e agilidade, Luce agarrou o braço da estátua e se balançou para cima do pedestal. Uma vez que estava quase certa que não iria cair no chão, ela sussurrou:
— Então... o Daniel é amigo da Molly?
Ariane bufou.
— De jeito nenhum, eles totalmente se odeiam — ela disse rapidamente, e em seguida fez uma pausa. — Porque você está perguntando?
Luce apontou para os dois, não fazendo qualquer trabalho para limpar bem sua tumba. Eles estavam em pé perto um do outro, inclinando-se sobre seus ancinhos e tendo uma conversa que Luce desesperadamente desejava poder ouvir.
— Eles parecem amigos para mim.
— É a detenção — Ariane disse categoricamente. — Você tem que ficar em par. Você acha que Roland e Chester, o Molestador, são amigos?
Ela apontou para Roland e Cam. Eles pareciam estar discutindo sobre a melhor maneira de dividir o seu trabalho na estátua dos amantes.
— Companheiros de detenção não equivale a amigos na vida real.
Ariane olhou de volta para Luce, que podia sentir sua expressão caindo, apesar de seus melhores esforços para parecer imperturbável.
— Olha, Luce, eu não quis dizer... — ela dissipou a voz. — Ok, além do fato de você ter me feito perder uns bons vinte minutos da minha manhã, eu não tenho nenhum problema com você. Na verdade, eu acho que você é meio interessante. Um pouco nova. Dito isso, eu não sei o que você esperava em termos de amizade sentimental-piegas aqui no Sword & Cross. Mas deixe-me ser a primeira a te dizer, não é simplesmente assim tão fácil. As pessoas estão aqui porque têm bagagem. Eu estou falando de bagagem do tipo faça-seu-check-in, e-pague-a-multa-porque-tem-mais-de-vinte-e-dois-quilos. Entendeu?
Luce encolheu os ombros, sentindo-se envergonhada.
— Foi apenas uma pergunta.
Ariane riu nervosamente.
— Você é sempre tão defensiva? Que diabos você fez para entrar aqui, afinal?
Luce não tinha vontade de falar sobre isso. Talvez Ariane estivesse certa, seria melhor se ela não tentasse fazer amigos. Ela desceu e voltou a atacar o musgo na base da estátua.
Infelizmente, Ariane ficou intrigada. Ela saltou também, e trouxe seu ancinho em cima do de Luce para colocá-lo no lugar.
— Oh, me conta me conta me conta — ela provocou.
O rosto de Ariane estava muito perto do de Luce. Isso lembrou Luce do dia anterior, agachada sobre Ariane depois que ela teve a convulsão. Elas tinham tido um momento, não tinham? E parte de Luce queria muito ser capaz de contar a alguém. Esse tinha sido um longo e sufocante verão com seus pais. Ela suspirou, apoiando a testa na alça de seu ancinho.
Um gosto salgado de nervosismo encheu sua boca, mas ela não conseguiu engoli-lo. Da última vez que ela tinha entrado nesses detalhes, tinha sido por causa de uma ordem judicial. Ela teria se esquecido deles logo, mas quanto mais Ariane a encarava, mais claras as palavras ficavam, e elas ficavam mais perto da ponta da sua língua.
— Eu estava com um amigo uma noite — ela começou a explicar, dando uma respiração longa e profunda. — E uma coisa terrível aconteceu.
Ela fechou os olhos, rezando para que a cena não pudesse criar uma explosão de vermelho-e-preto em suas pálpebras.
— Houve um incêndio. Eu escapei... e ele não.
Ariane bocejou, muito menos horrorizada com a história do que Luce estava.
— De qualquer forma — Luce continuou — depois de tudo, eu não conseguia me lembrar dos detalhes, como isso aconteceu. O que eu pude lembrar – o que eu disse ao juiz, de qualquer maneira – eu acho que eles pensaram que eu era maluca.
Luce tentou sorrir, mas pareceu forçado.
Para sua surpresa, Ariane apertou seu ombro. E por um segundo, seu rosto pareceu realmente sincero. Depois ele mudou para um sorriso afetado.
— Nós somos todos tão incompreendidos, não somos? — Ela cutucou Luce no intestino com o dedo. — Você sabe, Roland e eu estávamos justamente falando sobre como nós não temos nenhum amigo piromaníaco. E todo mundo sabe que você precisa de um bom piro para levar a cabo qualquer pegadinha de reformatório que valha a pena. — Ela já estava planejando. — Roland pensou que talvez aquele outro novato, Todd, mas eu prefiro muito mais dividir meu fortúnio com você. Todos nós devemos colaborar em algum momento.
Luce engoliu em seco. Ela não era uma piromaníaca. Mas ela já estava cheia de falar sobre o seu passado; ela nem sequer quis se defender.
— Oh, espere até que Roland ouvir isso — Ariane disse, jogando seu ancinho para baixo. — Você é como o nosso sonho se tornando real.
Luce abriu a boca para protestar, mas Ariane já tinha ido. Perfeito, Luce pensou, ouvindo o barulho dos sapatos de Ariane andando pela lama. Agora era só uma questão de minutos antes de essas palavras viajarem por todo o cemitério até chegar a Daniel.
Sozinha novamente, ela olhou para a estátua. Mesmo ela já tendo limpado uma enorme pilha de musgo e palha, o anjo parecia mais sujo do que nunca. Todo o projeto parecia tão inútil. Ela duvidava que alguém chegasse a visitar este lugar, de qualquer maneira. Ela também duvidava que qualquer dos outros detentos ainda estivesse trabalhando.
Seus olhos apenas caíram em Daniel, que estava trabalhando. Ele estava usando muito diligentemente uma escova de aço para esfregar alguns mofos da inscrição em bronze em uma tumba. Ele tinha até mesmo levantado as mangas de seu suéter, e Luce podia ver seus músculos tensos enquanto ele trabalhava. Ela suspirou, e – ela não podia fazer nada quanto a isso – inclinou seu cotovelo contra o anjo de pedra para assisti-lo.
Ele sempre trabalhou duro.
Luce rapidamente balançou a cabeça. De onde isso tinha vindo? Ela não tinha ideia do que isso significava. E no entanto, tinha sido ela quem pensara sobre isso. Era o tipo de frase que por vezes formavam-se em sua mente antes que ela caísse no sono. Sussurros incompreensíveis que ela nunca podia conectar a qualquer coisa fora de seus sonhos. Mas aqui estava ela, bem acordada.
Ela precisava se segurar nessa coisa sobre o Daniel. Ela o conhecia há um dia, e já podia sentir-se deslizando para um lugar muito estranho e desconhecido.
— Provavelmente é melhor ficar longe dele — disse uma voz fria atrás dela.
Luce virou ao redor para encontrar Molly, na mesma pose em que ela a achou ontem: as mãos nos seus quadris, as narinas com piercing queimando. Penn tinha dito a ela que a surpreendente decisão da Sword & Cross que permitia piercings faciais veio da própria relutância do diretor de remover o brinco de diamante que ele tinha em sua orelha.
— De quem? — ela perguntou a Molly, sabendo que ela tinha soado estúpida.
Molly revirou os olhos.
— Simplesmente confie em mim quando digo que ter uma queda por Daniel seria uma ideia muito, muito ruim.
Ela sabia que o sol estava atrás de uma nuvem. Se ela pudesse quebrar o seu olhar, ela podia olhar para cima e ver isso por si mesma. Mas ela não conseguia olhar para cima, não conseguia desviar o olhar, e por alguma razão, ela tinha que apertar os olhos para vê-lo. Era quase como se Daniel estivesse criando sua própria luz, como se ele estivesse a cegando. Um barulho oco encheu os seus ouvidos, e seus joelhos começaram a tremer.
Ela queria pegar seu ancinho e fingir que ela não tinha o visto chegando. Mas era tarde demais para se fingir de descolada.
— O que ela disse para você? — ele perguntou.
— Hum... — ela deu uma evasiva, forçando seu cérebro a criar uma mentira sensata. Não encontrou nada.
Ela estalou os nós dos dedos.
Daniel colocou sua mão sobre a dela.
— Eu odeio quando você faz isso.
Luce empurrou-o para longe instintivamente. A mão dele sobre a dela tinha sido tão rápida, e ainda assim ela sentia o seu rosto corar. Ele quis dizer que isso era uma implicância dele, que o estalo de qualquer um iria incomodá-lo, certo? Porque dizer que ele odiava quando ela fazia isso implicava que ele já tinha visto ela fazer isso antes. E ele não poderia ter visto. Ele mal a conhecia. Então por que isso parecia com uma discussão que eles já tinham tido antes?
— Molly me disse para ficar longe de você — ela disse finalmente.
Daniel inclinou a cabeça de lado a lado, parecendo considerar isto.
— Ela provavelmente está certa.
Luce estremeceu. Uma sombra pairou sobre eles, escurecendo o rosto do anjo apenas tempo suficiente para deixar Luce preocupada. Ela fechou os olhos e tentou respirar, rezando para que Daniel não pudesse dizer que algo estava estranho. Mas o pânico estava crescendo dentro dela. Ela queria correr. Ela não podia correr. E se ela se perdesse no cemitério?
Daniel seguiu o seu olhar para o céu.
— O que foi?
— Nada.
— Então você vai fazer isso? — ele perguntou, cruzando os braços sobre o peito, um desafio.
— O que? — ela disse. Correr?
Daniel deu um passo na direção dela. Agora ele estava a menos de trinta centímetros de distância. Ela prendeu a respiração. Manteve o corpo completamente imóvel. Ela esperou.
— Você vai ficar longe de mim?
Isso quase parecia como se ele estivesse flertando.
Mas Luce estava completamente fora de ordem. Sua testa estava molhada de suor, e ela apertou sua têmpora entre dois dedos, tentando recuperar a posse de seu corpo, tentando pegá-lo de volta do controle dele. Ela estava totalmente despreparada para flertar de volta. Isto é, se o que ele estava fazendo era realmente flertar.
Ela deu um passo para trás.
— Eu acho que sim.
— Eu não ouvi você — ele sussurrou, levantando uma sobrancelha e dando um passo para mais perto.
Luce recuou novamente, para mais longe dessa vez. Ela praticamente bateu na base da estátua, e pôde sentir o pé de pedra arenosa do anjo raspando em suas costas. Uma segunda sombra, mais escura e mais fria, voou sobre eles. Ela poderia ter jurado que Daniel estremeceu junto com ela.
E então o gemido profundo de algo pesado assustou os dois. Luce ofegou enquanto o topo da estátua de mármore balançava em cima deles, como um galho de árvore balançando ao vento.
Por um segundo, parecia pairar no ar.
Luce e Daniel ficaram olhando para o anjo. Ambos sabiam que o seu caminho era para o chão. A cabeça do anjo inclinou-se lentamente em direção a eles, como se estivesse rezando – e depois a estátua inteira pegou velocidade enquanto começou a ser arremessada para baixo. Luce sentiu as mãos de Daniel envolverem sua cintura instantaneamente, firmemente, como se ele soubesse exatamente onde ela começava e onde terminava. A outra mão cobriu a cabeça dela e forçou-a para baixo bem quando a estátua caiu sobre eles. Exatamente onde eles estavam. Ela caiu com uma queda maciça – de cabeça na lama, com os pés ainda repousando sobre a base, deixando um pequeno triângulo embaixo, onde Daniel e Luce estavam agachados.
Eles estavam ofegantes, nariz com nariz, os olhos de Daniel assustados. Entre os seus corpos e a estátua existia apenas alguns centímetros de espaço.
— Luce? — ele sussurrou.
Tudo o que ela podia fazer era acenar. Seus olhos se estreitaram.
— O que você viu?
Em seguida uma mão apareceu e Luce sentiu-se sendo puxada para fora do espaço embaixo da estátua. Houve uma raspagem nas suas costas e em seguida uma lufada de ar. Ela viu o lampejo de luz do dia novamente. A turma da detenção estava pasma, exceto a Sra. Troz, que olhava com raiva, e Cam, que ajudou Luce a ficar de pé.
— Você está bem? — Cam perguntou, correndo os olhos sobre ela procurando por arranhões e hematomas e tirando a sujeira de seu ombro. — Eu vi a estátua caindo e eu corri para tentar pará-la, mas já era... Você deve ter ficado tão apavorada.
Luce não respondeu. Apavorado era apenas uma parte de como ela se sentia. Daniel, já de pé, nem sequer se virou para ver se ela estava bem ou não. Ele apenas foi embora.
O queixo de Luce caiu enquanto o observava ir, enquanto observava todos os outros parecem não se importar que ele tivesse ido embora.
— O que você fez? — Sra. Troz perguntou.
— Eu não sei. Em um minuto, nós estávamos lá — Luce olhou para a Sra. Troz — hum, trabalhando. Quando me dei conta, a estátua simplesmente caiu.
A Albatroz abaixou-se para examinar o anjo despedaçado. Sua cabeça tinha rachado no meio em uma linha reta. Ela começou a murmurar algo sobre as forças da natureza e pedras antigas. Mas foi a voz no ouvido de Luce que ficou com ela, mesmo depois de todos os outros terem voltado ao trabalho. Foi Molly, a apenas alguns centímetros de seu ombro, que sussurrou:
— Parece que alguém deve começar a ouvir quando eu dou conselhos.